A rua estava vazia e silenciosa quando o táxi parou em frente ao meu prédio. A cidade estava desacelerando para a noite, mas eu sentia o peso do que estava acontecendo, uma mistura de cansaço e preocupação. Paulo ainda estava completamente desmaiado ao meu lado, sua cabeça pendendo para o lado, apoiada no meu ombro. Ele estava tão fora de si que nem sequer murmurou quando o carro fez a curva para entrar na rua silenciosa.
Eu estava estranha, ainda tentando entender o que havia acontecido. Paulo nunca foi de mostrar fraqueza, mas ali estava ele, sem vida, sem energia, totalmente entregue ao álcool e à sua dor interna. Não podia acreditar que tinha sido eu quem o trouxe até aqui, para o meu apartamento. Quando ele começou a se descontrolar, eu simplesmente tomei a decisão sem pensar direito. Não sabia onde ele morava, não sabia de mais nada, então eu o levei para minha casa. A última coisa que eu queria era deixá-lo em um lugar qualquer, mais vulnerável do que já estava.
Eu paguei o motorista e, depois de garantir que Paulo ainda estava firme no banco, saí do carro com ele. O motorista parecia perceber a gravidade da situação, sem fazer perguntas. Ele simplesmente me ajudou a apoiar o peso de Paulo quando tivemos que sair do táxi. Eu ainda estava tentando me ajustar à situação, tentando parecer calma, mas o desconforto era inevitável.
— Vamos dar uma mão aqui. — O motorista falou, sorrindo de maneira gentil, mas com um olhar preocupado.
Ele pegou um dos braços de Paulo e me ajudou a apoiar o outro. Eu estava cansada, meu corpo já estava começando a doer, mas não podia deixar Paulo sozinho. Ele precisava de alguém que o ajudasse, e no momento, isso era eu.
Quando chegamos à porta do meu prédio, o motorista perguntou se eu tinha chaves, e eu fiz um movimento com a cabeça, mostrando que sim. O elevador subiu devagar enquanto tentávamos equilibrar Paulo, que não oferecia nenhuma resistência. Era como carregar uma sacola vazia, sem peso, mas com um peso emocional muito maior. Eu sabia que, no fundo, Paulo odiaria saber que estava assim, tão exposto. Mas não podia mudar nada.
No meu apartamento, uma sensação estranha se instalou. A casa que normalmente era tranquila, com sua mobília minimalista e simples, estava agora cheia de uma tensão silenciosa, como se Paulo, em seu estado, tivesse trazido uma energia diferente com ele.
O motorista me ajudou a colocar Paulo no sofá. Ele estava completamente fora de si, com o rosto relaxado e os olhos fechados, ainda respirando com dificuldade. Eu olhei para ele por um momento, um sentimento que eu não conseguia explicar surgindo no meu peito. Eu não sabia se o que estava sentindo era preocupação ou apenas curiosidade. Talvez ambos.
— Vai ficar tudo bem. — O motorista disse com um sorriso discreto. Eu olhei para ele, tentando processar o que ele queria dizer com aquelas palavras. Ele me deu uma leve batida no ombro e, ao perceber que Paulo estava em boas mãos, se despediu, saindo rapidamente pela porta.
Agora, sozinha, com ele ali, minha mente se encheu de perguntas. Como ele havia chegado naquele ponto? O que havia por trás de sua bebida? Eu sabia que ele estava tentando esconder algo, uma dor ou uma perda, algo muito maior do que ele estava disposto a compartilhar. Mas o Paulo que eu conhecia não se entregava assim. Ele nunca foi vulnerável, nunca se deixou ver em situações como essa.
Eu me sentei na cadeira ao lado do sofá, olhando para ele. Sua respiração pesada era o único som no apartamento. Eu não sabia o que fazer. Havia uma tensão no ar, algo palpável, algo que eu não podia ignorar. Paulo nunca me permitiu conhecê-lo dessa forma, nunca me permitiu enxergar sua fraqueza, e aqui estava ele, desmaiado, dependente de mim para se manter de pé.
Levantei-me e fui até a cozinha, tentando me distrair. Preparei um copo de água e o coloquei em uma bandeja. Quando voltei para a sala, olhei novamente para Paulo. Ele parecia tão pequeno, tão diferente daquele homem arrogante e controlador com o qual eu estava acostumada a lidar. Ele estava, de algum modo, mais humano. Mais próximo de mim do que jamais havia sido.
Com o copo de água na mão, aproximei-me dele e, hesitante, passei a mão pelo cabelo de Paulo. Era uma carícia suave, quase como se ele fosse uma criança frágil. Isso me pegou de surpresa. Eu estava tocando o homem que, até então, nunca permitiu que ninguém chegasse perto o suficiente para vê-lo assim.
Dei o copo de água em suas mãos, mas ele não reagiu. Não havia sinais de vida ali. Olhei para ele por um momento mais longo. Não sabia o que fazer. Talvez o melhor fosse deixá-lo descansar, deixá-lo dormir até que acordasse.
Respirei fundo e voltei para a cozinha. Quando me virei para sair da sala, ouvi um movimento. O som era baixo, mas vinha de Paulo. Ele estava começando a se mexer, seus olhos se abrindo lentamente.
— Onde… onde estou? — Ele perguntou, com uma voz rouca e fraca.
Eu voltei rapidamente para ele. Ele estava tentando se levantar, mas seu corpo estava tão descoordenado que eu sabia que ele não conseguiria sem ajuda.
— Fique tranquilo, Paulo. Você está seguro aqui. Você está no meu apartamento.
Ele me olhou por um momento, e seus olhos, normalmente frios, estavam agora tão vulneráveis, tão perdidos. Ele parecia confuso, como se não soubesse o que havia acontecido, como se não fosse capaz de lidar com a situação. Eu me aproximei dele, tentando aliviar a tensão.
— O que aconteceu? — Perguntei suavemente.
Paulo ficou em silêncio por um momento, tentando se recompor. Ele então, com um esforço visível, se sentou no sofá e colocou a cabeça nas mãos.
— Eu… eu não sei o que fazer mais, Fernanda. Não sei como controlar isso… — sua voz era uma mistura de raiva e tristeza. Eu sabia que ele estava tentando se controlar, mas a vulnerabilidade dele estava ali, exposta, à minha vista.
Eu não sabia o que dizer. Em vez de palavras, coloquei a mão em seu ombro, tentando de alguma forma confortá-lo. Não sabia como fazer isso, mas estava lá, naquele momento, oferecendo-lhe um pouco de apoio, algo que ele nunca me havia dado antes.
— Você vai ficar bem, Paulo. Agora, você só precisa descansar.
Ele olhou para mim, e eu vi algo no olhar dele que me pegou de surpresa: um pedido silencioso de ajuda, algo que ele nunca mostrou antes.
Eu não sabia como ele lidaria com tudo isso no dia seguinte, mas, por agora, o que eu podia fazer era ficar ali e tentar ajudar, da maneira que fosse possível.
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Atualizado até capítulo 60
Comments
bete 💗
❤️❤️❤️❤️❤️
2025-01-08
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