Capítulo 4 – A Rotina Antes da Tempestade
Noite Quente e Rotina Familiar
O dia 30 de janeiro de 1990 chegava ao fim. Depois de dias de chuva intensa, o clima finalmente havia se estabilizado. A umidade ainda estava presente no ar, tornando a noite quente e abafada. As janelas da casa estavam abertas, permitindo que a brisa suave trouxesse algum alívio, mas era insuficiente para dissipar o calor do pequeno lar.
Na sala, o som da televisão ecoava pelo ambiente. O pai, Alexander, estava sentado em sua poltrona de couro já desgastada, com os olhos fixos no televisor. O brilho da tela piscava de tempos em tempos, refletindo em seu rosto cansado e sério. Ele segurava um copo com um resto de café já frio, e ao seu lado, o cinzeiro cheio de bitucas de cigarro denunciava o hábito que sua esposa detestava.
A cozinha, separada da sala apenas por um pequeno balcão, era o coração da casa. Isabelle mexia a panela no fogão, preparando o jantar com os poucos ingredientes disponíveis. O cheiro de arroz recém-cozido e feijão temperado se misturava com o aroma de ovos fritos. Uma refeição simples, sem extravagâncias, mas feita com carinho. Ela cantarolava baixinho uma canção qualquer, tentando preencher o silêncio pesado que sempre se instalava quando Alexander estava presente.
No quarto dos irmãos, o rádio antigo tocava uma música suave, preenchendo o ambiente com um som nostálgico. Ethan estava deitado na cama, os olhos fechados enquanto se deixava levar pela melodia. Ele tinha o hábito de escutar músicas todas as noites antes de dormir, algo que o ajudava a relaxar. Seu cabelo negro bagunçado caía sobre sua testa, e seus dedos batiam levemente contra o colchão, acompanhando o ritmo da música.
No outro canto do quarto, Dante estava sentado no chão, com alguns brinquedos espalhados ao seu redor. Ele segurava um soldadinho de chumbo em uma das mãos e, com a outra, rabiscava distraidamente um desenho em uma folha de papel amarelada. Seus traços eram precisos para uma criança de cinco anos. Pequenos rabiscos que formavam figuras de pessoas, talvez sua família, talvez algo que sua imaginação inventava.
Ethan abriu um olho e olhou para o irmão, que parecia absorto em seu próprio mundo.
— O que você está desenhando? — perguntou, sua voz saindo preguiçosa devido ao calor.
Dante não levantou a cabeça de imediato.
— Nada.
Ethan arqueou a sobrancelha.
— Nada? Você nunca desenha "nada". Me deixa ver.
Antes que Dante pudesse impedir, Ethan se inclinou e pegou o papel das mãos do irmão. Seus olhos percorreram os traços simples, mas bem feitos, e ele percebeu o que estava ali.
Era um desenho deles dois. Ethan segurava a mão de Dante, ambos com sorrisos no rosto.
O mais velho sentiu o coração apertar. Ele sempre soube que Dante o admirava, mas ver aquilo desenhado tão claramente fez algo dentro dele se aquecer.
Ethan sorriu de canto e bagunçou o cabelo prateado do irmão.
— Ficamos bonitos, hein? Mas você me desenhou mais baixo do que sou de verdade.
Dante fez uma careta e puxou o papel de volta.
— Você não é tão alto assim.
Ethan riu baixo e voltou a se deitar, fechando os olhos novamente.
— Certo, baixinho.
Dante franziu o cenho, mas não respondeu. Apenas voltou a brincar com seu soldadinho, enquanto a música no rádio continuava tocando.
---
O Jantar e o Clima Tenso
Pouco tempo depois, a voz da mãe ecoou pela casa.
— Meninos, venham jantar!
Ethan se espreguiçou e se levantou devagar. Dante largou os brinquedos e os desenhos e seguiu o irmão até a cozinha.
A mesa era pequena, de madeira já desgastada, mas sempre limpa e organizada. Isabelle já havia colocado os pratos e servido a comida: arroz, feijão e ovos fritos. Nada luxuoso, mas era suficiente.
O pai desligou a televisão e se juntou a eles, sentando-se à mesa sem dizer nada.
O silêncio foi pesado.
Dante não entendia muito bem a tensão que sempre pairava quando o pai estava presente, mas ele sentia. Ethan, por outro lado, percebia cada detalhe: o olhar cansado da mãe, a postura rígida do pai, a maneira como o clima da casa mudava dependendo do humor de Alexander.
Eles começaram a comer em silêncio, até que o pai quebrou a quietude com sua voz grave.
— Como foi o dia de vocês?
Ethan hesitou antes de responder.
— Normal. Ficamos em casa, Dante desenhou um pouco, eu escutei música.
Alexander desviou o olhar para o filho mais novo.
— E você, Dante? O que desenhou?
Dante, que até então comia em silêncio, levantou os olhos para o pai.
— Eu… desenhei a gente.
O homem arqueou a sobrancelha.
— Nós? A família toda?
Dante mordeu o lábio e balançou a cabeça.
— Só eu e o Ethan.
Houve um instante de silêncio.
Alexander soltou um suspiro pesado e voltou a comer.
— Você passa tempo demais grudado no seu irmão.
Ethan estreitou os olhos.
— E isso é um problema?
O pai não respondeu de imediato. Pegou um pedaço de pão e mastigou lentamente, antes de finalmente falar.
— Homens precisam aprender a ser independentes. Não podem se apoiar em outros o tempo todo.
Ethan apertou o punho embaixo da mesa.
— Dante só tem cinco anos. Ele é uma criança.
— E justamente por isso precisa aprender desde cedo.
O silêncio voltou à mesa. Dante não entendia completamente as palavras do pai, mas sentia a tensão aumentando.
Isabelle, que observava tudo com atenção, decidiu intervir antes que a situação piorasse.
— Alexander, ele ainda é pequeno. Tem tempo para crescer e aprender sobre independência. Agora, ele só precisa do irmão.
O homem olhou para a esposa por um momento, depois desviou o olhar.
— Hmph. Façam o que quiserem.
Ethan sentiu um gosto amargo na boca. Ele queria responder, queria discutir, mas sabia que não adiantaria.
O jantar seguiu em silêncio, e quando terminaram, cada um seguiu para seus próprios cantos da casa.
Dante e Ethan voltaram para o quarto, mas o clima já não era o mesmo.
Ethan se jogou na cama, cruzando os braços atrás da cabeça e soltando um suspiro frustrado.
Dante, hesitante, se aproximou.
— Você tá bravo?
O irmão mais velho abriu um olho e olhou para ele.
— Não com você.
Dante se sentou na beirada da cama, abraçando os joelhos.
— Você sempre briga com o papai.
Ethan suspirou.
— E sempre vou brigar, se for para te proteger.
Dante não respondeu. Apenas encostou a cabeça no ombro do irmão.
Ethan, surpreso, olhou para ele por um instante antes de sorrir de leve.
— Anda, vamos dormir. Amanhã é outro dia.
Dante assentiu, deitando-se em sua cama.
O rádio ainda tocava baixinho, e aos poucos, os dois irmãos se deixaram levar pelo sono, enquanto o resto da casa mergulhava em um silêncio pesado.
Aquela noite poderia ter sido como qualquer outra.
Mas Ethan sabia.
A tempestade dentro daquela casa ainda estava só começando.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 65
Comments
∫∫𝐆𝒐𝒓𝒐•𝑵𝒂𝒌𝒂𝒎𝒖𝒓𝒂∫∫
eu fazia o Alexander virar camisa de saudade! como ele pode tratar seu filho assim??? cadê a compaixão e amor paterno??
2025-02-28
1
Cheng Lin2194
Deixa saudade.
2025-02-05
1