Em uma História de Amor...
– Capítulo 1
Céu cinzento e risos de criança
O bairro era um reflexo da vida simples e modesta de seus moradores. As ruas eram asfaltadas, mas com remendos aqui e ali, e algumas vielas ainda tinham terra batida. As casas variavam entre pequenas construções de tijolos sem reboco e outras um pouco mais cuidadas, com fachadas pintadas em tons desbotados. Algumas possuíam pequenos jardins com flores e ervas, enquanto outras tinham apenas um chão de terra ou concreto, com bicicletas encostadas e roupas penduradas em varais improvisados.
Negócios locais davam vida à rua: o mercadinho da Dona Sônia, um lugar pequeno e abarrotado de produtos com um cheiro misturado de café moído e pão quente; a barbearia do Seu Cláudio, onde senhores jogavam dominó enquanto esperavam a vez; a vendinha de salgados da Dona Marta, onde o cheiro de coxinhas fritando fazia qualquer criança implorar por um lanche.
O céu carregava nuvens densas e cinzentas, escondendo o sol, que apenas deixava escapar uma luz difusa e amarelada. O ar era pesado, úmido, e carregava aquele cheiro característico que antecede a chuva.
Apesar da ameaça do temporal, as crianças brincavam como se o tempo não importasse. Um grupo de garotos chutava uma bola já gasta, marcando gols imaginários entre dois tijolos. Meninas brincavam de boneca, sentadas na calçada, trocando roupinhas e inventando histórias sobre famílias e príncipes encantados. Alguns garotos giravam piões com destreza, enquanto outros jogavam bolinhas de gude no chão de terra, gritando em comemoração a cada acerto. Um pequeno grupo pulava amarelinha, contando os números em voz alta, seus sapatos levantando poeira a cada salto. Algumas crianças corriam em brincadeiras de pega-pega e esconde-esconde, suas risadas ecoando pela rua.
No meio da algazarra infantil, um garotinho se destacava. Mesmo entre tantas crianças, ele era impossível de ignorar.
Dante, um alfa de apenas cinco anos, parecia saído de um sonho. Sua beleza era rara, quase sobrenatural. Seus traços eram perfeitamente simétricos, sua pele era impecável, lisa e clara, contrastando com os fios de cabelo prateados, lisos e sedosos, que reluziam mesmo sob a luz fraca do dia nublado. Os olhos eram de um tom azul profundo, brilhando como safiras lapidadas, e carregavam um olhar intenso, ao mesmo tempo calmo e misterioso.
Sua expressão era serena, mas também carregava um ar reservado. Ele não era o tipo de criança que corria para se misturar com os outros, mas também não rejeitava companhia. Preferia ficar em seu pequeno círculo de amigos, brincando de futebol com uma postura concentrada. Mesmo sendo tímido e um pouco antissocial, sua presença era magnética. Seu jeito educado e polido o tornava querido por todos, e até mesmo os adultos da vizinhança comentavam sobre sua elegância natural e o quão especial ele era.
Mas sua liberdade tinha limite. Seus pais, extremamente protetores e conservadores, permitiam que brincasse apenas por pouco tempo. Ele já sabia que logo seria chamado para casa, ainda mais com a chuva iminente.
Não muito longe dali, um olhar atento o seguia.
Ethan, seu irmão mais velho, um alfa de 15 anos, estava sempre por perto, supervisionando-o com uma vigilância quase instintiva. Ao contrário de Dante, sua presença era mais imponente e agressiva. Ethan possuía um porte físico forte para a idade, cabelos negros e volumosos, cortados de maneira rebelde, e olhos de um verde intenso, quase felinos. Seu rosto tinha traços bem definidos e uma beleza igualmente impressionante, mas carregava um ar mais feroz e intenso.
Seus braços cruzados sobre o peito e a expressão séria denunciavam seu jeito superprotetor. Mesmo que Dante estivesse seguro e apenas brincando, Ethan nunca relaxava. Sempre que alguma criança mais velha se aproximava do irmão, seu olhar se tornava mais afiado, como o de um predador analisando uma possível ameaça.
A rua era barulhenta e animada, mas entre um trovão distante e o vento que começava a soprar, o aviso de que a brincadeira logo chegaria ao fim pairava no ar.
Dante chutava a bola uma última vez, sem perceber que em breve, o chamado de casa viria — e com ele, o mundo protegido e rigoroso de sua família o aguardava.
O primeiro pingo de chuva caiu sutilmente, como um aviso. Pequenas gotículas começaram a se espalhar pelo chão de terra e asfalto rachado, criando manchas escuras no solo seco. O vento trouxe um cheiro forte de terra molhada, e as crianças, antes tão imersas nas brincadeiras, começaram a ouvir os chamados das mães para que voltassem para casa.
Dante sentiu o vento frio soprar contra seu rosto e, instintivamente, parou de correr atrás da bola. Seus cabelos prateados se moveram levemente com a brisa, e seus olhos azuis subiram para o céu nublado. O peso da tempestade iminente pairava sobre eles, mas ele não demonstrava preocupação. Na verdade, gostava da chuva — havia algo reconfortante no som das gotas caindo.
Mas antes que pudesse se perder nesses pensamentos, uma voz firme e ao mesmo tempo gentil soou atrás dele.
— Dante, já deu por hoje. Vamos entrar.
Ethan.
O irmão mais velho se aproximou em passos largos, seus olhos verdes analisando Dante como se procurasse qualquer sinal de cansaço, frio ou perigo. Ele nunca baixava a guarda quando se tratava do irmãozinho. Para Ethan, Dante era como um pequeno diamante — raro, precioso, e frágil demais para estar exposto ao mundo rude lá fora.
Dante olhou para Ethan e, por um momento, pareceu hesitar. Ainda queria brincar, ainda queria correr, mas sabia que não adiantaria discutir. Seu irmão era inflexível quando se tratava de sua segurança.
— Mas ainda não está chovendo de verdade... — murmurou Dante, desviando o olhar.
Ethan ergueu uma sobrancelha, cruzando os braços.
— Você sabe como mãe é, né? Se te vê molhado, vai achar que pegou um resfriado e te encher de chá ruim. E se você ficar doente, quem vai te proteger?
Dante suspirou, derrotado. Ele sabia que Ethan sempre usava esse tipo de argumento para convencê-lo. No fundo, não queria preocupar a mãe.
— Tá bom… Mas eu queria jogar mais.
Ethan soltou um pequeno sorriso de canto, passando a mão nos cabelos do irmão de maneira protetora.
— Vai ter outros dias, pirralho. Agora anda logo antes que eu te carregue.
Dante bufou baixinho, mas não protestou mais. Pegou a bola e seguiu Ethan até a casa.
A casa deles ficava em uma das ruas mais modestas do bairro. Era pequena, com paredes de tijolos aparentes e uma pintura antiga que começava a descascar em algumas partes. O telhado era de telhas avermelhadas e um pouco gastas pelo tempo. A porta de madeira rangia levemente ao ser aberta, e o pequeno corredor de entrada dava direto para a sala.
O interior era simples, mas aconchegante. O sofá, embora velho, era coberto por um tecido bem cuidado, e almofadas coloridas traziam um toque de vida ao ambiente. Na parede, uma estante pequena de madeira guardava algumas fotos da família — retratos da mãe sorrindo ao lado dos filhos, uma imagem antiga do casamento dos pais, e uma foto dos dois irmãos ainda bebês, juntos no mesmo berço.
O cheiro de comida fresca se espalhava pelo ar. Do outro lado da sala, na cozinha aberta e iluminada pela luz fraca da lâmpada pendurada no teto, Isabelle — a mãe de Dante e Ethan — estava ocupada preparando um lanche. O cheiro de pão assando e café recém-coado se misturava com o aroma doce de bolo de fubá.
Ela tinha cabelos castanhos presos em um coque simples, e seu rosto, mesmo jovem, carregava sinais de cansaço e preocupação. Suas mãos habilidosas cortavam fatias de pão enquanto cantarolava baixinho uma música antiga.
Quando ouviu os passos dos filhos, ergueu o olhar e sorriu, com um alívio nítido nos olhos castanhos.
— Voltaram antes da chuva cair de verdade. Graças a Deus!
Ethan soltou um riso nasalado e balançou a cabeça.
— Dante queria ficar lá fora até virar sapo.
Dante revirou os olhos, tirando os tênis molhados na entrada.
— Nem tava chovendo tanto assim...
Isabelle suspirou e caminhou até Dante, abaixando-se para ajeitar os fios prateados que caíam sobre o rosto dele.
— Você sabe como seu pai é, querido. Se ele chega e vê vocês molhados ou doentes, vai implicar.
Dante abaixou os olhos, sentindo um peso familiar no peito. Seu pai sempre fora rígido, duro com palavras e expressões, e parecia sempre encontrar algo para criticar, principalmente sobre ele. Mas sua mãe tentava amenizar tudo, protegendo-o dentro do possível.
Ethan percebeu o incômodo no irmão e, sem pensar duas vezes, bagunçou o cabelo dele de leve, desviando o foco da conversa.
— Mãe, tem bolo? — perguntou, mudando de assunto de propósito.
Ela riu, percebendo a intenção, mas jogou um olhar cúmplice ao filho mais velho, grata pela sensibilidade.
— Tem sim, espertinho. Mas primeiro, troquem essas roupas. E depois lavem as mãos, antes de pensarem em encostar na comida.
Ethan revirou os olhos, mas obedeceu, puxando Dante pelo braço.
— Viu? Eu sou seu guarda-costas até contra fome. Anda, pirralho, vamos trocar de roupa antes que mãe decida dar bronca dupla.
Dante riu baixinho, sentindo o carinho na provocação do irmão. Mesmo em meio à rigidez do pai e às dificuldades da vida, sabia que sempre teria Ethan ao seu lado.
E, por enquanto, isso era o suficiente para sentir que estava seguro.
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Atualizado até capítulo 65
Comments
∫∫𝐆𝒐𝒓𝒐•𝑵𝒂𝒌𝒂𝒎𝒖𝒓𝒂∫∫
xonei na história 😍😍😍😍
2025-02-25
1
Mecca
Impressionante! 😲
2025-02-04
1