13

A sala estava silenciosa, exceto pelo som da respiração irregular de Paulo, que ainda estava em um estado de semi-consciência. Eu o observei por um tempo, sentada ao lado dele, tentando decidir se deveria falar ou esperar ele se recuperar. Estava claro que ele não estava totalmente acordado, seus olhos ainda estavam pesados, mas havia algo na maneira como ele se movia que me dizia que ele estava começando a emergir de seu torpor.

Com cuidado, eu o observei enquanto ele tentava se ajeitar no sofá, como se as palavras estivessem lutando para sair, mas ele não conseguia encontrar a força necessária. Ele balbuciava, a voz arrastada e cheia de cansaço. Eu sabia que ele ainda estava embriagado, mas também sabia que a quantidade de bebida que ele consumira não era a única razão de sua condição. Havia algo mais profundo, algo que ele não queria compartilhar, algo que ele estava tentando esconder.

— Paulo... — falei suavemente, me aproximando dele, esperando que ele me ouvisse. — Você está bem?

Ele virou a cabeça lentamente, seus olhos ainda nublados, como se não pudesse me enxergar direito. Eu não sabia o que ele estava pensando, mas, de alguma forma, sentia que algo estava prestes a acontecer. Algo que eu não estava preparada para ouvir.

Ele não respondeu imediatamente. Em vez disso, fechou os olhos, sua testa franzida como se estivesse tentando organizar os pensamentos. Então, de repente, sem aviso, ele começou a falar. A voz dele estava fraca e sem controle, como se ele estivesse tentando se lembrar de algo distante.

— Eu... eu não sei o que aconteceu... — disse ele, sua voz rouca e baixa. — Eu não sei como tudo acabou assim.

Fiquei em silêncio, esperando, sentindo o peso das palavras que ele estava prestes a dizer. Ele parecia como se estivesse perdido em suas próprias lembranças, como se estivesse tentando reconstruir uma parte de sua vida que ele desejava esquecer.

— Eu... eu perdi ela. — Ele disse, sua voz quebrada. Era quase como se ele estivesse conversando consigo mesmo mais do que comigo. Seus olhos estavam fixos em algum ponto distante, como se ele estivesse revivendo o que acontecera. — Perdi... minha esposa, Fernanda. Eu... não consegui fazer nada para salvar ela.

Aquelas palavras caíram sobre mim como uma bomba. Eu não esperava isso, não esperava que ele falasse assim, de forma tão desprotegida. Ele estava contando a história, mas de uma maneira que não fazia sentido. Eu sabia que havia algo mais, algo que ele não estava dizendo, mas eu não o interrompi. Fiquei quieta, ouvindo, tentando entender o que ele estava passando.

Paulo engoliu em seco, respirando pesadamente, e seus olhos começaram a brilhar com a umidade das lágrimas não derramadas. Ele parecia estar se afastando de mim, mergulhando em uma memória dolorosa que ele queria esquecer, mas que ainda o perseguia.

— Ela... ela morreu no parto. — Ele falou, as palavras saindo lentamente, como se o fardo das lembranças fosse pesado demais para ser carregado. Ele parecia não perceber que estava se abrindo comigo, algo que raramente acontecia.

Ele fez uma pausa, fechando os olhos com força, como se as lembranças fossem um golpe físico. Eu não sabia o que fazer, não sabia como reagir, mas uma parte de mim sentia que ele precisava disso, precisava de alguém para ouvir, para entender. E eu estava ali, mesmo que não soubesse como ajudar.

— Minha filha... minha filha sobreviveu. — Ele continuou, a voz embargada pela emoção. — Mas minha esposa... ela não resistiu. Eu... eu a perdi naquele momento. Eu a vi morrer na minha frente e não pude fazer nada. Nada.

Eu senti uma dor profunda no peito ao ouvir aquilo. Como ele suportava essa dor? Como ele conseguia seguir em frente sabendo que a mulher que amava se foi, e ele não pôde salvar a vida dela?

— Você... você não teve culpa, Paulo. — Eu disse, minha voz suave, tentando acalmá-lo, mesmo que eu soubesse que minhas palavras não seriam suficientes. Ele provavelmente já havia ouvido isso tantas vezes, mas ainda assim, eu sentia que ele precisava ouvir mais uma vez.

Ele balançou a cabeça levemente, como se não acreditasse em minhas palavras.

— Eu deveria ter sido mais forte. Eu deveria ter feito algo para mudar o que aconteceu. Mas, no final, eu... eu estava fraco demais para lidar com tudo. Não consegui salvar a pessoa que mais amava. E agora... agora tudo está em pedaços.

Eu podia ver o quanto a dor estava marcando cada palavra que ele dizia. Ele estava preso àquele momento, ainda tentando lidar com o vazio que a perda de sua esposa causou. Algo nele havia se quebrado e ele não conseguia juntar os pedaços, não conseguia lidar com a culpa, o luto.

— Eu... eu não sei o que fazer, Fernanda. — Ele falou, quase em um sussurro. Sua voz estava carregada de arrependimento e dor. — Eu só... não consigo superar isso. Eu não consigo superar o fato de que a perdi.

Eu queria ajudá-lo, de alguma forma, mas não sabia como. Ele estava em um lugar escuro demais para que eu pudesse puxá-lo para fora. Tudo o que eu podia fazer era ouvir, estar ali para ele, mas a verdade era que ele tinha que enfrentar essa dor por conta própria. Não havia mágica que pudesse apagar o que ele havia perdido.

— Paulo... — Eu falei suavemente, tocando sua mão, tentando transmitir alguma forma de consolo. — Você não está sozinho. Você pode encontrar uma maneira de lidar com isso. Não precisa carregar essa dor sozinho.

Ele olhou para mim, seus olhos ainda cheios de lágrimas não derramadas. Eu sentia uma compaixão profunda por ele, mas também sabia que ele precisava de mais do que palavras. Ele precisava de tempo, precisava enfrentar os seus próprios demônios.

— Eu... não sei se vou conseguir seguir em frente. — Ele disse, os olhos perdidos, como se estivesse se afundando mais a cada palavra. — Eu não sei se consigo dar o próximo passo, depois de tudo o que aconteceu.

Fiquei quieta, sem saber o que dizer. Eu queria ajudá-lo, mas não tinha respostas fáceis. O luto era algo complexo, algo que não podia ser resolvido com simples palavras. Ele precisava de tempo, precisava de espaço para processar sua dor.

Eu não sabia o que mais dizer, então fiquei em silêncio, esperando que ele encontrasse suas próprias palavras. Eu sabia que ele estava tentando entender a vida novamente, mas o processo seria longo e difícil.

Paulo estava ali, quebrado, vulnerável de uma maneira que eu nunca tinha visto antes. Ele estava começando a se abrir, começando a revelar uma dor que ele havia escondido por tanto tempo. E, por mais que eu desejasse poder fazer algo, eu sabia que ele tinha que passar por isso sozinho, com o tempo.

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Comments

Josemeiri Barroso

Josemeiri Barroso

afffsss, faz um kfé forte p homi, mulher!!!

2025-03-31

0

bete 💗

bete 💗

seja forte ouça o seu desabafo e tente ajudar ❤️❤️❤️❤️❤️

2025-01-08

1

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