Diana Malor- No limite

Diana Malor

Acordei com um gosto metálico na boca e uma dor latejante na cabeça. Meus olhos abriram devagar, ajustando-se à luz tênue que entrava por uma janela pequena, suja de poeira.

O teto era de madeira escura, desgastada pelo tempo. O cheiro de terra e poeira impregnava o ar. Quando tentei me mexer, um arrepio percorreu minha espinha. O silêncio era ensurdecedor.

Não havia vento. Nem insetos. Nem o menor ruído da floresta que eu sabia que nos cercava, mas sabia que isso era uma casa. Onde estávamos?

Isso me fez lembrar.

O chamado. A clareira. A voz fria sussurrando meu nome. O sangue escorrendo do meu nariz. E então... Eledhor.

Eu desmaiei.

Minhas mãos agarraram os lençóis ásperos ao mesmo tempo em que um som distante quebrou o silêncio. Passos.

Meu corpo enrijeceu.

As tábuas rangeram sob o peso de alguém. Por um segundo, meu coração quase pulou da garganta. Então a porta se abriu.

Eledhor entrou com um copo de madeira numa mão e um pedaço de pão na outra. Seu cabelo prateado estava bagunçado, como se ele não tivesse dormido. A armadura de couro estava levemente suja, e uma mancha escura marcava sua bota.

— Finalmente acordada, princesa.

Ele ergueu uma sobrancelha, fechando a porta atrás de si.

— Onde estamos?

minha voz saiu rouca.

Ele me estendeu o copo e o pão, que aceitei com hesitação.

— No Reino de Pedra. Ou no que restou dele.

Ele se sentou em um banco de madeira ao lado da cama, observando-me atentamente.

— Essa casa faz parte de um antigo vilarejo. Fica no limite entre a floresta e o reino de pedra.

Franzi o cenho, mordendo o pão sem sentir seu gosto.

— O Reino de Pedra?

 repeti.

Eu conhecia esse nome. Todos conheciam.

Eldoria. Um reino outrora grandioso, destruído por uma maldição que petrificou tudo, pessoas, cidades, rios ficaram lamacentos e até o próprio ar parecia pesado como pedra.

Engoli em seco.

— Como chegamos aqui?

— Você desmaiou.

Ele cruzou os braços, me analisando.

— Eu segui seu rastro até a clareira e te trouxe até aqui. Simples.

Simples. Como se carregar uma garota desmaiada por quilômetros através de uma floresta amaldiçoada fosse algo trivial.

— Você me seguiu.

Ele sorriu, debochado.

— Você fugiu.

Abri a boca para retrucar, mas sua expressão mudou. A leve diversão em seus olhos deu lugar a algo mais sombrio.

— Temos que sair daqui antes do anoitecer.

A forma como ele disse isso me fez largar o pão sobre a coberta.

— Por quê?

Ele apoiou os cotovelos nos joelhos, as mãos entrelaçadas.

— Porque a maldição não dorme.

Seus olhos encontraram os meus, sérios, intensos.

— E quando a noite cai, as coisas aqui... se movem.

Engoli em seco.

O silêncio ao redor parecia se tornar mais opressivo.

— Eledhor...

murmurei, sentindo um calafrio na nuca.

— O que exatamente nos espera lá fora?

Ele se levantou, pegando sua Claymore encostada na parede.

— Se tivermos sorte? Nada.

— E se não tivermos?

Ele me lançou um olhar sombrio.

— Então, princesa... espero que tenha se recuperado e aprendido a correr.

Meu coração martelava contra as costelas enquanto eu tentava absorver as palavras de Eledhor. A maldição não dorme.

A ideia de algo se movendo na escuridão, de sombras petrificadas ganhando vida, fez minha garganta secar.

Eu ajeitei o copo de madeira entre as mãos, observando a superfície turva do líquido.

— Você ainda não respondeu minha pergunta.

Minha voz saiu baixa, mas firme.

— O que exatamente acontece quando anoitece?

Eledhor girou a Claymore na mão, testando o peso da lâmina como se fosse uma extensão de seu próprio corpo. Ele era letal mesmo na quietude.

— Você já ouviu as histórias, princesa.

Ele olhou para mim por baixo dos cílios prateados.

— Pedras que sussurram. Estátuas que se movem quando ninguém está olhando. Ecos do que já existiu, presos em um ciclo interminável.

Meu estômago revirou.

— Então são fantasmas?

Ele soltou um riso baixo, mas não havia humor em sua voz.

— Seria melhor se fossem.

Um arrepio percorreu minha espinha.

Eledhor se aproximou da janela pequena e suja, afastando um pouco o tecido desbotado que servia de cortina. A luz lá fora já estava mudando, tornando-se mais dourada, mais preguiçosa.

— Quanto tempo temos?

perguntei, colocando o copo de lado.

Ele ficou em silêncio por um instante, observando o céu com olhos calculistas.

— Duas horas, talvez menos.

O ar na cabana pareceu mais pesado de repente.

Eu empurrei as cobertas ásperas para o lado e tentei me levantar. As pernas protestaram, e uma pontada latejou atrás dos meus olhos, mas eu ignorei.

Eledhor se virou a tempo de me ver cambalear e soltou um suspiro impaciente.

— Você não está em condições de correr.

— Eu estou em condições de não morrer aqui, o que significa que vou andar , correr e rastejar se for preciso.

A sombra de um sorriso cruzou seus lábios antes de desaparecer.

Ele se aproximou, e só então percebi o quão perto estávamos. O cheiro de couro e metal misturava-se ao da floresta impregnada em suas roupas.

— Você sempre foi assim?

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Assim como?

— Teimosa.

Cruzei os braços, ignorando a dor surda na cabeça.

— Eu prefiro determinada.

Ele riu, mas seus olhos estavam escuros, sombrios.

— Vamos ver se essa determinação continua quando estivermos cercados.

Minha boca secou.

— Cercados pelo quê?

Ele passou a língua pelos dentes, avaliando minhas reações como se estivesse esperando que eu desmoronasse. Como se estivesse esperando que eu tivesse medo.

Mas medo era um luxo que eu não podia me permitir. Não agora.

— Pegue as suas coisas, princesa.

Ele se virou, apertando as correias de sua armadura.

— Eu explico no caminho.

Eu engoli em seco, sentindo o peso da noite se aproximando.

Se tivéssemos sorte, sairíamos antes de descobrir o que acontecia quando a escuridão caía.

Se não...

Apertando os punhos, segui Eledhor para fora.

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