Capítulo 16: A Escolha de Eleanor

Capítulo 16: A Escolha de Eleanor

O sol nasceu hesitante naquela manhã, suas primeiras luzes mal rompendo o manto cinza de nuvens que cobria o céu. Na Mansão Wycliffe, o clima refletia o que estava no coração de Eleanor – uma mistura de incerteza, tristeza e a terrível necessidade de tomar uma decisão que poderia mudar o curso de sua vida para sempre.

Eleanor estava desperta há horas, incapaz de encontrar qualquer descanso que apaziguasse sua mente. Os eventos da noite anterior, quando Henry fugira com a ajuda de Thomas, ainda a assombravam. Embora soubesse que não havia outra escolha, a ideia de ter mandado seu irmão para o desconhecido deixava um vazio no peito que parecia impossível de preencher.

Ela caminhava pelo quarto, sentindo o frio do piso de madeira sob os pés descalços. As cortinas pesadas estavam parcialmente abertas, permitindo que uma luz fraca e nebulosa invadisse o espaço. O quarto, com suas tapeçarias elaboradas e móveis ricos, parecia ao mesmo tempo um santuário e uma prisão. Cada objeto ao seu redor parecia carregar o peso de suas escolhas, lembrando-a do dilema que enfrentava.

Ao olhar para o espelho, Eleanor mal reconhecia a mulher que a encarava de volta. Seus olhos estavam cercados por sombras escuras, resultado de noites mal dormidas e dias cheios de preocupação. O cabelo, geralmente bem penteado, agora estava solto e desgrenhado, caindo em ondas sobre os ombros. Ela estava tão perdida em pensamentos que mal percebeu quando Thomas entrou silenciosamente no quarto.

— Eleanor... — disse ele, com voz suave, mas carregada de preocupação.

Ela se virou, encontrando os olhos dele, e pela primeira vez sentiu como se estivesse realmente vendo-o. Thomas estava tão exausto quanto ela, com os traços rígidos de seu rosto acentuados pela tensão e pela falta de descanso. Mas havia algo mais em seus olhos – uma compreensão silenciosa, uma oferta de apoio que a fazia querer correr para os braços dele e se esconder do mundo.

— Thomas... — começou ela, mas a voz se quebrou.

Ele se aproximou, cruzando o quarto em poucos passos largos, e parou diante dela. Sua presença era ao mesmo tempo imponente e reconfortante.

— Sei que isso é difícil para você, Eleanor — disse ele, segurando as mãos dela nas suas, o calor de seu toque contrastando com o frio que ela sentia por dentro. — Não quero que você sinta que precisa escolher entre mim e seu irmão. Mas precisamos falar sobre o que vem a seguir.

Eleanor sentiu uma onda de desespero crescer dentro de si. Sabia que Thomas estava certo, que a situação não podia ser ignorada, mas como poderia escolher entre o homem por quem estava se apaixonando e o irmão que sempre protegera?

— Eu... não sei o que fazer, Thomas — admitiu ela, a voz carregada de uma vulnerabilidade rara. — Henry é tudo o que tenho da minha antiga vida, mas... você... nós... — Ela engoliu em seco, as palavras presas na garganta.

Thomas olhou para ela com uma expressão de dor que espelhava a dela. Ele sabia o quanto aquilo era difícil para Eleanor e não queria pressioná-la. Mas o fato era que não podiam continuar vivendo nessa incerteza, não com a ameaça constante pairando sobre suas cabeças.

— Eleanor... — disse ele, com uma suavidade que quase a fez desmoronar. — Eu não estou pedindo que abandone seu irmão. Só quero que pense em nós, em nosso futuro. Se continuarmos a protegê-lo, podemos perder tudo.

As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela. Thomas estava certo, e Eleanor sabia disso, mas a verdade doía mais do que qualquer coisa que já havia experimentado. Precisava tomar uma decisão que poderia custar-lhe o relacionamento com seu irmão ou o novo amor com Thomas.

— Não quero perdê-lo, Thomas — disse ela, finalmente. — Mas não posso trair Henry. Ele é meu irmão, e se algo acontecer a ele por minha causa, eu nunca me perdoarei.

Thomas puxou-a para um abraço apertado, envolvendo-a com uma força que parecia destinada a protegê-la de todo o mal.

— Eu sei... e não quero que você se sinta culpada por isso. Mas precisamos ser realistas. Se Henry continuar assim, ele não apenas se destruirá, mas também poderá nos arruinar.

Eleanor sentiu-se dividida enquanto ouvia as palavras de Thomas. Ele estava certo, mas o que estava pedindo dela parecia impossível. Como poderia escolher entre os dois homens que amava? Como poderia afastar-se de Henry para proteger seu relacionamento com Thomas, sabendo que isso poderia significar a morte de seu irmão?

Ficaram ali, abraçados, enquanto a manhã avançava lentamente. Eleanor sabia que não podia adiar a decisão por mais tempo. Era hora de enfrentar Henry, de dizer o que precisava ser dito, mesmo que isso a destruísse por dentro.

Mais tarde, naquele dia, Eleanor decidiu ir ao esconderijo de Henry. Ela sabia que ele estava em um pequeno chalé fora da cidade, para onde os homens de Thomas o haviam levado. O caminho até lá foi feito em silêncio, o som dos cascos dos cavalos ressoando como presságio do que estava por vir.

Ao chegar, o chalé estava quieto, exceto pelo som distante do vento sussurrando através das árvores. Henry estava lá dentro, sentado perto de uma lareira acesa, seu rosto iluminado pelas chamas trêmulas. Ele parecia mais velho, mais cansado do que Eleanor jamais o vira. Ao vê-la entrar, ele levantou-se rapidamente, uma mistura de alívio e medo nos olhos.

— Eleanor... — disse ele, a voz rouca. — Você veio. Eu estava com medo de que...

Ela caminhou até ele, o coração pesado pela decisão que estava prestes a tomar.

— Henry, precisamos conversar — disse ela, tentando manter a voz firme, mas sentindo-a trêmula com a emoção.

Henry assentiu, claramente sentindo a seriedade do momento. Ele indicou a cadeira em frente à dele, e Eleanor sentou-se, as mãos entrelaçadas no colo.

— Henry... estou tão preocupada com você — começou ela, as palavras saindo com dificuldade. — Sei que você acredita no que está fazendo, mas... isso está nos destruindo. Está nos colocando todos em perigo.

Henry olhou para ela, os olhos cheios de culpa e arrependimento.

— Eu sei, Eleanor. Sei que coloquei você em uma situação terrível, mas... não sei o que mais fazer. Não posso simplesmente desistir. Se fizer isso, estarei traindo tudo em que acredito.

Com lágrimas a brotar, Eleanor reprimiu a emoção. Precisava ser forte, por ele e por si mesma.

— Eu entendo, Henry. Mas também preciso pensar em Thomas, em mim... no que estamos construindo juntos — disse ela, finalmente. — Se continuarmos ajudando você, estaremos nos condenando. Eu... não posso mais fazer isso.

As palavras pareciam pesar no ar entre eles, e Henry olhou para ela com uma expressão de dor que despedaçava o coração de Eleanor.

— Você está dizendo que... vai me abandonar? — perguntou ele, com incredulidade.

Eleanor sentiu uma dor aguda no peito ao ouvir a palavra, mas precisava ser honesta, mesmo que isso significasse machucar a ambos.

— Não é isso, Henry — disse ela, tentando encontrar as palavras certas. — Mas preciso proteger o que tenho com Thomas. Eu preciso pensar no futuro que estamos tentando construir. E isso significa que não posso mais colocá-lo em perigo, nem a mim mesma. Eu preciso... me afastar.

Henry ficou em silêncio por um momento, o rosto marcado pela dor e arrependimento. Ele sabia que causara aquilo, que suas ações a levaram até esse ponto, mas isso não tornava a decisão dela menos dolorosa.

— Então, é isso... — disse ele, finalmente, a voz sombria. — Eu perdi você, Eleanor. Perdi minha irmã.

As lágrimas de Eleanor caíam livres agora, enquanto se levantava e se aproximava de Henry, segurando suas mãos.

— Você jamais me perderá, Henry. Serei sempre sua irmã e sempre carregarei você no coração. Mas... precisamos seguir caminhos diferentes agora. Você precisa encontrar uma maneira de se salvar, e eu preciso proteger o que tenho com Thomas.

Henry olhou para ela, os olhos cheios de tristeza, mas também de uma compreensão resignada.

— Eu entendo, Eleanor — disse ele, a voz quebrada. — Mas... isso não torna as coisas mais fáceis.

Ela assentiu, sentindo o peso de sua decisão esmagá-la. Não havia escolha certa, apenas a menos dolorosa.

— Eu sei — respondeu ela, com a voz embargada. — E eu sinto muito por tudo isso. Mas preciso seguir em frente, Henry. Preciso de um caminho que me permita viver em paz.

Após um momento de silêncio, Eleanor inclinou-se para beijar a testa de Henry, em um gesto de despedida que trouxe mais lágrimas aos olhos.

— Adeus, Henry — disse ela, a voz mal saindo.

Henry fechou os olhos, tentando reprimir as próprias lágrimas.

— Adeus, Eleanor.

Eleanor deu um passo para trás, sentindo-se partir a cada movimento. Quando finalmente saiu do chalé, sentiu como se deixasse uma parte de si mesma para trás.

A viagem de volta à Mansão Wycliffe foi em silêncio, e ao entrar em casa, sentiu-se esgotada. Sabia que fizera a escolha certa, mas a dor era avassaladora.

Thomas a esperava no saguão, e, ao vê-lo, uma onda de alívio misturada com tristeza a dominou. Ele caminhou até ela e, sem dizer nada, a envolveu em um abraço. As lágrimas voltaram, mas desta vez eram de alívio por saber que, apesar de tudo, ainda tinha algo pelo que lutar.

— Estou aqui, Eleanor — disse Thomas, a voz suave e reconfortante. — Você fez o que precisava fazer, e estou orgulhoso de você.

Eleanor assentiu, ainda chorando no ombro dele.

— Espero que ele encontre o caminho dele — sussurrou, a voz quebrada.

Thomas a segurou mais firme, oferecendo-lhe todo o conforto que podia.

— Ele vai, Eleanor. Ele vai — disse ele, com uma convicção em que Eleanor queria desesperadamente acreditar.

Enquanto a noite caía sobre a Mansão Wycliffe, Eleanor e Thomas permaneceram juntos, conscientes de que, embora a escolha tivesse sido feita, as consequências ainda estavam por vir.

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