Capítulo 9 – Parte 1: Caminhos e Desabafos
O sol da tarde se derramava suavemente sobre as ruas do bairro, tingindo os muros e calçadas com um brilho dourado. O vento leve balançava as folhas das árvores e espalhava o aroma distante de pão recém-saído do forno da padaria da esquina.
Ethan caminhava ao lado de Rosângela, as mãos nos bolsos da calça jeans, mantendo um ritmo tranquilo. Ela segurava o sorvete com uma delicadeza graciosa, lambendo a casquinha de vez em quando, enquanto olhava para ele com um semblante curioso.
O silêncio entre os dois era confortável, mas Rosângela nunca gostava de deixar os pensamentos de Ethan livres por muito tempo.
— Então, senhor popular da escola, estudou alguma coisa nas férias ou ficou só vagabundeando? — provocou, arqueando uma sobrancelha.
Ethan soltou uma risada nasal, balançando a cabeça.
— Vagabundeando? Meu nome não é João, não.
— E o que tem o João?
— Ué, tu não viu ele esses dias? O cara só falta dormir na praça de tanto que fica jogando bola lá.
Rosângela riu.
— Ah, tá. Mas e você?
Ele deu de ombros.
— Estudei um pouco, né? Mas nada muito puxado.
— E trabalho? Como tá indo?
— O mesmo de sempre.
Rosângela inclinou a cabeça, desconfiada.
— E a alimentação? Tá comendo direito? Ou só vive de besteira?
Ethan revirou os olhos teatralmente.
— Rosângela, eu sou um homem crescido, sei me virar.
— Sei. Igual aquele dia que te vi almoçando pão com refrigerante?
Ele tossiu falsamente, fingindo indignação.
— Aquilo foi exceção!
— Aham, sei.
Ela riu de novo, mas logo seu olhar ficou mais sério.
— E em casa… tá tudo bem?
A pergunta fez Ethan perder um pouco do brilho nos olhos. Ele desviou o olhar para o chão, chutando uma pedrinha no caminho.
— Tá indo.
Rosângela franziu o cenho.
— Ethan…
Ele suspirou, sabendo que ela não desistiria fácil.
— Eu tô bem, tá? Dante tá bem. A mãe… tá segurando as pontas.
— E seu pai?
Ethan apertou a mandíbula, sentindo o peso da pergunta.
— O mesmo de sempre.
Rosângela percebeu a mudança no tom de voz dele, mas antes que pudesse insistir, seu olhar pousou em um detalhe que a fez franzir o cenho: algumas marcas roxas no braço dele, que a manga dobrada da camisa não conseguia esconder completamente.
Ela parou de andar e segurou o pulso de Ethan, analisando melhor as marcas.
— O que é isso? — perguntou em um tom mais sério.
Ethan, distraído pelo assunto, nem percebeu quando se entregou.
— Ah, isso? Nada demais, só uns...
Ele parou no meio da frase.
Foi então que percebeu o que estava prestes a dizer.
Rosângela o encarava com os olhos atentos, esperando que ele terminasse.
Ethan abriu a boca para mudar de assunto, mas já era tarde demais.
Ela já sabia.
Capítulo 9 – Parte 2: Tentativas de Distração
Ethan percebeu o olhar penetrante de Rosângela sobre suas marcas e soube que precisava agir rápido. Não podia deixar que ela insistisse naquele assunto.
Sem perder tempo, ele forçou um sorriso e começou a falar sem parar, como se tivesse lembrado de algo extremamente interessante.
— Ah, você precisa ouvir sobre o meu trampo no mercadinho do Seu Mário! Ontem mesmo, uma senhora foi comprar açúcar e derrubou o pacote todo no chão, ficou parecendo cena de novela! E eu que tive que limpar tudo, claro. Mas pelo menos ganhei um trocado.
Rosângela cruzou os braços, ainda observando-o com suspeita.
— E também teve aquele dia que eu fui ajudar na barbearia, lembra? — Ele riu, fingindo leveza. — Um cliente dormiu no meio do corte e o barbeiro quase fez um buraco no cabelo dele. O cara acordou assustado, parecia que ia ter um treco! Foi difícil segurar o riso.
Ele olhou de relance para Rosângela, esperando que ela se distraísse com as histórias, mas ela continuava firme, escutando, mas sem desviar o foco.
— Ah! E também tem o mercadinho da Dona Sônia! Esses dias um moleque tentou sair com um chiclete escondido no bolso. Ela pegou o guri pelo braço e fez ele devolver, com um sermão que parecia que ia durar o dia inteiro. Depois me chamou pra organizar as prateleiras, falou que eu tenho ‘mãos ágeis e jovens’.
Ethan riu, tentando puxá-la junto para o clima descontraído.
— E o dinheiro? Ah, cada um paga de um jeito, né? O Seu Mário do mercadinho me dá em moedas, parece que eu tô juntando cofre. O barbeiro paga certinho, mas sempre com um conselho de brinde. E a Dona Sônia… Bom, ela paga com comida às vezes. Dia desses saí de lá com um saco de pão e um pedaço de queijo.
Ele soltou uma risada alta, fingindo estar totalmente imerso na conversa.
Mas Rosângela não caiu na distração.
Ela continuava parada, os olhos fixos nele, os lábios franzidos como se estivesse mastigando as palavras antes de falar.
— Ethan.
A voz dela saiu firme. Ele congelou por um instante.
— Por que você está tentando me distrair?
O silêncio que se seguiu foi como um soco no estômago. Ele piscou algumas vezes, abriu a boca para responder, mas fechou de novo.
Ela sabia.
E pior… Ela não ia deixar passar.
Capítulo 9 – Parte 3: Verdades Suavizadas
Ethan forçou um sorriso, tentando mais uma vez mudar de assunto.
— Mas e você, hein? Como tá indo a sua avó? A última vez que eu a vi, ela tava brigando com o padeiro porque o pão veio menor do que o normal.
Rosângela ergueu uma sobrancelha, claramente não caindo no truque.
— Ethan. — A voz dela saiu mais firme dessa vez, sem paciência para os desvios.
Ele desviou o olhar, esfregando a nuca. Ainda tentou uma última cartada.
— Ah, e também teve um cara no mercadinho que quis pagar com nota rasgada! Fiquei lá discutindo com ele até a Dona Sônia aparecer e dar um grito. Você tinha que ver, o cara saiu correndo igual um ladrão.
Rosângela cruzou os braços, impaciente.
— Ethan.
Ele soltou um suspiro longo, sabendo que não tinha mais saída.
— Você não vai deixar passar, né?
— Não.
Ele riu sem humor.
— Tá bom, tá bom… Eu vou falar.
Ele respirou fundo e pensou na melhor forma de contar. Não podia simplesmente despejar tudo. Não queria parecer fraco e, muito menos, sujar ainda mais a imagem do pai. Por mais que odiasse tudo o que ele fazia, ainda existia um resquício de respeito, talvez até um resquício de amor… mesmo que fosse só pelo que um dia eles tiveram.
— Olha, não é nada demais, tá? O velho… Ele só tem uma maneira meio dura de lidar com as coisas.
— Ethan. — Rosângela franziu o cenho, não acreditando na desculpa esfarrapada.
Ele riu de leve, sem graça.
— Tá bom. Ele é um escroto, eu sei. Mas… é complicado.
Ela manteve o olhar firme, esperando que ele continuasse.
Ethan respirou fundo de novo, passando a mão pelos cabelos.
— Ele acha que eu sou um rebelde sem causa. Que eu sou um problema. E quando eu… sei lá, desafio ele de alguma forma, ele faz questão de deixar claro que ele tá no controle.
Ele deu de ombros, tentando parecer indiferente.
— Não é como se eu não soubesse lidar com isso. Eu já me acostumei.
Rosângela mordeu o lábio inferior, parecendo querer dizer algo, mas segurando as palavras.
Ethan percebeu e sorriu fraco.
— Eu sei o que você tá pensando. Mas não adianta. Ele sempre foi assim. Eu só… aprendi a lidar.
Ela suspirou, os olhos cheios de algo que parecia mistura de raiva e preocupação.
— E a sua mãe? Ela não faz nada?
Ele riu, mas sem humor.
— Ela tenta. Mas ele tem aquele olhar, sabe? Aquele que diz ‘se você se meter, vai ser pior’. E eu não quero que ela sofra por minha causa. Então eu deixo… É melhor assim.
Rosângela ficou em silêncio por um momento.
Ethan se sentiu inquieto, então sorriu de lado, tentando aliviar o clima.
— Ei, não faz essa cara, não. Eu tô bem. Se fosse algo sério, eu te falaria.
Ela soltou uma risada curta, sem acreditar muito.
— Você nunca me falaria, Ethan.
Ele piscou algumas vezes, pegando-se sem resposta.
— Mas tudo bem. — Ela continuou. — Eu te conheço. Eu sei que você não quer se abrir completamente. Mas só me promete uma coisa?
Ele arqueou uma sobrancelha.
— O quê?
— Que quando estiver insuportável… Quando estiver pesado demais… Você vai me procurar.
Ethan ficou quieto por um instante.
Rosângela segurou sua mão, apertando de leve.
Ele sentiu um nó na garganta, mas não demonstrou.
— Tá. Eu prometo.
Ela sorriu, satisfeita.
E, pela primeira vez naquela noite, Ethan sentiu que não estava sozinho.
Capítulo 9 – Parte 4: O Caminho de Volta
O céu tingia-se de tons alaranjados e rosados, um pôr do sol suave espalhava sua luz cálida sobre as ruas simples e modestas do bairro. O vento frio do entardecer soprava de leve, balançando as roupas estendidas nos varais das casas e fazendo os sinos de vento tilintarem suavemente. O cheiro de pão recém-saído do forno escapava da padaria da esquina, misturando-se ao aroma de terra molhada dos últimos resquícios da chuva dos dias passados.
Ethan caminhava ao lado de Rosângela até a casa dela, localizada em uma das ruas mais bem cuidadas do bairro. Diferente da maioria das casas modestas ao redor, a dela tinha uma fachada pintada de branco, com uma pequena varanda florida e janelas de madeira envernizadas. O jardim na frente estava bem cuidado, com roseiras e algumas ervas aromáticas crescendo ao lado do caminho de pedras que levava à porta.
Assim que chegaram, Rosângela foi recebida por sua mãe, Dona Marieta, uma mulher de sorriso acolhedor e olhar atento. Seu pai, Seu Álvaro, estava sentado em uma cadeira de balanço no alpendre, tragando um cigarro enquanto observava a rua com a serenidade de um homem acostumado com a rotina da vida.
Ethan, sempre educado, ajeitou a postura e cumprimentou respeitosamente:
— Bença, Dona Marieta. Bença, Seu Álvaro.
Os dois sorriram.
— Deus te abençoe, Ethan. Obrigada por trazer nossa menina de volta cedo e em segurança. — A mãe de Rosângela disse com um olhar de aprovação.
— Você tem juízo, garoto. Bom rapaz. — Seu Álvaro acrescentou, soltando a fumaça do cigarro e assentindo levemente.
Ethan sorriu de canto, satisfeito.
— Eu que agradeço, senhor. Sempre um prazer.
Rosângela riu baixinho da formalidade de Ethan com os pais dela. Ele podia ser o garoto mais descolado da escola, mas ali, diante dos sogros, era um verdadeiro cavalheiro.
Os pais dela entraram, deixando os dois sozinhos na varanda por alguns instantes. O silêncio entre eles foi preenchido pelo cantar de um grilo ao longe e pelo farfalhar das folhas ao sabor do vento.
Ethan virou-se para Rosângela, aproximando-se um pouco. Ele ergueu uma das mãos e ajeitou uma mecha solta do cabelo dela atrás da orelha, seu toque suave como uma brisa.
— Vai sentir minha falta até amanhã? — Ele perguntou com um sorriso travesso.
Rosângela ergueu uma sobrancelha, cruzando os braços.
— Acha mesmo que eu sou tão dependente assim de você?
Ele riu.
— Eu acho.
Ela revirou os olhos, mas sorriu, sabendo que ele estava certo.
Ethan deslizou os dedos pela bochecha dela e, em um gesto lento e intencional, segurou seu queixo delicadamente. Seus olhos escuros a estudavam com um brilho intenso, como se quisesse gravar cada traço de seu rosto em sua memória.
— Durma bem, minha dama. — Ele sussurrou, antes de se inclinar e roçar os lábios suavemente contra a testa dela.
Rosângela fechou os olhos por um momento, aproveitando o carinho. Quando abriu novamente, Ethan já dava alguns passos para trás, com aquele sorriso ladino que fazia o coração dela acelerar.
— Vai, entra antes que eu me arrependa e te roube pra outro passeio. — Ele brincou.
Ela riu e balançou a cabeça.
— Boa noite, Ethan.
Ele acenou e começou a caminhar de volta para casa, suas mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta enquanto assobiava uma melodia qualquer.
O caminho de volta era silencioso, apenas o som de seus próprios passos ecoando pelo asfalto gasto da rua. As luzes dos postes amarelados começavam a acender uma a uma, iluminando as fachadas desgastadas das casas e os becos estreitos entre os pequenos comércios do bairro.
Ao passar em frente ao mercadinho da Dona Sônia, ele viu a idosa fechando as portas com um pouco de dificuldade. Sem pensar duas vezes, apressou-se até ela.
— Precisa de ajuda, Dona Sônia?
Ela sorriu ao reconhecê-lo.
— Ah, Ethan, meu querido, sempre tão prestativo. Se puder empurrar essa porta pra mim, eu agradeço. Minhas costas já não são como antes.
Ele rapidamente segurou a porta pesada e a fechou com firmeza.
— Pronto. Mais alguma coisa?
— Só se quiser levar um pãozinho pra casa. É o último do dia.
Ethan sorriu, pegando o pão embrulhado em papel.
— Minha mãe vai gostar. Obrigado.
— Boa noite, querido. E cuidado no caminho.
Ele se despediu e continuou sua caminhada.
A medida que se aproximava de casa, o ambiente mudava. O cheiro do jantar simples preparado por Isabelle escapava pelas janelas abertas, misturando-se ao aroma do sabonete recém-usado no banho de Dante. O som da televisão vinha baixo da sala, onde Alexander provavelmente assistia algo após o jantar.
Ethan respirou fundo antes de abrir o portão e entrar.
O clima tranquilo da rua contrastava com o peso que sempre sentia ao cruzar aquela porta.
Mas, como sempre, ele mascarou qualquer vestígio de preocupação, abriu um sorriso despreocupado e entrou.
(Continua no Capítulo 10...)
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Atualizado até capítulo 65
Comments
Emilly Braz
aí gente que fofos! ( Eu nem gosto de romance hetero, mas gostei deles)
2025-04-03
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