Capítulo 5 – O Amanhecer e o Conflito
A Primeira Luz do Dia
O dia 31 de janeiro de 1990 amanhecia lentamente. O céu ainda carregava os tons alaranjados e rosados do nascer do sol, tingindo as ruas com uma luz suave e dourada. O bairro humilde começava a ganhar vida com os primeiros sinais da rotina diária. Os pássaros já cantavam nos fios elétricos, enquanto alguns vizinhos abriam suas portas, bocejando e se espreguiçando antes de começar mais um dia de trabalho.
O ar da manhã era fresco, carregando consigo o cheiro úmido da chuva que caíra na noite anterior. Pequenos poços d’água refletiam a luz do amanhecer nas calçadas de concreto rachado. Algumas casas já tinham fumaça saindo de suas chaminés ou exaustores, indicando que o café da manhã estava sendo preparado.
Dentro da casa dos irmãos, a cozinha era o único cômodo realmente iluminado naquele momento.
O Aroma do Café da Manhã e a Rotina
Isabelle estava de pé diante do fogão, vestindo seu avental surrado e prendendo o cabelo em um coque frouxo. O cheiro forte de café recém-passado tomava conta do ambiente, misturado ao aroma do pão torrando e dos ovos fritando na frigideira. O barulho do óleo estalando ecoava suavemente, preenchendo o silêncio da casa ainda adormecida.
A mesa da cozinha era simples, de madeira desgastada, com algumas cadeiras já desajustadas. Sobre ela, havia uma toalha de tecido puído, e em cima, pratos e xícaras já arrumados, prontos para receber a família.
Alexander estava sentado ali, já desperto e tomando seu café. Ele lia um jornal amassado, franzindo o cenho para as manchetes enquanto tragava um cigarro, soltando a fumaça pelo canto da boca. Seu olhar era distante, sua expressão sempre carregada de cansaço e irritação.
Foi nesse momento que Dante saiu do banheiro.
Dante e a Vontade de Ajudar
O garotinho apareceu no corredor, ainda secando o rosto com uma toalha pequena. Seu cabelo prateado estava um pouco úmido e bagunçado pelos movimentos apressados. Vestia uma camisa de algodão levemente grande para seu pequeno corpo e um short simples. Seus olhos brilhantes e inocentes refletiam a pouca luz que entrava pela janela.
Ao sentir o cheiro do café da manhã, Dante sorriu e caminhou até a cozinha. Assim que viu a mãe ocupada no fogão, quis ajudar.
— Mamãe, eu posso arrumar a mesa? — perguntou com sua voz suave e infantil, já pegando um copo para colocar sobre a mesa.
Isabelle virou-se e abriu um pequeno sorriso.
— Claro, querido. Mas cuidado, tá bom? Não precisa ter pressa.
Dante assentiu, animado por poder ajudar. Com as mãozinhas pequenas, pegou um segundo copo e tentou colocá-lo sobre a mesa. Mas, ao alcançar o terceiro, seus dedos escorregaram.
O vidro deslizou de sua mão e caiu no chão.
O barulho do copo se estilhaçando ecoou pela cozinha, quebrando o breve momento de tranquilidade.
Dante arregalou os olhos, levando as mãos à boca, assustado com o próprio erro. Isabelle se virou imediatamente, indo até ele.
— Tudo bem, meu amor. Não se preocupe, só tome cuidado para não pisar nos caquinhos—
Mas antes que ela pudesse terminar, a voz áspera de Alexander cortou o ar.
— Dante!
Dante estremeceu, sentindo o coração acelerar. Ele lentamente ergueu os olhos para o pai, que havia abaixado o jornal e agora o encarava com expressão severa.
— Você já tem idade suficiente para saber segurar um copo sem deixá-lo cair. Está sempre distraído, sempre fazendo tudo errado.
O pequeno alfa abaixou a cabeça, sentindo a vergonha e o medo tomarem conta de seu peito.
— Foi um acidente... — murmurou em um fio de voz.
Alexander bateu a mão na mesa, fazendo a louça tremer.
— Acidentes acontecem com quem não presta atenção! Você está de castigo.
Dante sentiu os olhos arderem, mas não queria chorar. Ele apenas engoliu seco e assentiu, sem saber o que dizer.
Foi nesse momento que Ethan apareceu na porta da cozinha.
Ethan Contra o Pai
O adolescente ainda estava com os cabelos bagunçados e vestia apenas uma bermuda, demonstrando que havia acabado de se levantar. Ao ouvir a voz do pai alterada, ele foi direto até a cozinha e viu a cena: Dante encolhido, os estilhaços de vidro no chão, Isabelle abaixada tentando limpar e Alexander, como sempre, tornando tudo pior.
O olhar de Ethan se endureceu imediatamente.
— Castigo? Pelo quê? Por deixar cair um copo? — sua voz veio carregada de sarcasmo e raiva contida.
Alexander virou-se para ele com um olhar igualmente afiado.
— Isso não é da sua conta. Ele precisa aprender a ter mais atenção.
Ethan cruzou os braços e deu um passo à frente.
— Ele tem cinco anos. Cinco! Você quer que ele se comporte como um adulto? Por que você sempre age assim com ele?
Alexander se levantou da cadeira, agora claramente irritado.
— Porque ele precisa aprender disciplina! Algo que você nunca teve, porque é um desrespeitoso, um ingrato!
Ethan riu pelo nariz, um riso sem humor.
— Ah, claro. "Disciplina". Engraçado como toda vez que você quer descontar seu mau humor, isso vira "ensinar disciplina".
O ar da cozinha ficou pesado.
Isabelle, que ainda estava abaixada recolhendo os cacos, tentou intervir.
— Ethan, por favor...
Mas ele não se calaria.
— Não, mãe. Ele não vai colocar o Dante de castigo por causa de um maldito copo quebrado.
Alexander cerrou os dentes, seus punhos se fechando com força.
— Eu sou o pai aqui. E você não me dá ordens.
Ethan o encarou de igual para igual, sem recuar.
— E eu sou o irmão dele. E enquanto eu estiver aqui, você nunca vai tratá-lo da mesma forma que me trata.
Alexander se aproximou de Ethan, ficando a poucos centímetros dele.
— Então você está se colocando entre mim e a criação do seu irmão?
— Sim. E sempre vou me colocar.
O olhar de Alexander era puro ódio. Aquele embate entre pai e filho era antigo, uma guerra silenciosa que se intensificava com o passar dos anos.
Dante, ainda encolhido, apenas observava com os olhos arregalados. Ele odiava quando Ethan e o pai brigavam. Odiava estar no meio disso.
Finalmente, Alexander se afastou e pegou seu cigarro sobre a mesa.
— Não perca seu tempo tentando desafiar minha autoridade. Você já passou da idade de ter medo de mim, mas seu irmão ainda tem muito a perder.
Ethan cerrou os punhos, mas não respondeu. Ele sabia que, se dissesse qualquer outra coisa, o pai poderia se exaltar ainda mais.
Alexander se afastou, levando consigo seu jornal e saindo da cozinha sem sequer olhar para os filhos.
O silêncio ficou.
Dante ainda não havia se movido. Seu coração batia acelerado, e ele segurava as lágrimas com todas as forças.
Ethan suspirou e se abaixou para ficar na altura do irmão.
— Você não fez nada de errado. Entendeu?
Dante hesitou, mas assentiu.
Ethan sorriu de leve e bagunçou o cabelo do pequeno.
— Vem, vamos terminar o café da manhã.
E, como sempre, Ethan mais uma vez havia sido o escudo de Dante.
Mas no fundo, ele sabia.
Um dia, essa guerra teria seu preço.
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Atualizado até capítulo 65
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