Dois mundos, dois irmãos.

Capítulo 16 – Dois Mundos, Dois Irmãos

Julho de 2000 – Férias de Meio de Ano

A cidade já não parecia mais a mesma. Os anos passaram como um sopro, levando consigo a inocência e trazendo mudanças irreversíveis. As ruas, antes repletas de crianças correndo despreocupadas, agora viam jovens caminhando com ares de independência, cada um seguindo seu próprio rumo.

Na casa onde tudo começou, a rotina também havia se transformado. Ethan, agora com 25 anos, estava casado com Rosângela e era pai de Milena, uma menina de 5 anos. O mercadinho da Dona Sônia, que ele herdara após o casamento, era sua principal responsabilidade. Trabalhava duro, sustentava sua família e tentava, sempre que possível, manter contato com os pais e o irmão mais novo.

Dante, por outro lado, havia trilhado um caminho muito diferente. Agora com 15 anos, era um jovem cuja beleza era admirada por todos, sua inteligência permanecia afiada e sua popularidade na escola era inquestionável. Mas, além da aparência e da mente brilhante, havia algo mais nele: uma rebeldia crescente.

Nos últimos anos, a influência de Rael, aquele amigo que crescera em meio ao crime e às dificuldades, se intensificara. Dante não apenas ouvia suas histórias agora – ele as vivia.

O QUE ACONTECEU NESSES ANOS?

Ethan e Rosângela casaram-se em 1995, no mesmo bairro onde cresceram. Um casamento simples, mas cheio de amor. Um ano depois, em 1996, tiveram Milena.

Alexander continuava severo, mas com a idade foi se tornando mais reservado. Seu olhar exigente ainda pesava sobre Dante, mas as brigas e punições diminuíram. Talvez pelo cansaço, talvez por perceber que nada mais segurava o filho caçula.

Isabelle, sempre amorosa, tentava equilibrar a casa e manter os laços entre os filhos. Com Ethan morando em sua própria casa e Dante se afastando cada vez mais, sua preocupação só aumentava.

Dante, ao longo dos anos, foi afiando suas habilidades. Inteligente e observador, ele aprendeu rapidamente a manipular situações a seu favor. O garoto tímido e recluso da infância agora era o centro das atenções na escola.

Nos últimos três anos, ele começou a sair escondido. No começo, era só curiosidade. Mas logo virou um hábito. Ele ia para festas, bares e até mesmo lugares que não deveria conhecer.

O PRESENTE – JULHO DE 2000

As férias de meio de ano trouxeram um ar de liberdade que Dante sabia aproveitar bem. Enquanto Ethan acordava cedo todos os dias para trabalhar no mercadinho e cuidar da família, Dante dormia até tarde, saía à noite sem dar explicações e voltava de madrugada, silencioso como um fantasma.

Ele não era um filho rebelde no sentido destrutivo. Seus pais nunca o viram bêbado, nunca o flagraram com drogas, nunca o pegaram em uma encrenca grande. Mas ele sempre estava um passo à frente, sabendo exatamente como se esquivar das regras sem parecer que fazia algo de errado.

Na escola, era desejado por muitas ômegas e betas, mas nunca se prendeu a ninguém. Dante gostava do jogo, do poder que tinha sobre os outros. Ele ficava com quem queria e quando queria, nunca permitindo que ninguém entrasse fundo demais em sua vida.

Rael, agora com 16 anos, estava mais envolvido do que nunca no outro lado da vida. Enquanto Dante testava os limites, Rael já os havia ultrapassado há muito tempo.

— "Dante, você tem que vir hoje. Vai ser a melhor festa do ano." — Rael dizia, jogado no sofá da casa dele.

— "Qual é o esquema?" — Dante perguntou, girando uma moeda entre os dedos.

— "Bebida, mulheres, música e muita coisa acontecendo nos fundos. Se quiser ganhar dinheiro fácil, também tem como. Mas isso eu te explico lá."

Dante sorriu de canto. Ele não estava interessado em dinheiro sujo. Mas estava interessado em ver até onde conseguia ir sem ser pego.

O CONFLITO ENTRE OS IRMÃOS

Ethan percebia o comportamento do irmão. Ele sabia que Dante saía escondido, que evitava conversar e que estava cada vez mais distante.

— "Mãe, você já conversou com ele?" — perguntou uma noite, enquanto ajudava Isabelle a lavar a louça.

— "Já tentei, filho… Mas Dante é esperto. Ele não deixa brechas, sempre tem uma resposta pronta. Ele não é um menino ruim, só… está descobrindo o mundo à maneira dele."

Ethan suspirou. Ele sabia o que aquilo significava. Sabia porque ele mesmo já foi um jovem querendo desafiar as regras. Mas a diferença entre ele e Dante era que Dante jogava o jogo com uma frieza assustadora.

Naquela noite, Ethan viu Dante saindo pela janela do quarto, como fazia sempre. Mas dessa vez, ele resolveu segui-lo.

A cidade estava viva, cheia de luzes e música. Dante caminhava com confiança, cumprimentando conhecidos, como se pertencesse àquele mundo há anos. Ethan, observando à distância, sentiu um nó no peito.

"Eu devia falar com ele. Eu devia intervir."

Mas será que Dante ouviria?

CONTEXTO:

...****************...

Capítulo 16 – O Abismo Chamado Liberdade (Parte 2)

A noite era um convite para aqueles que viviam à margem das regras. Enquanto as ruas ficavam vazias e as famílias se recolhiam, Dante se tornava um vulto, um nome sussurrado nas esquinas e nas festas clandestinas.

Ele havia descoberto o que significava ter poder. Não apenas o poder da inteligência, que sempre o destacara, mas o poder do medo, da força, do respeito imposto pelo silêncio e pela presença.

Seus passos ecoavam na calçada enquanto se dirigia para mais uma festa, o coração pulsando no ritmo da música que ainda estava distante. Ele sabia que, se Alexander ou Isabelle soubessem o que fazia, tudo desmoronaria. Mas a adrenalina de viver no limite era viciante.

Ele já tinha provado tudo.

Bebidas? Começara devagar, mas logo percebeu que apreciava o gosto da vertigem, o calor que subia pela garganta, a falsa coragem que proporcionava.

Cigarros? Experimentou, mas preferia algo mais forte, algo que realmente o tirasse da realidade.

Drogas? Sim, ele já havia cruzado essa linha. No começo, apenas para ver até onde ia sua curiosidade, mas agora se tornava um hábito. Nada pesado demais, só o suficiente para sentir a euforia, a leveza, a desconexão do mundo real.

Mulheres? Ele não se prendia a ninguém. Ômegas, betas, até alguns alfas que se impressionavam com sua presença. Dante não escolhia, apenas aproveitava.

NA ESCOLA – O REI SEM COROA

No colégio, Dante era intocável. Seus olhos dourados eram como uma sentença de poder. Quem cruzava seu caminho ou se apaixonava, ou temia, ou ambos.

Os professores ainda o admiravam pela inteligência, mas já notavam a mudança. O brilho do menino prodígio agora estava carregado de algo sombrio, algo que fazia qualquer um pensar duas vezes antes de desafiá-lo.

Ninguém ousava enfrentar Dante.

Se alguém tentasse ser valentão, ele quebrava a postura do outro com um simples olhar ou, se necessário, com os punhos. Não era gratuito, não era impulsivo. Dante escolhia quando e como punir quem passava dos limites.

Rael ria ao lado dele no intervalo.

— "Você se tornou o dono dessa escola, irmão. Olha ao seu redor. Quem ousa falar merda pra você?"

Dante deu um gole em sua bebida (escondida dentro de uma garrafa térmica), olhando ao redor. Rael não estava errado. Todos sabiam quem ele era. Mas o que mais o fascinava não era ser temido… Era a certeza de que ninguém conseguia vê-lo por completo.

Por trás da arrogância, da confiança, das provocações, havia um garoto que aprendera cedo a jogar com as expectativas dos outros.

"Se você espera que eu seja perfeito, eu serei. Mas só na sua frente."

"Se você espera que eu seja cruel, eu serei. Mas só se valer a pena."

"Se você espera que eu seja um filho obediente… Bem, sinto muito."

Dante riu sozinho, balançando a cabeça. Se Isabelle soubesse, teria um infarto.

Se Alexander soubesse, ele teria ossos quebrados.

Se Ethan soubesse…

Ele parou o pensamento ali. Não queria pensar em Ethan.

O PERIGO QUE SE APROXIMA

Rael o puxou pelo braço, afastando-o do pátio.

— "Tem uma festa hoje. Mas não é qualquer festa. Vai ter… movimentação. Quero saber se você vem."

Dante arqueou uma sobrancelha.

— "Movimentação?"

Rael sorriu, os olhos brilhando.

— "Dinheiro. Gente grande. Lugares que você nunca imaginou pisar."

Dante ficou em silêncio por um instante. Ele sabia que Rael estava mergulhando cada vez mais fundo. E sabia que, se aceitasse ir, cruzaria uma linha da qual talvez não pudesse voltar.

Mas… quando foi que ele teve medo de um desafio?

Ele sorriu de canto e bateu no ombro do amigo.

— "Me busca às onze."

EM CASA – O TEATRO PERFEITO

Chegar em casa era como vestir uma máscara.

Ele entrava com calma, tirava os sapatos na porta para não fazer barulho, colocava os livros sobre a mesa como se tivesse passado a tarde estudando. O filho perfeito. O garoto de ouro.

Na cozinha, Isabelle preparava o jantar, cantarolando baixinho. Ela olhou para Dante e sorriu.

— "Oi, meu amor. Como foi a escola?"

Dante beijou a testa da mãe, pegando um copo d’água.

— "Boa. Mesma coisa de sempre."

Isabelle sorriu, orgulhosa.

— "Que bom. Você é tão responsável, Dante. Não sei o que seria de mim sem você."

Dante sorriu, mas sentiu algo apertar em seu peito. Se sua mãe soubesse… se ela soubesse…

Ele desviou o olhar e terminou a água.

Ethan chegou logo depois, cansado do trabalho, Milena correndo para seus braços. Ele brincava com a filha, enquanto Rosângela ajudava Isabelle na cozinha. Aquela era a cena de uma família normal. De um lar estável.

Mas Dante não pertencia mais ali.

Ele pertencia à noite.

Ele olha para o espelho, ajeitando os cabelos, vestindo uma jaqueta escura.

Os olhos dourados brilham na penumbra.

"Se Ethan soubesse…"

Ele sorri para si mesmo, antes de desaparecer pela janela mais uma vez.

Capítulo 16 – O Abismo Chamado Liberdade (Parte 3)

(Visão de Ethan – O Silêncio que Grita)

A noite estava quente, abafada. O ar carregava um cheiro estranho, uma mistura de asfalto úmido, fumaça de cigarro e álcool barato. Ethan observava Dante de longe, seus passos ligeiros, confiantes, sua silhueta se misturando às sombras da cidade.

Ele não sabia ao certo o que esperava encontrar ao seguir o irmão mais novo. Talvez uma simples travessura de adolescente… Talvez algo que pudesse consertar.

Mas conforme via Dante se afastando mais e mais do lar que um dia compartilharam, Ethan sentia algo dentro dele se despedaçar.

> "Quando foi que deixei de conhecer você?"

O PASSADO QUEIMANDO NO PRESENTE

Ethan fechou os olhos por um instante. A memória veio como um soco no estômago.

Era 1990. Dante ainda era uma criança, um menininho de cinco anos que olhava para ele como se fosse um herói. Aquele pequeno ser de olhos dourados, sempre curioso, sempre absorvendo tudo ao seu redor.

Ele lembrava de como Dante corria atrás dele, tentando imitar seus passos.

> "Ethan, me espera!"

Lembrava das tardes no quintal, construindo fortes de lençóis.

Lembrava do dia em que Dante aprendera a escrever seu nome pela primeira vez, segurando o lápis com esforço, sorrindo de orgulho quando conseguiu.

Lembrava das noites em que segurava a mão dele, sussurrando histórias inventadas para afastar os pesadelos.

Dante sempre foi seu irmãozinho. Sua responsabilidade.

Mas agora…

Agora ele andava com um grupo de desconhecidos. Agora ele caminhava para um mundo que Ethan temia.

Ethan abriu os olhos, engolindo em seco. Por que ele estava vendo isso agora? Por que a realidade parecia uma faca entrando lentamente em sua pele?

> "Onde foi que eu errei com você, Dante?"

O PRESENTE ESCORRE COMO AREIA

Dante parou na entrada de um beco, onde luzes piscavam no final da viela. Música alta. Pessoas rindo. O cheiro forte de algo queimando no ar.

Ethan se escondeu na sombra de um poste, apertando os punhos.

Dante não hesitou. Caminhou para dentro daquela festa como se já pertencesse àquele mundo.

O coração de Ethan pesou.

> "Você nunca hesitou em nada, não é?"

Ethan queria acreditar que Dante ainda era só um adolescente explorando a vida, errando como qualquer um. Mas no fundo… no fundo ele sabia.

Dante não era como qualquer um. Ele era diferente. Ele sempre foi.

Dante não experimentava. Ele estudava.

Dante não se deixava levar. Ele dominava o ambiente.

Dante não caía em armadilhas. Ele se tornava a armadilha.

E Ethan via isso agora, com toda a clareza. O irmãozinho que ele segurava no colo… agora era um estranho.

> "Meu Deus, Dante… O que foi que aconteceu com você?"

A música ficou mais alta. Risadas se misturavam com gritos e provocações. Ethan deu um passo à frente, o coração martelando.

Ele não podia deixar isso continuar.

Ele não sabia exatamente o que faria, mas tinha que tirá-lo dali.

O CAPÍTULO TERMINA COM ETHAN DANDO O PRIMEIRO PASSO EM DIREÇÃO À FESTA, SEU CORAÇÃO SE QUEBRANDO EM SILÊNCIO.

Capítulos
1 Céu cinzento e risos de criança.
2 Laços e Fendas
3 O Começo das Mudanças.
4 A Rotina Antes da Tempestade.
5 O amanhecer e o conflito
6 a noite silenciosa e o pesadelo no porão
7 Um novo dia, Uma nova esperança.
8 Sorvete e Laços Fraternos
9 Caminhos e Desabafos
10 Um vislumbre de Normalidade
11 cada peça, leva a perfeição.
12 o aniversário de Ethan está perto.
13 o aniversário de Ethan
14 uma má influência sempre está ao nosso lado e sabemos disso.
15 Março de 1994
16 Dois mundos, dois irmãos.
17 O peso das escolhas.
18 Silêncios e Feridas
19 o reflexo do controle.
20 Esperança? não existe... não mais...
21 Flashback de 2001
22 flashback de 2001 (parte 2)
23 Flashback de 2001 (parte 3)
24 flashback de 2002
25 flashback de 2003...
26 flashback início de 2004
27 O Peso do Silêncio
28 O Fardo do Silêncio
29 ...
30 A Verdade.
31 o Novo Começo.
32 o equilíbrio (ou a falta dele)
33 o drama da marmita
34 caos no telemarketing
35 um novo ritmo e um novo sentimento.
36 a descoberta
37 corrida contra o tempo
38 o caminho para a mudança.
39 um novo começo.
40 fragmentos do passado.
41 uma manhã caótica e uma surpresa
42 Sob a Chuva, Entre Sorrisos e Promessas
43 ecos do passado
44 um novo começo.
45 acolhendo o novo.
46 A nova rotina.
47 o passado bate à porta
48 o passado, o presente e o futuro.
49 o retorno para casa
50 o sábado de reencontro
51 O Primeiro Sinal.
52 A Febre Não Baixa
53 Internação.
54 O Peso da Culpa
55 Resgate
56 Reconstrução.
57 O Caminho de Volta
58 Novos Caminhos e Velhos Medos
59 O Peso da Realidade.
60 O Peso da Esperança.
61 A Esperança Renascente
62 Caminhos Divergentes.
63 Uma Nova Onda
64 Reconstruindo Pontes
65 De Volta Para Casa
Capítulos

Atualizado até capítulo 65

1
Céu cinzento e risos de criança.
2
Laços e Fendas
3
O Começo das Mudanças.
4
A Rotina Antes da Tempestade.
5
O amanhecer e o conflito
6
a noite silenciosa e o pesadelo no porão
7
Um novo dia, Uma nova esperança.
8
Sorvete e Laços Fraternos
9
Caminhos e Desabafos
10
Um vislumbre de Normalidade
11
cada peça, leva a perfeição.
12
o aniversário de Ethan está perto.
13
o aniversário de Ethan
14
uma má influência sempre está ao nosso lado e sabemos disso.
15
Março de 1994
16
Dois mundos, dois irmãos.
17
O peso das escolhas.
18
Silêncios e Feridas
19
o reflexo do controle.
20
Esperança? não existe... não mais...
21
Flashback de 2001
22
flashback de 2001 (parte 2)
23
Flashback de 2001 (parte 3)
24
flashback de 2002
25
flashback de 2003...
26
flashback início de 2004
27
O Peso do Silêncio
28
O Fardo do Silêncio
29
...
30
A Verdade.
31
o Novo Começo.
32
o equilíbrio (ou a falta dele)
33
o drama da marmita
34
caos no telemarketing
35
um novo ritmo e um novo sentimento.
36
a descoberta
37
corrida contra o tempo
38
o caminho para a mudança.
39
um novo começo.
40
fragmentos do passado.
41
uma manhã caótica e uma surpresa
42
Sob a Chuva, Entre Sorrisos e Promessas
43
ecos do passado
44
um novo começo.
45
acolhendo o novo.
46
A nova rotina.
47
o passado bate à porta
48
o passado, o presente e o futuro.
49
o retorno para casa
50
o sábado de reencontro
51
O Primeiro Sinal.
52
A Febre Não Baixa
53
Internação.
54
O Peso da Culpa
55
Resgate
56
Reconstrução.
57
O Caminho de Volta
58
Novos Caminhos e Velhos Medos
59
O Peso da Realidade.
60
O Peso da Esperança.
61
A Esperança Renascente
62
Caminhos Divergentes.
63
Uma Nova Onda
64
Reconstruindo Pontes
65
De Volta Para Casa

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