20

A sala de espera parecia maior e mais vazia depois que Paulo foi embora. Por mais que ele tivesse deixado claro suas intenções, a intensidade de seu olhar e o peso de suas palavras continuavam ecoando na minha cabeça. A promessa que eu fiz estava selada, e com ela vinha um caminho que eu não escolhi, mas que agora era o único que eu tinha.

Suspirei, tentando aliviar o aperto no peito. Minha avó ainda estava na UTI, e tudo o que eu podia fazer era esperar. O cansaço já dominava meu corpo, mas não havia espaço para descanso. Minha mente estava uma bagunça, pensando no que seria minha vida daqui em diante.

Levantei-me da cadeira e fui até a janela. Do lado de fora, o mundo continuava girando, alheio ao caos que estava dentro de mim. Era uma noite fria, e as luzes da cidade tremeluziam ao longe. Pensei em tudo o que aconteceu nos últimos meses, desde a primeira vez que Paulo apareceu na minha vida até agora. Ele era um homem difícil de decifrar, e, apesar de sua aparente frieza, havia algo nele que me fazia hesitar.

Minha cabeça estava cheia de perguntas. Por que ele precisava de mim? O que exatamente ele esperava desse casamento? Eu sabia que a relação entre nós não era sobre amor. Era um contrato. Ele tinha algo que eu precisava, e agora eu tinha algo que ele queria. Mas o quê?

Voltei para a cadeira e fechei os olhos por um momento. Não consegui evitar que flashes de memória passassem pela minha mente: o dia em que aceitei sua ajuda desesperada, a frieza em sua voz quando discutimos os termos, e, ao mesmo tempo, os momentos em que ele parecia quase... humano.

Minha cabeça começou a pesar, e eu estava prestes a cochilar quando a enfermeira apareceu.

"Fernanda?" chamou ela, e eu me levantei de imediato. "Sua avó está estável. Ainda não podemos permitir visitas, mas o quadro dela está evoluindo bem."

"Obrigada," murmurei, sentindo um alívio tomar conta de mim. O pior parecia ter passado, pelo menos por enquanto.

Depois que a enfermeira foi embora, voltei a me sentar. O alívio deu lugar à ansiedade novamente. Eu sabia que precisava me preparar para o que vinha a seguir. A ideia de me casar com Paulo parecia tão surreal quanto inevitável.

Peguei meu celular e comecei a navegar sem rumo, apenas para tentar ocupar minha mente. Acabei abrindo a mensagem que ele tinha enviado mais cedo, me avisando que estava a caminho do hospital. As palavras eram simples, diretas, como sempre. Nada em Paulo era exagerado ou floreado. Ele era um homem de poucas palavras, mas cada uma delas parecia carregada de um peso maior do que deveria.

Minhas mãos tremiam enquanto segurava o telefone. Decidi mandar uma mensagem para minha melhor amiga, Amanda. Eu precisava conversar com alguém que não fosse Paulo, alguém que me conhecesse de verdade.

"Amanda, você está acordada?"

A resposta veio quase que instantaneamente.

"Sempre estou para você. O que houve?"

Expliquei, em poucas palavras, tudo o que estava acontecendo. Claro, omiti os detalhes mais delicados sobre o acordo com Paulo. Amanda sabia que eu estava enfrentando dificuldades financeiras e que minha avó estava doente, mas não sabia do envolvimento dele.

"Amiga, você está sendo muito forte. Sua avó vai ficar bem. E você também," ela respondeu.

"Espero que sim. Sinto que minha vida está virando de cabeça para baixo."

Amanda tentou me confortar, mas eu sabia que, no fundo, havia coisas que ela não podia entender. Eu não podia contar tudo a ela. Não agora.

Desliguei o celular e voltei a olhar para a janela. O cansaço era tanto que eu mal percebi quando o amanhecer começou a tingir o céu de laranja e rosa. Os primeiros raios de sol entraram pela janela, e, pela primeira vez em horas, senti uma pontinha de esperança. Minha avó estava viva, e isso era o que importava.

Assim que o horário de visitas começou, fui até a UTI para vê-la. Ela parecia tão frágil deitada na cama, com os tubos e monitores ao seu redor. Mas, ao mesmo tempo, havia uma força em sua expressão que me fez sorrir.

"Vó, estou aqui," murmurei, segurando sua mão.

Ela abriu os olhos lentamente e me olhou, um sorriso fraco mas genuíno surgindo em seus lábios.

"Você é tão forte, minha menina," ela disse, sua voz rouca mas cheia de amor. "Obrigada por cuidar de mim."

Engoli o nó na garganta e apertei sua mão.

"Eu sempre vou cuidar da senhora, vó. Sempre."

Depois de alguns minutos, a enfermeira me pediu para sair, mas aqueles poucos momentos com ela foram suficientes para renovar minha determinação. Eu faria qualquer coisa por ela, mesmo que isso significasse sacrificar minha liberdade.

Quando saí do hospital, o sol já estava alto, e o mundo parecia mais vivo do que na noite anterior. Liguei para um táxi e voltei para casa. Precisava descansar, mesmo que por algumas horas, antes de encarar o que estava por vir.

Ao chegar em casa, joguei minha bolsa no sofá e fui direto para o quarto. Não consegui evitar olhar para o vestido pendurado na porta do armário. Era simples, mas elegante. O vestido que eu usaria para me casar com Paulo.

Deitei na cama e fechei os olhos, mas o sono não veio. Fiquei ali, encarando o teto, pensando em como minha vida tinha chegado até aquele ponto. Eu não era mais a mesma Fernanda de alguns meses atrás.

Aquele casamento não era um conto de fadas. Era um contrato. Mas, no fundo, eu sabia que, mesmo assim, ele mudaria tudo.

E, pela primeira vez, me permiti sentir medo do que viria a seguir.

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Comments

bete 💗

bete 💗

o que será que virá?
❤️❤️❤️❤️❤️

2025-01-20

1

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