Capítulo 15 – O Retorno ao Lar (Março de 1994)
O dia de março de 1994 tinha trazido consigo um ar de transição: o frio suave da manhã ainda se fazia presente, mas a promessa de um sol radiante estava prestes a se revelar. Ethan e Dante saíam juntos da escola, deixando para trás os corredores ecoantes e as salas repletas de vozes ansiosas. Enquanto caminhavam pelo pátio da escola, o ambiente transbordava um misto de despedida e expectativa; as crianças riam e corriam, mas para os irmãos, cada passo os conduzia para um lar que carregava, em cada detalhe, a história e o amor de sua família.
A rua que os levava para casa era pavimentada com paralelepípedos que, sob a luz tímida da manhã, refletiam um brilho sutil e nostálgico. As casas do bairro, com suas fachadas cuidadas e varais de roupas que oscilavam ao sabor do vento, formavam um cenário digno de um retrato antigo – cada janela, cada porta, parecia contar um segredo de tempos passados. O cheiro de café fresco e de pão assado escapava de algumas residências, convidando os transeuntes a se aquecerem antes do dia iniciar com vigor.
Ethan, com 19 anos, exibia um semblante de maturidade que contrastava com a inocência de Dante, de 9 anos, que caminhava ao lado dele com uma postura ereta e curiosa, absorvendo cada detalhe do mundo à sua volta. Ethan vestia sua camisa social, cuidadosamente engomada, e suas calças jeans, levemente gastas, evidenciando os anos de trabalho árduo no mercadinho da Dona Sônia. Em seu pulso, o anel de noivado brilhava discretamente, lembrando a todos – e, principalmente, a si mesmo – que ele estava construindo uma nova etapa de sua vida, prestes a assumir não apenas os desafios de um emprego fixo, mas também o futuro de um legado familiar.
No caminho, os irmãos se comunicavam com diálogos que misturavam seriedade e leveza, cada palavra carregada de significados mais profundos do que aparentavam.
— "Dante, você notou como o bairro mudou? Olha aquelas janelas novas, o cheiro do pão… parece que até o tempo se ajeitou pra deixar tudo mais bonito, não é?" – comentou Ethan, observando uma pequena padaria que acabara de abrir as portas com a bandeirinha de “ABERTO”.
Dante, com seus olhos brilhantes e analíticos, respondeu enquanto ajustava a mochila nas costas:
— "Sim, irmão. E eu acho que cada pedra desse caminho tem uma história. Cada esquina, um segredo."
Ethan sorriu com um misto de orgulho e nostalgia; havia algo de quase poético na maneira como o irmão mais novo via o mundo, mesmo que, em seu íntimo, ele soubesse que Dante estava, de maneira sutil, absorvendo também os ensinamentos sobre poder, influência e as sutilezas da vida. Ainda assim, naquele momento, a conversa se restringia a uma apreciação genuína do presente – a beleza de uma manhã simples e acolhedora.
Ao se aproximarem da residência, o cenário se transformou: o portão de ferro forjado, pintado de um azul que contrastava com o verde das plantas cuidadosamente podadas, se abria para revelar um jardim modesto, mas bem cuidado. Flores coloridas – cravos, margaridas e gerânios – espalhavam seus aromas, enquanto a grama, aparada com esmero, completava o quadro de tranquilidade. A porta da casa, de madeira robusta, exibia detalhes entalhados, fruto do cuidado artesanal de gerações passadas.
Ethan empurrou a porta com um leve rangido que ecoou pelo corredor silencioso, e logo os dois irmãos se encontraram imersos no calor do lar. No hall de entrada, fotos antigas emolduradas, que contavam histórias de família, pendiam discretamente na parede. O cheiro familiar de incenso e café se misturava com o aroma de um jantar que Isabelle já havia preparado com tanto carinho. Cada detalhe ali – as cortinas de linho, a mesa de jantar polida à perfeição, os tapetes que amorteciam os passos – demonstrava a dedicação de uma família que, apesar das dificuldades e das diferenças, sempre se encontrava para celebrar o cotidiano.
Enquanto Ethan guardava sua mochila ao lado da porta, Dante, com um sorriso discreto, observava tudo com seus olhos atentos e mente perspicaz. Em seu íntimo, ele registrava cada detalhe – não apenas como uma memória, mas como uma ferramenta que um dia poderia servir para delinear seus próprios caminhos. A atmosfera era de cumplicidade e aconchego, e os irmãos se sentaram juntos na sala, onde a luz amarelada das lâmpadas antigas lançava sombras dançantes sobre as paredes.
— "Hoje foi um bom dia, Dante." – Ethan disse, olhando para o irmão com carinho, mas também com uma certa solenidade que revelava os desafios e as conquistas que viriam com o passar dos anos.
— "Sim, Ethan. Eu aprendi que cada passo tem o poder de mudar o amanhã." – respondeu Dante, sua voz baixa e segura, enquanto seus pensamentos, silenciosos e calculados, mergulhavam na ideia de um futuro repleto de possibilidades, onde ele próprio poderia decidir o rumo de sua existência.
Enquanto o relógio da sala marcava o compasso dos momentos, Alexander surgia discretamente pelo corredor, aproximando-se com sua postura rígida, mas agora, de maneira sutilmente mais próxima dos filhos, como se o tempo tivesse suavizado um pouco suas arestas. Isabelle, sempre amorosa e acolhedora, sorria ao ver os irmãos reunidos, celebrando um retorno ao lar que parecia, naquele instante, tão perfeito quanto um sonho cuidadosamente arquitetado.
Continuação do Capítulo 15 – Laços e Mudanças
A sala de estar exalava um calor acolhedor, suavizado pelo cheiro de café fresco vindo da cozinha. O relógio de parede marcava o tempo de forma quase ritualística, os ponteiros avançando lentamente enquanto Ethan, sentado à mesa com um semblante maduro, tentava encontrar as palavras certas para falar com seus pais.
Dante, por outro lado, permanecia em silêncio. Com a mochila pendurada em um dos ombros, ele se movia pela cozinha com uma expressão pensativa, fingindo se ocupar com pequenas tarefas, mas sem perder uma única palavra da conversa que se desenrolava.
Ethan pousou as mãos sobre a mesa, respirou fundo e, com um tom firme, mas cheio de respeito, disse:
— "Mãe, pai… Eu quero conversar com vocês sobre algo importante."
Isabelle, que estava ocupada secando uma xícara, parou o movimento e olhou para o filho com atenção. Seu olhar carregava um misto de ternura e expectativa. Alexander, sentado na cadeira de braços cruzados, manteve sua expressão séria, mas inclinou levemente a cabeça, indicando que estava ouvindo.
Ethan ajeitou o anel de noivado no dedo e continuou:
— "Eu e Rosângela decidimos que está na hora de darmos o próximo passo. Estamos planejando nos casar."
O silêncio na sala durou apenas alguns segundos, mas a tensão que se formou era palpável. Dante, que até então fingia não estar prestando atenção, olhou de canto de olho para ver a reação dos pais.
Isabelle foi a primeira a reagir. Seus olhos brilharam e um sorriso doce se formou em seus lábios.
— "Meu filho… Isso é maravilhoso!" — ela disse, segurando a mão de Ethan com carinho. "Rosângela é uma moça incrível, e vocês dois se amam. Isso me deixa muito feliz."
Alexander, no entanto, não demonstrou a mesma empolgação. Ele descruzou os braços devagar, fitando o filho mais velho com uma expressão indecifrável.
— "Casamento não é brincadeira, Ethan." — Sua voz saiu firme, carregada do peso da responsabilidade que ele sempre impunha. "Você tem certeza de que está pronto para isso?"
Ethan assentiu sem hesitação.
— "Eu estou, pai. Tenho um emprego fixo no mercadinho da Dona Sônia, e ela já decidiu que quando eu me casar, o mercadinho será meu. Não vou dar um passo maior do que posso. Já alugamos uma casa… e ela fica aqui na mesma rua. Vou continuar perto, sempre que precisarem de mim."
Dante, ainda fingindo estar distraído, franziu levemente as sobrancelhas. "Então ele realmente vai sair de casa… Vai construir a própria vida." A ideia mexia com ele de uma forma difícil de explicar.
Alexander respirou fundo, esfregando o queixo.
— "É um caminho sem volta, Ethan." — Seu tom não era de reprovação, mas de advertência. "Ser marido, futuramente pai… Tudo isso exige mais do que trabalho duro. Exige maturidade, sacrifício. Você está preparado para sustentar uma casa e uma família?"
Ethan sorriu de forma determinada.
— "Estou, pai. Sei que não vai ser fácil, mas eu cresci vendo você e a mãe segurarem essa casa com esforço e amor. Eu aprendi com vocês. Eu estou pronto para construir a minha própria família."
Houve outro momento de silêncio, até que Alexander, de forma surpreendente, assentiu levemente.
— "Se você está certo disso, então eu não vou impedir."
Foi o mais próximo de uma bênção que Ethan poderia receber do pai, e ele sabia disso.
Isabelle, sem conter a emoção, se levantou e abraçou o filho com força.
— "Meu menino está crescendo…" — sua voz saiu abafada contra o ombro de Ethan.
Dante, encostado no balcão da cozinha, observava tudo com uma expressão neutra. Mas dentro de sua mente, algo se agitava.
"Se Ethan está saindo… isso significa que agora eu serei o único filho em casa. Isso muda as coisas."
Ele baixou os olhos para a xícara de chá que segurava e apertou os lábios, imerso em pensamentos que, por ora, apenas ele entendia.
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Atualizado até capítulo 65
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