Eu nunca imaginei que as coisas poderiam ser tão complicadas, mas aqui estava eu, sentado à mesa de cozinha de Fernanda, olhando para ela de uma forma que provavelmente fazia ela se perguntar o que estava acontecendo na minha cabeça. Ela estava me observando com uma expressão curiosa, e o silêncio entre nós era quase palpável. Eu não estava acostumado com esse tipo de proximidade, mas, ao mesmo tempo, algo me dizia que não havia mais volta.
Eu já tinha decidido o que queria, e agora só precisava explicar para ela, de um jeito que não soasse desesperado ou insano. A minha mãe adotiva, Beatriz, estava me pressionando há semanas para que eu casasse. Ela dizia que era a única forma de resolver os problemas financeiros da família e, mais importante, de manter a imagem da empresa intacta. Mas isso não era tudo. Ela também queria garantir que eu seguisse o caminho “certo”, casando com alguém que fosse adequado para a posição que eu ocupava na sociedade. E, para ela, Fernanda parecia ser a resposta perfeita.
Naquela manhã, com o café na mesa e o peso da decisão me afligindo, respirei fundo antes de finalmente quebrar o silêncio.
— Fernanda... — comecei, a voz mais baixa do que eu pretendia. Ela levantou a cabeça, me encarando atentamente, o olhar dela suave, mas com um toque de desconforto. Eu sabia que isso não seria fácil.
— O que você acha de um contrato? — perguntei, tentando manter a calma, mas já sentindo a pressão nas palavras. Ela franziu a testa, claramente confusa. Não era uma proposta comum, mas não havia mais tempo para rodeios.
— Como assim, Paulo? — Ela perguntou, sua voz se misturando com o leve tremor de dúvida. Eu podia ver que ela não entendia exatamente o que eu estava sugerindo, e isso me fez questionar se ela estava disposta a ouvir.
Eu sabia que, para ela, aquilo seria um choque. Até para mim, a ideia de sugerir um casamento de conveniência era algo que eu nunca tinha considerado antes. Mas a pressão de Beatriz, a constante cobrança de que eu precisava "fazer o que era certo", e a necessidade de ter uma esposa para "fechar o ciclo" me haviam levado até aqui. Fernanda era... bem, ela era perfeita para o papel.
— Eu quero que você se case comigo, mas de um jeito diferente — continuei, tentando ser o mais direto possível. — Eu não estou pedindo para você ser minha esposa por amor, Fernanda. Estou pedindo para você se casar comigo por um contrato.
A pausa no ar era densa. Eu sabia que estava começando a dar o passo mais incerto da minha vida, e isso me deixou ainda mais inquieto.
Ela me olhou por um momento, como se tentasse processar o que eu acabara de dizer. Seus olhos estavam atentos, mas também havia uma sombra de desconfiança que começava a se formar. Eu não podia culpá-la. Eu não estava pedindo para ela se casar comigo por um motivo romântico ou sentimental. Eu estava pedindo um acordo, uma aliança de conveniência, e eu sabia que isso não era fácil de aceitar.
— Você quer que eu me case com você… mas por que eu? — ela perguntou, os olhos ainda fixos nos meus, buscando uma explicação que fosse mais lógica do que aquela que eu estava oferecendo. A dor em sua voz era nítida, mas também havia uma curiosidade que me dava esperança de que talvez ela estivesse considerando a proposta.
Eu hesitei por um momento, tentando reunir minhas palavras com mais clareza. Eu precisava que ela entendesse, de algum modo, o que estava em jogo. Não era apenas um casamento por dinheiro ou por status. Era uma necessidade imposta a mim, uma exigência da minha própria família. Beatriz não me daria descanso até que eu resolvesse isso.
— Fernanda, minha mãe adotiva... — comecei, respirando fundo. — Ela está me pressionando muito para que eu case. E, honestamente, eu não vejo uma maneira melhor de lidar com isso do que com alguém que possa entender que isso não é sobre amor, mas sobre... necessidade. Eu preciso de uma esposa. E você, por algum motivo, parece ser a pessoa ideal para isso.
Eu sabia que estava sendo direto demais, mas era a única maneira de evitar mais confusão. A pressão de Beatriz era constante, e eu sentia que estava sendo esmagado pelas expectativas de todo mundo à minha volta. O casamento de conveniência era, aparentemente, a única maneira de escapar disso sem perder a minha sanidade.
Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos, ainda absorvendo as palavras. Eu podia ver a luta interna dela, mas também via o raciocínio tomando forma em sua mente. Eu tinha que admitir que a ideia de Fernanda ser minha esposa, mesmo que apenas no papel, não era algo que eu rejeitava completamente. Ela tinha qualidades que me atraíam, coisas que, de alguma forma, despertavam algo em mim que eu não estava preparado para sentir. Ela era mais do que apenas uma candidata conveniente. Ela era alguém com quem eu poderia, talvez, compartilhar a rotina, os desafios, e até mesmo as... desilusões.
Finalmente, ela falou, sua voz baixa, mas firme:
— Então, é isso? Você quer que eu me case com você, mas não porque quer, Paulo, mas porque sua mãe quer? E você acha que isso seria bom para mim? — O tom dela era um pouco amargo, mas havia uma frustração misturada com algo mais. Eu sabia que era difícil para ela aceitar essa proposta, e ainda mais difícil acreditar que ela faria algo tão importante por alguém como eu.
Eu balancei a cabeça, tentando dar um passo mais leve. Eu não queria que ela se sentisse como se fosse uma mera peça no meu jogo. Eu sabia que estava pedindo muito, mas a necessidade de encontrar uma solução para a pressão que estava me esmagando me fazia insistir.
— Não é só isso, Fernanda — falei, tentando encontrar uma maneira de explicar sem soar egoísta. — Eu sei que a proposta não é convencional, mas você é... alguém com quem eu acredito que eu poderia, de alguma forma, construir algo. Não seria fácil. Mas eu sei que poderia funcionar, desde que não seja apenas por um contrato. Não é só isso que estou oferecendo.
Ela me olhou mais uma vez, agora com os olhos um pouco mais suaves. Talvez houvesse uma abertura ali, uma brecha que ela estava disposta a explorar, mesmo que fosse apenas por um momento. Ela suspirou, o peso da decisão visível em seus ombros.
— Eu... não sei o que dizer, Paulo. Isso é tão... fora do normal, eu nem sei como responder. Mas, eu também sei que você está pressionado, que tem um monte de coisas acontecendo. Eu não sei se isso é o que eu quero, mas... vou pensar sobre isso.
Eu sabia que ela não estava completamente convencida, mas a abertura, ainda que pequena, era suficiente para me dar esperança. Ela estava considerando a proposta, e isso, para mim, significava que havia alguma possibilidade de algo real surgir entre nós. Mesmo que fosse por um contrato. Mesmo que fosse só por necessidade.
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Atualizado até capítulo 60
Comments
bete 💗
isso virará amor ❤️❤️❤️❤️❤️
2025-01-08
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