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Eu estava parada ali, na cozinha, com a frigideira nas mãos, fazendo ovos mexidos. O som do calor da panela e o cheiro do alimento começavam a me distrair, mas não era o suficiente para apagar o turbilhão que estava se formando na minha mente. Eu me peguei pensando em tudo o que tinha acontecido nas últimas horas, desde aquela conversa com Paulo.

Eu não sabia o que pensar dele. Ele estava sendo direto, de um jeito frio e pragmático, mas eu também podia sentir algo mais ali. Algo que não conseguia entender. Ele estava me pedindo para ser sua esposa, mas não por amor, não por desejo, mas por uma necessidade. Eu não sabia se deveria ficar aliviada ou decepcionada. Eu queria gritar para ele, dizer que não era assim que as coisas funcionavam, que eu não era uma moeda de troca. Mas, ao mesmo tempo, algo em mim me dizia que ele não estava pedindo isso de uma forma cruel. Era apenas a única opção que ele via. A única saída.

Eu coloquei os ovos mexidos no prato e levei até a mesa onde ele estava, olhando para mim de uma forma que eu não conseguia decifrar. Ele agradeceu com um simples "obrigado" e começou a comer, sem dizer nada sobre o que conversamos mais cedo. Como sempre, havia algo de distante nele. Algo inacessível. Mesmo quando estávamos ali, juntos na mesma casa, ele parecia estar em outro lugar.

Eu não sabia o que fazer. Eu deveria aceitar a proposta? A ideia de um casamento de contrato ainda me deixava inquieta, mas a pressão que ele estava sofrendo de sua família, essa obrigação que ele sentia, fazia com que eu pensasse no quanto ele estava em apuros. Eu não sabia como era a relação dele com a mãe adotiva, mas já percebia que não era uma relação simples. Ele tinha que lidar com as expectativas de uma mulher que parecia controlar cada aspecto de sua vida.

— Fernanda, eu... — Paulo começou a falar enquanto terminava de comer. Ele não olhou para mim, mas eu pude sentir que ele estava hesitando, como se estivesse buscando a palavra certa. — Eu sei que isso não é o que você espera, e sei que é uma situação complicada. Mas, se você mudar de ideia... e decidir que isso não é para você, me avise. Eu posso... te oferecer uma compensação financeira, se precisar de algo. Isso pode ajudar a aliviar a pressão.

Eu parei de mexer nas minhas próprias omeletes e o encarei. Ele estava oferecendo dinheiro. Dinheiro. Como se fosse a solução para tudo. Como se eu fosse uma funcionária de luxo que poderia ser paga para se casar com ele. Eu engoli em seco. Ele não estava sendo maldoso, mas havia algo tão impessoal em sua oferta que eu não consegui reagir de imediato.

— Não, Paulo — respondi, tentando manter a calma. — Não é sobre dinheiro. Eu não preciso disso. Eu não sou... uma troca de favores. Não é assim que as coisas funcionam para mim.

Ele não pareceu surpreso. Apenas assentiu com a cabeça, como se já soubesse que eu recusaria. Mas, ainda assim, ele parecia aliviado, como se tivesse esperado uma resposta positiva. Então ele se levantou e pegou sua jaqueta, colocando-a rapidamente. Ele não estava mais olhando para mim enquanto fazia isso. Era como se a nossa conversa já tivesse terminado, como se ele estivesse novamente fechado em seu próprio mundo.

— Eu vou embora agora — disse ele, sua voz impessoal e fria. — Se precisar de algo, só ligar.

Eu o observei sair da cozinha e, em seguida, ouvi a porta da frente sendo fechada. O som ecoou pela casa vazia, e uma sensação de solidão me invadiu. Era como se tudo o que ele me dissera e tudo o que eu sentira não tivesse realmente importado para ele. Ele tinha suas próprias razões, seus próprios demônios com os quais estava lutando, mas eu não sabia como lidar com isso.

Suspirei e me sentei no banco da cozinha, olhando para os ovos mexidos que ainda estavam no prato. A comida estava fria agora, mas eu nem queria mais comê-la. Minha mente estava borbulhando de pensamentos conflitantes. Eu sabia que minha situação era complicada, mas será que eu deveria realmente me envolver nisso? Deveria aceitar o contrato de casamento e tentar construir algo com ele, mesmo sabendo que seria baseado em conveniência e não em sentimentos?

Eu não tinha respostas. Mas o que eu sabia era que não poderia ficar ali pensando o tempo todo. Eu precisava de uma distração, algo para ocupar minha mente.

Era quando a lembrança da minha avó me atingiu. Ela estava no hospital, e eu havia prometido a ela que a visitaria. Ela estava doente, e sua saúde havia piorado recentemente. Eu sabia que não podia perder mais tempo pensando em Paulo e em todas as complicações que ele trouxe para minha vida. Minha avó precisava de mim agora.

Levantei-me rapidamente da mesa, pegando minha bolsa e saindo pela porta. Eu não queria mais ficar sozinha, e a visita ao hospital parecia ser a única coisa que poderia me ajudar a clarear a mente.

No caminho até o hospital, minha mente voltou a pensar em Paulo, inevitavelmente. Será que ele se importava comigo? Ou será que ele só me via como uma solução temporária para seus próprios problemas? Eu queria entender, mas também sabia que, no fundo, ele estava tão perdido quanto eu. E a ideia de que ele estava disposto a me oferecer dinheiro para que eu aceitasse ser sua esposa de contrato só me fazia questionar ainda mais suas verdadeiras intenções.

Cheguei ao hospital e me dirigi rapidamente para o andar onde minha avó estava internada. Ela estava com dificuldades respiratórias, e os médicos a estavam monitorando de perto. Eu entrei no quarto dela e vi a figura pequena e frágil de minha avó deitada na cama, com os olhos fechados. Ela não parecia estar em dor, mas também não estava totalmente tranquila. Quando me viu, abriu os olhos lentamente e sorriu fraco.

— Minha neta... — ela disse, sua voz baixa e cansada.

Eu me aproximei, segurando sua mão. Isso me trouxe um conforto inesperado, algo que eu não sabia que precisava até aquele momento. A vida com Paulo parecia cada vez mais confusa, mas, pelo menos, minha avó estava aqui, e ela sempre me lembrava de quem eu realmente era.

Eu não tinha todas as respostas, mas agora eu sabia que precisava estar forte para as pessoas que realmente importavam na minha vida. E minha avó era uma delas. Ela era a razão pela qual eu não poderia deixar que as coisas com Paulo me consumissem completamente. Eu precisava focar no que realmente importava.

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Comments

bete 💗

bete 💗

aguardando ansiosa
❤️❤️❤️❤️❤️

2025-01-08

0

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