Um vislumbre de Normalidade

Capítulo 10 – Parte 1: Um Vislumbre de Normalidade

Ethan empurrou o portão de casa e sentiu um calafrio estranho. A noite estava silenciosa, apenas o som distante de um rádio ligado em alguma casa vizinha quebrava a tranquilidade. Ele entrou e fechou o portão atrás de si, cruzando o pequeno quintal antes de chegar à porta da frente.

Quando a abriu, esperava encontrar o habitual peso sufocante que pairava sobre aquela casa, mas… algo estava diferente.

O ambiente parecia… normal?

O cheiro de comida caseira ainda quente dominava a cozinha. Na sala, Dante estava sentado no tapete felpudo, brincando com seus bonequinhos, imerso em seu próprio mundinho de imaginação. O pequeno movia os brinquedos de um lado para o outro, murmurando falas e efeitos sonoros enquanto criava sua história particular.

O mais surpreendente, no entanto, era Alexander. Ele estava sentado no sofá, assistindo televisão, mas sem aquele semblante fechado e intimidador de sempre. Ele não fumava, nem parecia irritado, nem mesmo parecia incomodado com Dante brincando ao seu lado. A cena era tão… pacata que Ethan precisou piscar algumas vezes para ter certeza de que não estava delirando.

Foi apenas quando Isabelle apareceu com um prato de comida quente que ele percebeu que, seja lá o que estivesse acontecendo, ela sabia de algo.

— Você demorou, meu filho. — A voz dela veio doce e gentil, como sempre. — Eu aqueci a comida pra você. Sente-se e coma.

Ethan olhou para ela com desconfiança, mas a mulher apenas sorriu, um sorriso carregado de algo que ele não conseguia decifrar de imediato.

Ele puxou uma cadeira e se sentou, enquanto Isabelle colocava o prato na mesa.

— O que foi que eu perdi? — Ele perguntou, erguendo uma sobrancelha.

Antes que ela respondesse, olhou para Alexander novamente, que continuava assistindo ao programa de TV sem parecer prestar atenção em nada mais. Ele parecia… calmo.

Calmo demais.

Isabelle sentou-se ao lado de Ethan e, antes que ele pudesse insistir na pergunta, ela apenas apertou de leve sua mão sobre a mesa e sussurrou:

— Eu conversei com ele.

Ethan sentiu um aperto no peito. Sua mãe sempre teve esperança, sempre acreditou que Alexander poderia ser algo melhor, mas Ethan não compartilhava dessa mesma fé.

— E ele te prometeu alguma coisa? — Perguntou cético, pegando o garfo e cutucando a comida no prato.

Ela apenas sorriu suavemente e assentiu.

Ethan soltou um suspiro discreto e olhou para o lado. Dante ainda brincava, totalmente alheio ao que acontecia ao seu redor. E Alexander… bom, Alexander era um mistério naquele momento.

Ethan respirou fundo, pegou o garfo e levou a primeira garfada à boca. Se aquilo era real ou apenas mais uma ilusão passageira, ele ainda não sabia. Mas, por ora, decidiu apenas observar.

Ethan sentiu o impacto imediato quando Dante correu em sua direção. O pequeno parecia radiante, como sempre, com os olhos brilhando ao ver o irmão voltar para casa. Ele apoiou suas mãos na cadeira e abraçou as pernas de Ethan com força, como se fosse a melhor parte do dia.

— Bem-vindo de volta, Ethan! — Dante exclamou, os olhos brilhando de alegria. Ele levantou um pequeno sorriso que fez o coração de Ethan apertar. "Meu pequeno", pensou ele, tentando não deixar as emoções tomarem conta.

— Oi, meu bem. — Ethan abaixou a cabeça e acariciou os cabelos do irmão. — O que é isso?

Dante correu até a mochila e voltou rapidamente, trazendo-a com um ar orgulhoso. Ele abriu com cuidado a mochila, mostrando os novos materiais escolares, e começou a apontar para cada um com entusiasmo.

— Olha, Ethan! — Ele segurava um estojo novo, com desenhos de super-heróis. — Tem canetas coloridas, lápis, borrachas, e esse caderno grandão! A mamãe e o papai me compraram tudo pra mim, e eu vou usar amanhã!

Ethan se inclinou para ver, sentindo uma leve saudade de um tempo que ele sabia que jamais voltaria. Dante estava crescendo tão rápido, e ele sentia que a inocência do irmão precisava ser preservada o máximo possível. No entanto, quando Dante mencionou que os pais haviam comprado os materiais, Ethan ergueu o olhar na direção de Alexander, curioso e, ao mesmo tempo, desconfiado.

Alexander, ainda sentado no sofá, virou a cabeça e olhou para o filho mais velho, mantendo sua expressão firme. O tom grave da sua voz cortou o silêncio.

— Eu fui até a papelaria da Dona Sônia... — disse ele, sua voz mais suave do que o normal, um tom familiar que Ethan não ouvia há muito tempo. — Comprei o necessário para o Dante, claro... mas também alguns extras. Ele está empolgado com a primeira aula na escolinha, achei que não faria mal gastar um pouco mais, já que é algo importante para ele.

Ethan permaneceu em silêncio por um momento, estudando o pai. As palavras de Alexander pareciam genuínas, mas algo no olhar dele fazia Ethan questionar suas intenções. Alexander nunca foi conhecido por ser generoso, pelo menos não sem um motivo por trás disso.

— Eu achei que ele merecia, sabe? — Alexander continuou, virando-se um pouco mais na direção de Ethan, como se o estivesse convidando a entender. — Afinal, é o primeiro dia na escolinha. Achei que não faria mal, e ainda posso sempre colocar ele no caminho certo.

O tom de Alexander estava suave, quase nostálgico, como se estivesse tentando reconquistar algo perdido — talvez aquela sensação de ser o bom pai que, por um momento, ele pensou ser.

Ethan sentiu o peso das palavras, mas não sabia o que responder. Ele havia visto os esforços do pai no passado, mas também sabia que isso não significava que as coisas estavam diferentes agora. Ele apenas assentiu, mais por educação do que por convicção.

— É, talvez você tenha razão... — disse Ethan, tentando esconder a tensão que sentia. Ele olhou para Dante, que estava animado e não percebeu o que estava acontecendo entre os dois.

Dante parecia tão feliz com a nova mochila, com os materiais novos e sua entrada iminente na escolinha. Isso era tudo o que importava naquele momento. Ethan apenas suspirou, decidindo seguir o fluxo.

— Eu vou fazer o meu melhor amanhã, Ethan! Vou ser o melhor aluno! — Dante disse com um sorriso confiante, saltando de alegria.

Ethan sorriu para o irmão e colocou uma mão em sua cabeça.

— Tenho certeza que vai arrasar, Dante. Você sempre foi o mais inteligente.

Isabelle, que estava no canto da sala, observando a cena com um sorriso suave, sentiu que aquele pequeno gesto de normalidade poderia ser um avanço, mesmo que temporário. Ela se levantou e caminhou até a cozinha, onde os preparativos para o jantar estavam prontos, dando a impressão de que, talvez, as coisas realmente pudessem melhorar para aquela família — por mais que as cicatrizes do passado ainda estivessem lá, visíveis e profundas.

Mas por agora, ela apenas esperava que, por um momento, as coisas realmente pudessem ser normais.

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...****************...

A noite enquanto todos dormiam....

Ethan permaneceu deitado, encarando o teto, ouvindo apenas a respiração ritmada de Dante na outra cama. O quarto pequeno estava escuro, iluminado apenas pelos feixes fracos da luz da rua que atravessavam a cortina fina. O mundo inteiro parecia adormecido, mas sua mente não conseguia descansar.

A conversa de mais cedo com Alexander despertou algo dentro dele. Ele nunca permitiria que alguém soubesse, mas ali, sozinho na madrugada, ele se pegou revivendo algumas das suas memórias favoritas.

Lembranças que ele enterrou.

Ele tinha 5 anos. Na época, ainda não falava direito, tropeçava nas palavras, formando frases incompletas e emboladas. Isabelle sempre tentava ajudá-lo, mas quem realmente dedicava tempo a isso era Alexander.

Lá estava ele, chegando do trabalho com o rosto sujo de graxa e cansaço evidente nos olhos, mas mesmo assim, antes do jantar, sentava-se no sofá e pegava Ethan no colo.

— Vamos lá, moleque. Hoje você vai aprender a falar isso direito.

Ele segurava o queixo pequeno do filho, guiando-o pacientemente. Nunca levantava a voz, nunca se irritava. Somente ensinava. E então, depois de várias tentativas, Alexander sorria orgulhoso quando Ethan finalmente acertava.

Ethan nunca admitiria, mas aquela era uma das suas lembranças mais queridas.

O primeiro dia de aula. Ele estava apavorado. Pequeno, com um uniforme que parecia grande demais, escondido atrás da perna da mãe. Mas foi Alexander quem o fez reunir coragem.

— Vai lá, campeão. Você vai arrasar.

O tom era tão confiante, tão certo. Ethan acreditou.

Seu aniversário de 7 anos. Eles não tinham dinheiro para uma festa. Ele já estava conformado em apenas comer um bolinho simples com os pais. Mas Alexander... Alexander fez de tudo. Passou o dia inteiro tentando conseguir dinheiro extra. E quando a noite caiu, Ethan teve a maior festinha infantil de sua vida.

O bolo tinha a temática do seu personagem favorito. Alguns amiguinhos da escola vieram, junto com crianças da vizinhança. Ele nunca esqueceu a felicidade daquela noite.

Aos 8 anos. Alexander estava consertando o carro de um vizinho, e Ethan se sentou ao lado dele no chão, fascinado.

— Sabe como isso aqui funciona, garoto?

E então ele explicou cada peça, cada mecanismo, como se estivesse contando um segredo. Ethan se lembrava da graxa nas mãos do pai, do cheiro de óleo e metal, da paciência com que Alexander detalhava tudo.

Aos 10 anos...

Mas a última memória boa...

A última vez que Alexander foi esse pai...

Foi quando Isabelle estava grávida de Dante.

Ele se lembrava claramente do pai o chamando para conversar. Alexander se abaixou até a altura dele, segurou seus ombros firmemente e disse com seriedade:

— Você vai ser o irmão mais velho agora. Sabe o que isso significa?

Ethan balançou a cabeça.

— Significa que ele vai precisar de você. Que ele vai olhar para você e querer ser como você. Você precisa ser forte. Você precisa protegê-lo. Você pode fazer isso, campeão?

Foi naquele momento que Ethan soube.

Foi ali que ele decidiu que faria qualquer coisa para manter Dante seguro.

Mas então...

O que aconteceu depois?

Por que tudo mudou?

Por que aquele Alexander desapareceu?

Ethan fechou os olhos, forçando as memórias a se dissolverem. Ele não queria pensar nisso. Não queria buscar respostas que talvez não existissem.

Ao invés disso, virou-se para o lado, observando Dante dormir serenamente.

Se havia algo que ele tinha certeza, era que manteria aquele garotinho longe de tudo aquilo.

De tudo que Ethan teve que passar.

De tudo que ele perdeu.

...----------------...

Capítulo 10 – Parte 2

Isabelle estava na cozinha preparando o café da manhã. Era 05/02/1990, segunda feira, a volta as aulas e...o primeiro dia de aula de Dante.

… Dante já estava acordado há um bom tempo, ansioso demais para esperar.

O pequeno, de cinco anos, acordou ainda antes do sol se levantar completamente. Seu uniforme, que Isabelle havia passado com tanto carinho na noite anterior, estava cuidadosamente dobrado sobre uma cadeira. Mas, em vez de esperar que a mãe o vestisse e preparasse tudo como uma mãe normal faria, ele tentou fazer tudo sozinho.

Ele puxou a camisa e vestiu, mas errou os botões, deixando-os desalinhados. O shorts ficou meio torto, e o sapato? Bem, ele amarrou os cadarços do jeito errado, criando um nó difícil de desfazer. Mas Dante não se importava. Ele queria estar pronto antes de todo mundo.

Quando Isabelle entrou no quarto para acordá-lo, encontrou a cena inusitada: seu filho já vestido—ou quase—com um sorriso vitorioso no rosto, mas um uniforme todo desajeitado.

— Meu Deus, Dante! — ela soltou uma risadinha surpresa, levando a mão à boca.

Dante abriu os braços como se exibisse seu grande feito.

— Já tô pronto, mamãe!

Isabelle não sabia se ria ou se suspirava. No fim, ela se ajoelhou diante dele e começou a refazer tudo, alinhando os botões, ajustando o shorts e refazendo o nó dos cadarços com delicadeza.

— Meu pequeno rapazinho independente, hein? — brincou, dando um beijinho na testa dele. — Mas, da próxima vez, me chama, tá bom?

Dante assentiu com entusiasmo.

Enquanto isso, no outro quarto, Ethan ainda estava jogado na cama, coberto até a cabeça, tentando ignorar o burburinho da casa. Ele nunca foi do tipo matinal.

— Acorda, preguiçoso! — Dante invadiu o quarto e pulou sobre ele.

— Dante, pelo amor de Deus… — Ethan resmungou, a voz abafada pelo travesseiro.

— É meu primeiro dia! Vamos!

Com um suspiro longo, Ethan finalmente empurrou as cobertas para longe e sentou na cama, esfregando os olhos. Ele olhou para Dante, que pulava de um lado para o outro, claramente tomado pela euforia.

— Tá feliz assim por ir pra escola?

Dante sorriu largamente.

— Sim! E sabe o que mais? Papai comprou minha mochila e meu material!

O sorriso de Ethan diminuiu um pouco. Ele ainda não sabia o que pensar sobre essa "nova fase" de Alexander, mas não queria estragar a animação do irmãozinho.

— Então vamos logo tomar café. Se você quer chegar cedo, melhor não enrolar.

Dante saiu correndo da frente. Ethan demorou um pouco mais para levantar, alongando-se antes de se arrastar até a cozinha.

Na cozinha…

O cheiro de café recém-passado e pão quente pairava no ar. Isabelle estava cheia de energia, colocando a mesa como se fosse um dia especial. Havia suco de laranja natural, bolo de fubá, pão com manteiga e frutas cortadas. Tudo preparado com carinho.

Alexander, por outro lado, estava sentado à mesa tomando café, lendo o jornal, sem demonstrar muito entusiasmo. Ainda assim, ele estava ali. E não parecia rabugento, nem irritado. Apenas… presente.

Quando Ethan entrou na cozinha, Isabelle sorriu.

— Senta, filho, eu fiz um café da manhã reforçado pra vocês dois.

Dante já estava devorando um pão com manteiga, balançando as perninhas na cadeira de tão animado.

Ethan sentou ao lado dele e serviu-se de café. O silêncio foi preenchido pelos sons normais da manhã—o barulho das xícaras, dos talheres, do rádio baixo tocando alguma música dos anos 80 no fundo.

Até que Dante quebrou o silêncio.

— Mamãe, você vai me levar hoje?

Isabelle sorriu.

— É claro, meu amor. Eu quero ver você entrar na escola pela primeira vez.

Dante bateu palminhas, satisfeito.

Ethan apenas observava, enquanto mastigava devagar. No fundo, ele sentia um calorzinho no peito. Uma cena normal. Uma família normal. Algo que ele não via há tempos.

Mas será que duraria?

Ethan terminou de tomar o café e se levantou, pegando a mochila que estava encostada na parede.

— Mãe, vou sair mais cedo. Vou buscar a Rosângela pra gente ir juntos pra escola.

Isabelle assentiu, recolhendo os pratos.

— Tudo bem, filho. Mas não se atrase, tá bom?

— Pode deixar.

Ele bagunçou o cabelo de Dante de leve, que riu e reclamou ao mesmo tempo.

— Ei! Eu acabei de arrumar!

Ethan deu uma risadinha e seguiu para o quarto para se arrumar. Vestiu o uniforme com pressa, ajeitou o cabelo no espelho e conferiu se tinha tudo na mochila. Antes de sair, pegou um chiclete no bolso, jogou um último olhar para Dante, que continuava animado na cozinha, e saiu porta afora.

O dia ainda estava fresco, com o sol nascendo devagar e pintando o céu com tons alaranjados. Enquanto caminhava para a casa de Rosângela, Ethan aproveitou aquele pequeno momento de tranquilidade, sabendo que a rotina da escola logo o puxaria para a correria de sempre.

Capítulo 10 – Parte 3

O céu exibia um degradê suave de tons alaranjados e rosados, enquanto as ruas ainda despertavam para um novo dia. O cheiro de pão fresco e café forte escapava das casas, misturando-se ao leve perfume do orvalho da madrugada. O vento matinal soprava gentilmente, sacudindo as roupas estendidas nos varais e balançando as árvores na calçada.

Ethan seguia seu caminho com as mãos nos bolsos da calça, assobiando uma melodia qualquer. O friozinho da manhã fazia com que ele respirasse fundo, aproveitando o frescor antes do calor do dia tomar conta.

Ao dobrar a esquina, avistou Rosângela saindo pelo portão de casa, ajeitando os cabelos com pressa. Ela vestia o uniforme escolar com uma jaqueta jeans por cima e calçava os sapatos enquanto tentava equilibrar a mochila no ombro.

— Demorei? — ela perguntou, um pouco ofegante.

Ethan arqueou uma sobrancelha.

— Se você tivesse demorado mais um pouco, eu ia começar a cobrar juros.

Rosângela revirou os olhos, mas sorriu.

— Ai, Ethan, para de ser mercenário logo cedo.

— Não sou mercenário, sou um homem de negócios. — Ele cruzou os braços. — Você se arrumando parece aquelas atrizes de novela que tentam fugir pela janela pra não serem vistas pelos pais.

Ela riu.

— Eu perdi a hora, tá bom?

Ele a olhou de cima a baixo.

— Dá pra ver. Tá parecendo que se vestiu pulando no guarda-roupa e saindo com o que grudou no corpo.

Rosângela empurrou seu ombro de leve.

— Que engraçado você, hein? Agora cala a boca e anda logo, porque eu não quero me atrasar.

Ethan soltou uma risada baixa e começou a caminhar ao lado dela.

Enquanto seguiam pela rua, o movimento aumentava. Algumas mães levavam seus filhos pequenos para a escola, carregando mochilas coloridas e lancheiras. Os comércios começavam a abrir suas portas, e um grupo de trabalhadores já se reunia na padaria da esquina, tomando café antes do expediente.

Rosângela olhou para Ethan de canto de olho e perguntou:

— E aí, tá animado pra volta às aulas?

Ethan suspirou, enfiando as mãos nos bolsos.

— Animado é uma palavra muito forte. Tô... sobrevivendo.

Ela riu.

— Vai ser legal. Aposto que o Dante tá mais animado que você.

Ele sorriu de canto.

— Com certeza. O moleque acordou parecendo que ia ganhar um prêmio.

Rosângela sorriu.

— É o primeiro dia dele, né? Normal ficar empolgado. Ele deve estar se sentindo o cara mais importante do mundo.

Ethan assentiu, mas depois fez uma expressão pensativa.

— Sabe o que eu fico pensando? Ele vai continuar todo felizinho quando perceber que escola não é só brincadeira.

Rosângela riu.

— Ah, Ethan, não estraga o momento do seu irmão!

— Tô só falando a verdade. Ele vai descobrir que a professora não vai dar pirulito depois de cada lição.

— Você tá dizendo que tá preocupado com ele?

Ethan deu de ombros.

— Óbvio que tô. Mas ele é esperto, vai se virar bem. Se alguém encher o saco dele, eu mesmo vou lá resolver.

Rosângela riu, cruzando os braços.

— Você fala isso agora, mas aposto que vai ficar espionando ele o dia inteiro na escola, igual uma mãe coruja.

Ele fez uma expressão fingindo indignação.

— O quê? Eu? De jeito nenhum! Eu sou um cara ocupado, tenho coisas importantes pra fazer.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Aham. Me engana que eu gosto.

Eles continuaram andando, agora rindo e trocando piadas. O dia estava apenas começando, e apesar de todas as preocupações, Ethan se sentia mais leve do que imaginava.

Capítulo 10 – Parte 4

A sala de aula estava decorada com desenhos coloridos nas paredes, alguns feitos por alunos mais velhos e outros comprados para dar um ar lúdico ao ambiente. O cheiro de lápis de cor e papel novo pairava no ar, misturado ao leve perfume das professoras que circulavam pelo espaço. O quadro negro estava limpo, pronto para as primeiras lições do ano.

Dante estava sentado em sua pequena carteira de madeira, de pernas cruzadas e postura impecável. Seus olhos analisavam o ambiente com uma calma desconcertante para alguém de apenas cinco anos. A luz que entrava pela janela iluminava seu rosto, fazendo com que seu cabelo brilhasse suavemente, realçando ainda mais sua beleza incomum.

Os sussurros começaram cedo.

— Ele parece um príncipe de história! — cochichou uma garotinha ruiva para sua amiga.

— É verdade... Olha os olhos dele! — murmurou outra menina de tranças, encantada.

Os meninos da turma não ficavam atrás. Alguns o encaravam com uma mistura de admiração e inveja silenciosa.

As professoras também notaram. Uma das assistentes se aproximou da professora titular e sussurrou:

— Meu Deus, olha para ele... Parece uma escultura viva.

A professora concordou, sorrindo de forma afetuosa.

— E além disso, parece muito comportado. Será um aluno exemplar.

Dante percebeu cada olhar. Cada cochicho. Cada pequeno detalhe. Ele não demonstrava nada, apenas mantinha sua expressão tranquila e um leve sorriso, fingindo não perceber a comoção em torno de si.

As atividades começaram, e logo ficou evidente outra característica impressionante: Dante era absurdamente inteligente.

Enquanto algumas crianças ainda tentavam entender como segurar o lápis direito, ele já traçava letras perfeitas no caderno. Enquanto a professora explicava como contar até dez, ele terminava a atividade em segundos e repousava o lápis, observando os colegas com um ar distraído.

— Dante, já terminou? — a professora perguntou, surpresa.

Ele apenas assentiu calmamente, deslizando o caderno na mesa para que ela conferisse. Ao olhar as respostas, a professora piscou algumas vezes, impressionada.

— Muito bem, querido! Você é muito esperto!

Dante sorriu de maneira doce, como se não fosse grande coisa.

Ele percebeu algo curioso. Cada vez que agia de maneira educada e obediente, os adultos o tratavam como um pequeno rei. Os colegas o admiravam. Os professores se desdobravam para elogiá-lo.

"Interessante..."

Ele entendeu rapidamente que tinha um dom. Um poder silencioso. A capacidade de fazer as pessoas ao seu redor gostarem dele sem esforço, apenas com sua aparência e inteligência.

Se ele elogiasse uma professora, ela sorria e o tratava com ainda mais carinho.

Se ajudasse um colega, ganhava respeito e simpatia instantânea.

Se mantivesse um ar humilde, todos acreditavam que ele era apenas uma criança excepcionalmente talentosa, sem malícia alguma.

"Isso pode ser útil..."

Dante decidiu, ali mesmo, que guardaria essa descoberta para si. Nem mesmo Ethan saberia. Seu irmão era inteligente, mas muito emocional. Ele provavelmente tentaria fazê-lo seguir um caminho "correto" e desperdiçar essa ferramenta poderosa.

Ele brincaria de inocente por enquanto. Se tornaria o queridinho dos professores, o aluno exemplar, o menino perfeito. Mas sempre observando, sempre analisando, sempre se preparando.

Afinal, saber como as pessoas funcionam é uma arma valiosa.

E Dante já começava a afiar a sua.

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Comments

∫∫𝐆𝒐𝒓𝒐•𝑵𝒂𝒌𝒂𝒎𝒖𝒓𝒂∫∫

∫∫𝐆𝒐𝒓𝒐•𝑵𝒂𝒌𝒂𝒎𝒖𝒓𝒂∫∫

eu não sabia que esse brutamonte sabia ser gente!!!!!!

2025-03-01

1

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Capítulos
1 Céu cinzento e risos de criança.
2 Laços e Fendas
3 O Começo das Mudanças.
4 A Rotina Antes da Tempestade.
5 O amanhecer e o conflito
6 a noite silenciosa e o pesadelo no porão
7 Um novo dia, Uma nova esperança.
8 Sorvete e Laços Fraternos
9 Caminhos e Desabafos
10 Um vislumbre de Normalidade
11 cada peça, leva a perfeição.
12 o aniversário de Ethan está perto.
13 o aniversário de Ethan
14 uma má influência sempre está ao nosso lado e sabemos disso.
15 Março de 1994
16 Dois mundos, dois irmãos.
17 O peso das escolhas.
18 Silêncios e Feridas
19 o reflexo do controle.
20 Esperança? não existe... não mais...
21 Flashback de 2001
22 flashback de 2001 (parte 2)
23 Flashback de 2001 (parte 3)
24 flashback de 2002
25 flashback de 2003...
26 flashback início de 2004
27 O Peso do Silêncio
28 O Fardo do Silêncio
29 ...
30 A Verdade.
31 o Novo Começo.
32 o equilíbrio (ou a falta dele)
33 o drama da marmita
34 caos no telemarketing
35 um novo ritmo e um novo sentimento.
36 a descoberta
37 corrida contra o tempo
38 o caminho para a mudança.
39 um novo começo.
40 fragmentos do passado.
41 uma manhã caótica e uma surpresa
42 Sob a Chuva, Entre Sorrisos e Promessas
43 ecos do passado
44 um novo começo.
45 acolhendo o novo.
46 A nova rotina.
47 o passado bate à porta
48 o passado, o presente e o futuro.
49 o retorno para casa
50 o sábado de reencontro
51 O Primeiro Sinal.
52 A Febre Não Baixa
53 Internação.
54 O Peso da Culpa
55 Resgate
56 Reconstrução.
57 O Caminho de Volta
58 Novos Caminhos e Velhos Medos
59 O Peso da Realidade.
60 O Peso da Esperança.
61 A Esperança Renascente
62 Caminhos Divergentes.
63 Uma Nova Onda
64 Reconstruindo Pontes
65 De Volta Para Casa
Capítulos

Atualizado até capítulo 65

1
Céu cinzento e risos de criança.
2
Laços e Fendas
3
O Começo das Mudanças.
4
A Rotina Antes da Tempestade.
5
O amanhecer e o conflito
6
a noite silenciosa e o pesadelo no porão
7
Um novo dia, Uma nova esperança.
8
Sorvete e Laços Fraternos
9
Caminhos e Desabafos
10
Um vislumbre de Normalidade
11
cada peça, leva a perfeição.
12
o aniversário de Ethan está perto.
13
o aniversário de Ethan
14
uma má influência sempre está ao nosso lado e sabemos disso.
15
Março de 1994
16
Dois mundos, dois irmãos.
17
O peso das escolhas.
18
Silêncios e Feridas
19
o reflexo do controle.
20
Esperança? não existe... não mais...
21
Flashback de 2001
22
flashback de 2001 (parte 2)
23
Flashback de 2001 (parte 3)
24
flashback de 2002
25
flashback de 2003...
26
flashback início de 2004
27
O Peso do Silêncio
28
O Fardo do Silêncio
29
...
30
A Verdade.
31
o Novo Começo.
32
o equilíbrio (ou a falta dele)
33
o drama da marmita
34
caos no telemarketing
35
um novo ritmo e um novo sentimento.
36
a descoberta
37
corrida contra o tempo
38
o caminho para a mudança.
39
um novo começo.
40
fragmentos do passado.
41
uma manhã caótica e uma surpresa
42
Sob a Chuva, Entre Sorrisos e Promessas
43
ecos do passado
44
um novo começo.
45
acolhendo o novo.
46
A nova rotina.
47
o passado bate à porta
48
o passado, o presente e o futuro.
49
o retorno para casa
50
o sábado de reencontro
51
O Primeiro Sinal.
52
A Febre Não Baixa
53
Internação.
54
O Peso da Culpa
55
Resgate
56
Reconstrução.
57
O Caminho de Volta
58
Novos Caminhos e Velhos Medos
59
O Peso da Realidade.
60
O Peso da Esperança.
61
A Esperança Renascente
62
Caminhos Divergentes.
63
Uma Nova Onda
64
Reconstruindo Pontes
65
De Volta Para Casa

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