14

O som suave da luz do dia entrando pela janela foi o primeiro a me acordar. Eu estava em um lugar diferente, o ambiente mais tranquilo do que eu imaginava. Meus olhos estavam pesados e minha cabeça um pouco tonta, como se ainda carregasse o peso da noite anterior. O cheiro de café se espalhava pela casa, e eu imediatamente soube que era Fernanda. Ela estava lá, ainda que eu não soubesse exatamente em que circunstâncias ela havia ficado comigo até a manhã seguinte.

Eu levantei um pouco a cabeça, sentindo o cabelo bagunçado ao redor de meu rosto, caindo como uma cortina preta sobre os olhos. Meu cabelo estava mais longo do que o normal, e agora, um pouco embaraçado pelo sono e a bebida, ele me dava um ar meio desleixado, mas até então, eu não me importava. Eu estava acostumado com essa sensação, e, curiosamente, o reflexo no espelho não me parecia tão ruim quanto eu imaginava. Quando o sono começou a se dissipar, percebi que o ambiente ao redor estava silencioso, exceto pelo suave som de Fernanda se movendo pela casa.

Me levantei lentamente, tentando não fazer barulho, ainda sentindo a cabeça pesada. O chão sob meus pés estava frio, e o cheiro do café se intensificou à medida que eu me aproximava da cozinha. Lá, ela estava. Fernanda estava de costas para mim, concentrada em mexer alguma coisa na panela. A maneira como ela se movia era quase calma, como se estivesse em paz, em seu próprio ritmo.

Eu parei na entrada da cozinha, observando-a. Ela estava tão concentrada no que fazia, com o cabelo preso em um coque solto e uma camiseta simples. Não era nada extravagante, mas a maneira como ela estava ali, sozinha, me deixou momentaneamente imerso em pensamentos. Como ela parecia tão... natural. Sua presença leve no espaço fazia com que tudo ao seu redor parecesse mais suave, menos denso.

Me inclinei contra o batente da porta, sem querer interromper a tranquilidade do momento. Eu a observava sem ser notado, absorvendo cada pequeno detalhe. Ela mexia na panela com uma calma quase hipnótica, a luz suave da manhã iluminando seu rosto, fazendo-a parecer ainda mais bonita do que eu imaginava. Não era uma beleza forçada, nada exagerado. Era algo sutil, como se ela não tivesse ideia do efeito que causava. Eu até senti uma pitada de desconforto ao perceber como estava ali, apenas olhando. Mas, antes que eu pudesse fazer qualquer movimento, ela se virou de repente.

Ela se assustou visivelmente ao me ver ali. Suas mãos congelaram no ar, e a expressão em seu rosto mudou de surpresa para confusão em um instante. Não sei se ela estava esperando que eu já tivesse acordado, ou se simplesmente não esperava encontrar-me ali, mas, naquele momento, ela parecia completamente fora de seu elemento.

— Paulo! — Ela exclamou, os olhos se arregalando.

A reação dela foi tão genuína, tão inesperada, que por um segundo eu fiquei paralisado. Mas, logo em seguida, ela se recompôs, tentando esconder a surpresa com uma risada nervosa.

— Ah, você... você já acordou? Eu... não sabia se ia precisar de mais tempo. — Ela disse, seus olhos desviando para o chão, como se estivesse procurando algo para se apoiar, mas sem saber bem o quê.

Eu sorri, tentando quebrar a tensão, me aproximando um pouco mais da bancada da cozinha. Eu realmente não sabia o que dizer, então optei por um comentário leve, para suavizar o clima.

— Parece que você está bastante confortável aí, não é? — falei, observando como ela estava envolvida na tarefa. O tom brincalhão parecia funcionar, pois ela imediatamente relaxou, embora ainda parecesse um pouco nervosa.

— Estou apenas fazendo café, não é nada de mais — respondeu, tentando sorrir. Mas, em seu olhar, eu via algo que ela claramente tentava esconder. Talvez um pouco de desconforto com a proximidade ou apenas o cansaço acumulado da noite passada.

Eu me aproximei ainda mais, parado ao lado dela. O aroma do café já estava preenchendo o ar, e eu sabia que ela estava tentando se concentrar no que fazia para evitar mais qualquer tipo de conversa constrangedora. Mas eu não pude deixar de me concentrar nela, observando sua expressão. O simples fato de tê-la ali, tão perto de mim, me fazia perceber o quão acostumado eu estava a estar sozinho. Fernanda parecia, de alguma forma, ocupar esse espaço em minha vida que eu nem sabia que estava vazio até então.

Ela fez um movimento como se fosse continuar mexendo na panela, mas hesitou por um momento, lançando um olhar furtivo em minha direção. Eu percebi que ela estava tentando disfarçar o nervosismo, o que me fez sorrir mais uma vez.

— Não precisa se preocupar, Fernanda. Eu não sou tão assustador assim. — Eu falei, tentando aliviar ainda mais a tensão. Eu sabia que não era apenas o café que a deixava assim. Era mais do que isso. Ela provavelmente não sabia o que pensar de mim, e a ideia de estarmos juntos em um ambiente tão informal parecia deslocada para ela.

Fernanda finalmente relaxou um pouco, permitindo que uma pequena risada escapasse de seus lábios. Era a primeira vez que a ouvia rir sem estar nervosa ou em um estado de tensão.

— Eu só... não sabia o que você ia pensar sobre isso, sobre ficar aqui. Eu não queria te incomodar, nem causar problemas. — Ela disse, com a voz baixa, um pouco insegura. Mas, em algum lugar, eu sentia que ela estava começando a se abrir, talvez sem perceber.

Eu fiquei em silêncio por um momento, apenas observando-a, até que finalmente disse:

— Você não me incomodou. De verdade. Eu... aprecio o que fez por mim ontem à noite.

Ela parecia ainda mais surpresa com a resposta. Talvez ela esperasse uma reação diferente, mas eu sentia que a noite passada tinha mudado algo entre nós. Talvez fosse cedo para dizer o que exatamente, mas o fato de ela ter ficado comigo, de ter se mostrado tão disposta a me ajudar, me fazia ver as coisas de uma forma diferente.

Ela pegou as xícaras, distribuindo uma para cada um de nós, antes de voltar para a bancada. Os segundos pareciam se arrastar enquanto nos olhávamos, e algo estava no ar, uma tensão que eu não sabia se era apenas minha percepção ou se realmente havia algo mais entre nós.

— Obrigada pelo café — disse, com um sorriso tímido.

Eu tomei um gole da minha xícara e sorri de volta.

— Não foi nada. Está ótimo, como sempre.

Fernanda parecia sem graça novamente, mas havia algo no fundo de seus olhos, um brilho que eu não conseguia identificar. Talvez fosse o alívio por não estarmos mais em um ambiente tão tenso, ou talvez fosse outra coisa. Eu não sabia, mas também não queria forçar nada.

O silêncio entre nós se estendeu, mas não parecia desconfortável. Era mais como um momento de calma, uma pausa para que as palavras pudessem ser ditas quando fosse o momento certo. E, por agora, estava bem assim.

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Comments

bete 💗

bete 💗

lindo a conexão deles ❤️❤️❤️❤️❤️

2025-01-08

0

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