Capítulo 3 – O Começo das Mudanças
Uma Tarde Nublada e um Inconveniente no Mercadinho
O Bairro e o Clima
No dia seguinte. O bairro era um daqueles lugares simples, onde todos se conheciam e a vida parecia seguir um ritmo próprio. As casas eram modestas, algumas de tijolos à vista, outras rebocadas de forma irregular, com pintura desgastada pelo tempo. Os quintais eram pequenos, alguns com jardins improvisados, outros apenas de terra batida ou cimento rachado.
As ruas não tinham asfalto, apenas um chão de barro endurecido, que ficava escorregadio quando chovia. E, naquele dia, o céu carregado de nuvens cinzentas prometia uma tempestade iminente. O ar estava denso, úmido, com aquele cheiro característico de terra prestes a ser molhada.
Os comércios locais davam vida ao bairro: a padaria com seu cheiro constante de pão quente, a barbearia onde os homens se reuniam para conversar sobre futebol e política, e, claro, o mercadinho da Dona Sônia, um pequeno estabelecimento com prateleiras improvisadas e um balcão antigo, onde se comprava de tudo um pouco.
As crianças aproveitavam a tarde enquanto podiam.
Dante, mesmo sendo tímido e reservado, estava no meio da brincadeira de bola, correndo de um lado para o outro. Seu cabelo prateado brilhava suavemente sob a pouca luz que passava pelas nuvens. Ele não costumava tomar iniciativa, mas quando já estava dentro da brincadeira, sua energia se tornava evidente.
Ao redor, outras crianças se ocupavam com suas próprias diversões: meninas brincavam com bonecas de pano, garotos jogavam bolinha de gude no chão de terra, alguns se desafiavam em partidas de pião, e a clássica amarelinha estava desenhada com giz branco, já um pouco apagado pela poeira.
Ethan, como sempre, estava por perto. Ele não jogava, mas também não se afastava. Seu olhar vigilante seguia cada movimento de Dante. Era como se estivesse sempre pronto para intervir caso algo acontecesse.
E então, aconteceu.
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O Alvoroço no Mercadinho
Um som agudo quebrou a tranquilidade da rua.
— Eu já disse que não aceito isso!
A voz áspera de um homem ecoou do mercadinho da Dona Sônia.
Dante parou no meio da brincadeira, olhando em direção ao estabelecimento. Outras crianças também interromperam suas atividades, os olhares curiosos se voltando para o local.
No interior do mercadinho, a pequena Dona Sônia, uma senhora de cabelos grisalhos presos em um coque frouxo, estava atrás do balcão, com uma expressão entre aflita e indignada.
Do outro lado do balcão, um homem alto e robusto gesticulava de forma agressiva. Seu rosto estava suado, os olhos semicerrados e a voz carregava uma mistura de raiva e desespero.
— Eu compro aqui há anos, Sônia! Você sabe que eu pago depois!
A senhora manteve sua postura firme, embora sua voz saísse trêmula.
— Eu sei disso, mas… as contas também não esperam, seu Mariano. Eu preciso receber.
Dante não desviava o olhar. Algo dentro dele se revirava ao ver a idosa sendo pressionada.
Ethan, percebendo a reação do irmão, se aproximou e colocou a mão em seu ombro.
— Não é da nossa conta, Dante.
Mas Dante não respondeu.
Dentro do mercadinho, o homem bufou, cerrando os punhos.
— Então eu vou levar de qualquer jeito!
Ele avançou em direção às prateleiras, pegando uma sacola e começando a encher com produtos. Dona Sônia arregalou os olhos, alarmada.
— Seu Mariano, não faça isso!
O homem ignorou, jogando dentro da sacola arroz, feijão, leite e até uma barra de sabão. Suas mãos tremiam.
Dante mordeu o lábio inferior.
Seu pai sempre dizia que problemas dos outros não deviam ser preocupação deles. Mas… ele não podia simplesmente assistir aquilo.
Num impulso, ele se afastou do grupo e começou a caminhar em direção ao mercadinho.
Ethan imediatamente segurou seu braço.
— Dante. Não.
O olhar de Dante encontrou o do irmão mais velho. Ele não precisava dizer nada. Ethan sabia exatamente o que ele queria fazer.
E também sabia que não adiantaria tentar impedi-lo.
— Se você for, eu vou junto.
Dante não discutiu. Apenas assentiu.
E então, ambos atravessaram a rua.
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A Confrontação
Ao chegarem na entrada do mercadinho, o clima dentro estava ainda mais carregado. Dona Sônia tentava argumentar, mas seu Mariano já estava com os braços cheios de produtos, a expressão transtornada.
Dante avançou um passo.
— Senhor, por favor, pare.
A voz infantil, porém firme, fez o homem se virar bruscamente.
Seus olhos encontraram os de Dante. Um garoto pequeno, mas que emanava uma presença diferente. Ele franziu o cenho, surpreso, mas logo bufou.
— Isso não é problema seu, moleque. Cai fora.
Dante não se mexeu.
Ethan, ao lado, cruzou os braços e lançou um olhar intimidador. Apesar de ser apenas um adolescente, sua presença era mais que suficiente para fazer qualquer um pensar duas vezes antes de agir impulsivamente.
Dona Sônia aproveitou a pausa para tentar se aproximar.
— Seu Mariano, vamos conversar. Eu posso ver o que dá para fazer.
Mas o homem já estava perdendo o controle.
Ele apertou os produtos nos braços e rosnou, a voz embargada de frustração.
— Vocês não entendem! Eu não tenho escolha! Meus filhos precisam comer! Eu...
Houve um momento de silêncio.
E então, para surpresa de todos, Dante deu um passo à frente.
— Eu entendo.
A voz do garoto saiu baixa, mas cheia de convicção.
O homem olhou para ele, confuso.
Dante continuou:
— Mas Dona Sônia também precisa pagar as contas. Se o senhor pegar tudo sem pagar… ela vai ter problemas também.
Seu Mariano engoliu em seco. Seu olhar foi do pequeno garoto para a idosa atrás do balcão.
A raiva começou a dar espaço ao cansaço.
Os produtos começaram a escorregar de seus braços.
E, num suspiro longo e pesado, ele os soltou de volta no balcão.
A tensão se dissipou.
Dona Sônia soltou o ar que nem havia percebido que estava prendendo.
O homem passou a mão pelo rosto, parecendo derrotado.
— Me desculpe… — murmurou.
Dante apenas assentiu.
Ethan, que até então estava em estado de alerta, finalmente relaxou um pouco.
Dona Sônia deu um passo à frente e segurou a mão do homem com um aperto gentil.
— Vamos ver uma solução, está bem? Você não está sozinho.
O homem fechou os olhos por um momento e então, com um último olhar para os meninos, saiu do mercadinho, a cabeça baixa.
Dona Sônia suspirou e olhou para Dante e Ethan.
— Obrigada, meninos.
Dante não respondeu. Apenas sorriu de leve.
Ethan, por outro lado, suspirou pesadamente e bagunçou o cabelo do irmão.
— Você ainda vai me dar muito trabalho, Dante.
Lá fora, a chuva começava a engrossar.
E, com ela, um pressentimento estranho se instalou no peito de Ethan.
Como se, a partir daquele dia, as coisas nunca mais fossem as mesmas.
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Atualizado até capítulo 65
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