Capítulo 2 – Laços e Fendas
A cozinha era pequena e modesta, mas exalava aconchego. A mesa de madeira, já desgastada pelo tempo, era o centro do ambiente, cercada por quatro cadeiras de diferentes estilos — uma delas ligeiramente torta, resultado de anos de uso. O cheiro doce do bolo de fubá recém-assado ainda pairava no ar, misturando-se com o aroma forte do café que esfriava na jarra sobre o balcão.
A luz amarelada da lâmpada pendurada no teto iluminava a cena, projetando sombras suaves nas paredes simples, onde um relógio velho marcava as horas lentamente. A chuva lá fora havia começado de vez, batendo contra as janelas com uma cadência calma, mas insistente.
Na mesa, Dante mordia uma fatia do bolo, os pés pequenos balançando no ar enquanto se esforçava para manter uma postura impecável. Desde cedo aprendera a se portar bem à mesa — seu pai exigia isso.
Ethan, sentado ao lado, comia sem tanta formalidade, mas sempre atento. Seu olhar verde varria a cozinha de tempos em tempos, como se estivesse sempre esperando algo acontecer. Mesmo ali, no conforto do lar, não baixava a guarda.
Isabelle servia mais café para si mesma, seus olhos passando discretamente entre os dois filhos. Seu sorriso era gentil, mas cansado.
— E então, o que fizeram hoje além de brincar na rua? — perguntou, tentando iniciar uma conversa leve.
Dante olhou para Ethan, que deu de ombros antes de responder.
— Eu fiquei de olho nesse pestinha, como sempre.
Dante franziu a testa, engolindo o pedaço de bolo antes de protestar.
— Eu não sou pestinha!
Ethan sorriu de canto e bagunçou o cabelo do irmão, arrancando um olhar irritado de Dante, que logo alisou os fios prateados para tentar recuperar a perfeição do penteado.
Isabelle riu suavemente, observando a interação entre os dois. Era assim desde sempre: Ethan protegendo Dante como um lobo feroz, enquanto o menor tentava fingir independência, mas no fundo se aconchegava nessa proteção.
— Bom, pelo menos vocês não se meteram em encrenca… — Isabelle comentou, servindo mais uma fatia de bolo para Dante.
Antes que a conversa pudesse continuar, o barulho de uma chave girando na fechadura fez com que a atmosfera na cozinha mudasse.
A porta da frente se abriu, e passos pesados ecoaram pelo piso de madeira.
Alexander havia chegado.
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A Chegada do Pai
Alexander era um homem alto e imponente, de ombros largos e postura rígida. Seu rosto era marcado pelo tempo e pelo peso das responsabilidades, com traços duros e um olhar severo, sempre carregado de uma expressão analítica. O cabelo negro, já começando a mostrar fios grisalhos, estava úmido pela chuva, e seu terno barato trazia o cheiro característico de cigarro e suor, misturado ao odor de papel e tinta de escritório.
Ao entrar, ele fechou a porta com um movimento firme, tirando os sapatos com um suspiro exausto. Seu olhar varreu a cozinha antes de pousar nos filhos e na esposa.
— Vocês começaram sem mim.
Sua voz era grave, carregada de um tom que não deixava claro se estava apenas constatando ou reclamando.
— Você demorou, querido. Eles precisavam comer. — Isabelle respondeu suavemente, sem se alterar.
Alexander não respondeu de imediato. Apenas andou até a pia, lavando as mãos com movimentos mecânicos. Quando se sentou à mesa, seus olhos caíram sobre Dante, que instintivamente endireitou a postura.
Havia algo na presença do pai que sempre o deixava tenso.
— Como foi o dia de vocês? — Alexander perguntou, mas sua voz soou mais como uma formalidade do que como um real interesse.
Dante hesitou por um momento, então respondeu educadamente:
— Brinquei um pouco lá fora. E depois viemos para casa.
Alexander analisou o filho por alguns segundos, como se estivesse avaliando se aquela resposta era satisfatória. Então, olhou para Ethan.
— E você?
Ethan manteve o olhar firme, sem demonstrar qualquer hesitação.
— Fiquei cuidando dele.
Um silêncio pairou por alguns instantes. Alexander pegou um pedaço do bolo, mas não demonstrou nenhuma satisfação ao comer.
— Bom. — Foi tudo o que disse.
Dante abaixou um pouco o olhar. Ele sempre sentia que não importava o que fizesse, o pai nunca parecia realmente satisfeito. Alexander nunca o elogiava. Nunca demonstrava afeto. Só via nele algo a ser moldado, corrigido.
A única coisa que impedia que a pressão se tornasse insuportável era Ethan.
— Dante ficou o dia todo se comportando. Ele até ajudou a mãe antes do lanche. — Ethan comentou, cruzando os braços e olhando diretamente para o pai.
Era um desafio sutil. Ele sabia que Alexander quase nunca reconhecia os esforços de Dante, então fazia questão de destacar.
Alexander ergueu uma sobrancelha, mas não pareceu impressionado. Apenas acenou com a cabeça de leve.
— É o mínimo que se espera.
Dante apertou os lábios e desviou o olhar para o prato, sentindo o familiar aperto no peito.
Isabelle, percebendo a tensão se formando, rapidamente interveio.
— O importante é que estamos todos juntos, certo? — Ela sorriu suavemente, tentando suavizar a atmosfera.
Alexander apenas grunhiu, pegando uma xícara de café.
O café da tarde continuou em um silêncio desconfortável, apenas o som da chuva preenchendo os espaços vazios.
Ethan, percebendo o olhar desanimado de Dante, deslizou sua mão discretamente sob a mesa, segurando a do irmão em um gesto de apoio. Foi rápido, quase imperceptível, mas suficiente para que Dante sentisse o calor familiar e protetor de Ethan.
Ele não estava sozinho.
E, naquele momento, isso era o suficiente.
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Atualizado até capítulo 65
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