Enquanto tentava concentrar minha atenção nos papéis à minha frente, algo dentro de mim dizia que o clima estava prestes a mudar. Eu podia sentir a tensão no ar, mais densa do que nunca. Paulo César havia saído de sua sala logo depois de nossa conversa, e embora ele não tivesse dito uma palavra sobre o que aconteceu, a maneira como ele me evitou depois me fez ter a sensação de que, de alguma forma, nossa interação havia deixado marcas. Mas eu não podia me permitir me perder nesses pensamentos. Precisava terminar o trabalho que ele me pedira, como sempre fazia.
De repente, o som das teclas do meu teclado foi interrompido pelo toque do telefone na minha mesa. Levantei a cabeça rapidamente e vi a extensão que indicava que era ele. O que ele queria agora?
Atendi com um tom profissional, tentando disfarçar a ansiedade que tinha começado a formar em meu peito. “Fernanda Maia,” disse, com uma calma que me parecia quase forçada.
“Estou aguardando os relatórios atualizados,” disse a voz grave de Paulo, sem um tom de saudação, sem nenhuma gentileza. “Por favor, entregue-os na minha sala assim que terminar.”
“Claro, senhor César,” respondi, tentando não deixar que minha voz vacilasse.
A linha ficou em silêncio por um momento antes de ele adicionar, com um tom mais baixo: “E, Fernanda, não me faça esperar por mais tempo. Eu não sou fã de atrasos.”
Fui tomada por uma onda de frustração. Tentei não responder de forma agressiva, mas algo dentro de mim se rebelava contra aquele tom de comando. Eu já não sabia o que pensar sobre a relação entre nós dois, ou se deveria continuar a me submeter ao que ele queria. Era como se ele estivesse sempre jogando com as cartas da sua autoridade e, de alguma forma, eu estava sendo puxada cada vez mais para o centro de seu jogo.
Fiz uma pausa para respirar fundo, antes de responder. “Entendido, senhor César.”
Após a ligação, deixei a cadeira de lado e me levantei para organizar os papéis. Minhas mãos tremiam ligeiramente, mas consegui manter a compostura. Eu sabia que ele esperava mais de mim do que o simples cumprimento de tarefas. Ele queria ver o quanto eu era capaz de suportar. O quanto eu era capaz de ser eficiente enquanto mantinha minha dignidade intacta.
Na sala dele, o ambiente estava frio, e ele estava de volta ao seu posto, parecendo ainda mais distante. Quando entrei, ele não me olhou de imediato, absorvido pelo seu laptop. Depositei os relatórios na sua mesa sem emitir uma palavra.
"Coloque tudo na pilha, Fernanda." Sua voz soou sem emoção, mas havia algo de inquietante na maneira como ele falou, como se estivesse esperando algo mais.
Obedeci, colocando os papéis na pilha já existente. Fiquei ali, imóvel por um momento, não sabendo se deveria sair ou esperar que ele falasse algo mais.
Mas nada. O silêncio entre nós era opressor.
Quando me virei para ir embora, uma sensação estranha de estar sendo observada me envolveu. Olhei de volta para ele, e lá estava Paulo, com os olhos fixos em mim. Era como se estivesse me estudando, me analisando de uma forma mais intensa do que jamais fizera antes. O olhar dele, normalmente tão frio e calculista, agora estava... quase desconcertado, como se ele estivesse tentando entender alguma coisa que eu não havia dito.
Meus pensamentos estavam confusos, e eu me sentia desconfortável sob a pressão do silêncio dele. Eu não sabia o que ele queria de mim, ou o que eu deveria querer dele.
"Você tem alguma coisa a mais para fazer, Fernanda?" A pergunta veio abrupta, sem qualquer cordialidade. Ele estava novamente na postura autoritária, seu olhar fixo em mim enquanto ele se recostava na cadeira, parecendo mais relaxado, mas o tom na sua voz me dizia o contrário. Ele queria testar meus limites.
“Não, senhor César. Já terminei tudo o que foi solicitado.”
Ele fez um gesto impaciente com a mão. “Então vá embora. Já tem o que fazer em casa. Não perca mais meu tempo.”
Aquelas palavras me cortaram de forma mais profunda do que eu gostaria de admitir. Ele não precisava ser tão cruel, tão distante. Não com alguém que estava apenas tentando fazer seu trabalho da melhor forma possível. Mas Paulo César não tinha interesse em ser gentil. Ele se alimentava da sua própria frieza, da sua autoridade. E eu... eu fazia parte desse cenário, apenas mais uma peça.
"Sim, senhor," respondi em tom baixo, controlando a raiva que começava a subir em minha garganta. Sem mais nada a dizer, virei as costas e saí rapidamente da sala. Eu podia sentir os olhos dele nas minhas costas, pesados, observando cada movimento meu, mas não olhei para trás.
Quando cheguei à minha mesa, o alívio de ter saído da sala dele foi instantâneo, mas logo a frustração tomou seu lugar. Não entendia mais o que ele queria de mim. O que ele queria que eu fosse. Para ele, eu era apenas mais uma funcionária, alguém que deveria manter sua cabeça baixa e realizar as tarefas sem questionar. Mas, no fundo, algo em mim queria mais. Queria desafiar o comportamento dele, queria ver até onde ele me empurraria.
Mas essa era uma linha tênue, e eu sabia que, se me arriscasse demais, poderia acabar sendo engolida pelo próprio jogo que ele estava criando.
Eu precisava de uma pausa, algo que me distraísse. Mas Paulo César parecia ser a única coisa que ocupava minha mente. Por mais que tentasse fugir, ele estava sempre lá, nos cantos mais escuros dos meus pensamentos.
Era uma relação complicada, e eu não sabia se estava pronta para enfrentá-la completamente.
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Atualizado até capítulo 60
Comments
bete 💗
❤️❤️❤️❤️❤️
2025-01-07
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