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Capítulo 8: O Jogo de Controle

A manhã começou como qualquer outra, mas havia uma tensão inexplicável no ar. Talvez fosse a conversa sobre sua "mãe" no dia anterior ou o olhar distante que Paulo me lançava sempre que nossos caminhos se cruzavam. Ele estava mais calado, ainda mais frio, como se estivesse tentando esconder algo de si mesmo.

Enquanto organizava uma pilha de contratos para sua assinatura, recebi uma mensagem em meu computador solicitando que eu fosse à sua sala. Respirei fundo, ajustando meu blazer, e caminhei até lá. Ele mal levantou os olhos quando entrei, mas eu podia sentir que algo estava diferente.

"Preciso que você revise os dados deste relatório," disse ele, empurrando uma pasta na minha direção. "Agora."

Assenti, pegando a pasta, mas quando me virei para sair, ele me chamou de volta.

"Fernanda." Sua voz estava mais baixa, quase hesitante, o que era estranho vindo dele.

"Sim, senhor César?"

Ele me estudou por um momento, como se estivesse decidindo algo. Então, levantou-se de sua cadeira e caminhou até mim. Era raro ele sair de trás de sua mesa, e sua proximidade imediata me fez prender a respiração.

"Você tem sido... eficiente," disse ele, seu olhar fixo no meu.

"Obrigada," respondi, tentando ignorar o calor que subia pelo meu rosto. Mas havia algo mais em seus olhos – algo que me fez sentir como se estivesse sendo desvendada, camada por camada.

"Entretanto," continuou ele, aproximando-se mais um passo, "você precisa aprender a se impor. Este é um ambiente competitivo, e pessoas como você... podem ser facilmente esmagadas."

"Eu não sou tão frágil quanto pareço," respondi, minha voz saindo mais firme do que eu esperava.

"Não?" Ele arqueou uma sobrancelha, o canto dos lábios se curvando em um meio sorriso que era quase desafiador. "Então prove."

Fiquei imóvel, encarando-o. A tensão entre nós era palpável, quase sufocante. Meu coração batia tão alto que eu tinha certeza de que ele podia ouvir.

"Como, exatamente, o senhor quer que eu prove isso?" perguntei, cruzando os braços, tentando recuperar algum controle sobre a situação.

Ele inclinou a cabeça, analisando-me como se eu fosse um quebra-cabeça que ele estava tentando resolver. "Mostre que não vai recuar. Que pode me enfrentar sem... hesitar."

"Enfrentá-lo?" ri, nervosa. "Eu já faço isso todos os dias."

"Não é o que parece," respondeu ele, sua voz carregada de algo que não consegui identificar.

Nesse momento, percebi o quão perto ele estava. Sua presença era avassaladora, o cheiro amadeirado de seu perfume envolvendo-me, e seus olhos escuros brilhando com uma intensidade que me deixava tonta.

Sem pensar, dei um passo à frente, encurtando ainda mais a distância entre nós. "Talvez o senhor esteja subestimando a minha força," murmurei, minha voz saindo mais baixa.

Algo em seu olhar mudou. Por um instante, ele pareceu perder o controle de sua postura habitual. Sua mandíbula se contraiu, e seus olhos desceram brevemente para meus lábios antes de subir novamente para encontrar os meus.

"Fernanda..." Ele falou meu nome como um aviso, mas sua voz estava rouca, quase como se estivesse lutando consigo mesmo.

"Sim, senhor César?"

Ele deu um passo para trás, passando a mão pelos cabelos, claramente desconcertado. "Isso é... inapropriado," disse ele, virando-se abruptamente.

"Eu não fiz nada," respondi, sentindo uma mistura de ousadia e confusão.

"Saia," ordenou ele, sem me olhar.

Fiquei parada por um momento, tentando entender o que acabara de acontecer. Paulo César estava sempre no controle, sempre no comando. Mas naquele instante, eu o havia feito vacilar – mesmo que por apenas um segundo.

Saí da sala com a pasta em mãos, meu coração ainda batendo descontroladamente. Voltei para minha mesa, mas não conseguia me concentrar. O que havia sido aquilo? Era raiva? Frustração? Ou algo mais?

Mais tarde, enquanto revisava o relatório que ele havia solicitado, Paulo passou pela minha mesa, parando ao meu lado. Sua expressão estava indecifrável, mas ele parecia tenso.

"Como está o relatório?" perguntou ele, sem me olhar diretamente.

"Quase pronto," respondi, tentando manter a compostura.

"Ótimo." Ele hesitou por um momento antes de continuar. "E... sobre mais cedo..."

Levantei os olhos para encará-lo. "O que tem?"

"Esqueça," disse ele rapidamente, saindo antes que eu pudesse responder.

Observei-o enquanto ele se afastava, sua postura rígida, mas os ombros um pouco mais tensos do que o normal. Algo me dizia que, por mais que ele quisesse, Paulo César não iria esquecer o que aconteceu – e, honestamente, eu também não.

Eu continuei olhando para a porta de sua sala por alguns segundos, tentando processar o que acabara de acontecer. Paulo não era de demonstrar fraqueza, e no entanto, ele havia vacilado – mesmo que por um instante. Era quase como se ele estivesse se segurando, se contendo, mas não havia dúvida de que algo havia mudado entre nós.

Quando voltei a olhar para o relatório, minha mente ainda estava em outro lugar. Eu sabia que ele não ia deixar aquilo passar, que a tensão não desapareceria com um simples "esqueça". O silêncio que se seguiu a essa conversa só deixou mais claro que ele estava mais perturbado do que queria admitir.

Eu sabia como ele funcionava – ele controlava tudo e todos ao seu redor, não deixava nada ao acaso. E naquele momento, o controle dele tinha se rompido, e isso mexeu com ele de uma maneira que eu não sabia como lidar.

A tarde se arrastou enquanto eu me forçava a terminar o trabalho. O ambiente no escritório estava mais silencioso do que o normal, e eu me sentia um tanto desconectada de tudo ao meu redor. Cada vez que olhava para a porta de Paulo, ele não estava lá, mas eu sabia que, de alguma forma, ele estava observando. Sua presença parecia se estender por todo o escritório, tornando tudo mais carregado.

Era difícil ignorar a sensação de que algo estava prestes a acontecer. Não poderia ser apenas o trabalho. Não poderia ser apenas a tensão acumulada entre nós dois. Algo mais estava em jogo, algo que ambos ainda não tínhamos entendido completamente. E, mais uma vez, ele era a chave de tudo isso.

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Comments

IJBitt🧚

IJBitt🧚

A protagonista é bem convencida,apesar de ser feinha e sem graça nenhuma.

2025-03-01

1

bete 💗

bete 💗

mistérios ❤️❤️❤️❤️❤️

2025-01-07

0

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