Capítulo 9: Primeiras Faíscas

Capítulo 9: Primeiras Faíscas

O dia seguinte ao baile na corte amanheceu nublado, como se o céu refletisse a complexidade dos sentimentos que agitavam o coração de Eleanor. A conversa com Sir William e a reação de Sir Thomas ainda reverberavam em sua mente. O que antes parecia ser um simples acordo pragmático entre ela e seu marido agora começava a tomar contornos mais profundos, mais intrincados. A vida na Mansão Wycliffe, com todos os seus segredos e sutilezas, estava se revelando muito mais do que ela havia imaginado.

Eleanor passou a manhã no jardim, tentando encontrar algum alívio nas cores vibrantes das flores e na calmaria envolvente dos campos. O ar fresco e a brisa suave deveriam ter sido suficientes para acalmar sua mente, mas sua inquietação persistia. Havia algo naquela nova vida que começava a despertar sentimentos e pensamentos que ela não estava preparada para enfrentar.

Enquanto caminhava pelos jardins, Eleanor encontrou-se na beira do pequeno lago que ficava nos fundos da propriedade. A água estava calma, refletindo o céu nublado acima, e o som suave da água correndo pelo riacho próximo era reconfortante. Ela se sentou em um banco de pedra, deixando seus pensamentos vagarem.

Seu casamento com Sir Thomas havia sido, desde o início, uma união de conveniência, um acordo que visava beneficiar ambas as partes. E, de certo modo, estava funcionando. Eleanor estava se ajustando à vida na mansão, aprendendo as responsabilidades que vinham com sua nova posição e começando a se familiarizar com as complexidades da corte. Sir Thomas, por sua vez, mantinha sua parte do acordo, tratando-a com respeito e dignidade.

Mas, enquanto observava as ondas suaves no lago, Eleanor percebeu que algo mais havia começado a surgir entre eles. Não era amor, não ainda, mas havia uma conexão crescente, um entendimento silencioso que ia além das palavras formais e das aparências. E, junto com essa conexão, vinham sentimentos que ela não sabia como lidar.

A imagem de Sir Thomas veio à mente de Eleanor, e ela se perguntou o que realmente sabia sobre ele. Ele era um homem reservado, controlado, sempre mantendo suas emoções sob uma camada de disciplina e cortesia. Mas, durante o baile, ela havia visto algo mais – uma preocupação genuína, talvez até um toque de vulnerabilidade. Eleanor se perguntava o que mais ele escondia por trás de sua fachada impecável, e se ela alguma vez teria acesso a essas partes mais profundas de sua alma.

Enquanto esses pensamentos a consumiam, Eleanor ouviu passos atrás de si. Ela se virou para ver Sir Thomas se aproximando, suas mãos cruzadas atrás das costas, seu rosto assumindo a expressão habitual de calma e controle. Ele a cumprimentou com um sorriso contido e se aproximou, parando ao lado do banco.

— Lady Wycliffe — disse ele, com sua voz suave, mas firme. — Espero não estar interrompendo seus pensamentos.

Eleanor esboçou um leve sorriso, tentando esconder a tormenta interna de seus sentimentos.

— Não, Sir Thomas. Estava apenas apreciando a beleza do jardim.

Ele assentiu, olhando para o lago à frente deles.

— Este é um dos meus lugares favoritos na propriedade. Costumo vir aqui para pensar, quando preciso de um pouco de clareza.

Eleanor se surpreendeu com a revelação. Era raro Sir Thomas falar de si mesmo de maneira tão pessoal. Isso a fez sentir-se um pouco mais próxima dele, como se ele estivesse abrindo uma pequena janela para seu mundo interior.

— É um lugar muito tranquilo — respondeu ela, olhando novamente para a água calma. — Imagino que seja fácil encontrar paz aqui.

Houve um breve silêncio, enquanto ambos olhavam para o lago. O som da natureza ao redor preenchia o espaço entre eles, criando um momento de serenidade compartilhada.

— Lady Wycliffe — começou Sir Thomas, sua voz mais suave do que o habitual —, gostaria de conversar sobre o que aconteceu na corte ontem à noite. Sei que as palavras de Sir William podem ter lhe causado preocupação, e acho importante esclarecer algumas coisas.

Eleanor voltou-se para ele, surpresa com a disposição dele em abordar o assunto diretamente.

— Eu estaria mentindo se dissesse que não fiquei inquieta com o que aconteceu — admitiu ela, com franqueza. — Sir William parecia... insinuar algo. E sua reação também me fez perceber que há mais do que eu entendo.

Sir Thomas suspirou, como se estivesse preparando-se para revelar algo que ele havia mantido guardado.

— Sir William de Montfort é um homem astuto, e há anos mantém um papel importante na corte, muitas vezes manipulando situações em seu favor. Ele e meu avô tinham uma relação tensa, devido a acordos comerciais que nunca foram totalmente esclarecidos. Quando meu avô morreu, Sir William tentou se aproveitar da situação, e desde então, ele tem tentado encontrar maneiras de desestabilizar nossa família.

Eleanor ouvia com atenção, sentindo que finalmente estava começando a entender a extensão das tensões que cercavam sua nova vida.

— E sobre o que ele mencionou... sobre a história da sua família? — perguntou ela, com cautela.

Sir Thomas hesitou por um momento, mas decidiu prosseguir.

— Há coisas sobre minha família que não são de conhecimento público, e que prefiro manter assim. Meu avô era um homem de negócios brilhante, mas também fez inimigos ao longo do caminho. Algumas das decisões que ele tomou ainda afetam nossa família, e Sir William está sempre buscando maneiras de explorar essas vulnerabilidades.

Eleanor percebeu a dureza nas palavras dele e compreendeu que Sir Thomas estava se abrindo de maneira que não era comum para ele.

— Entendo — disse ela, suavemente. — Sei que não é fácil falar sobre essas coisas, e agradeço por confiar em mim. Quero ajudar no que puder, mesmo que seja apenas ouvindo.

Sir Thomas a olhou, e seus olhos pareciam carregar um misto de gratidão e apreensão.

— Agradeço, Eleanor. — disse ele, pela primeira vez usando seu nome de batismo de forma tão íntima. — Sua presença nesta casa tem sido um alívio, de maneiras que talvez você ainda não perceba. Sei que nosso casamento começou como um acordo, mas acredito que podemos construir algo mais do que isso. E quero que saiba que estou disposto a compartilhar mais com você, se assim desejar.

Eleanor sentiu o coração acelerar ao ouvir aquelas palavras. Havia algo de profundamente comovente na oferta de Sir Thomas, e ela sabia que estava sendo convidada a compartilhar mais do que apenas responsabilidades e compromissos. Ele estava oferecendo uma parceria verdadeira, algo que poderia evoluir para uma união baseada não apenas no dever, mas também no respeito mútuo e, talvez, em algo mais.

— Eu gostaria muito disso, Sir Thomas — respondeu ela, com sinceridade. — Estou aqui para o que precisar, e quero que saiba que estou comprometida em fazer este casamento funcionar da melhor maneira possível para ambos.

Sir Thomas assentiu, um leve sorriso tocando seus lábios.

— Isso é tudo o que eu poderia pedir, Eleanor. Acredito que, com o tempo, poderemos superar os desafios que surgirem, e quem sabe, criar algo que seja verdadeiramente nosso.

O momento que compartilharam ali, à beira do lago, foi carregado de uma nova intensidade, um reconhecimento mútuo de que estavam em um caminho diferente agora, um caminho que exigiria confiança e vulnerabilidade de ambos os lados. E, naquele instante, Eleanor sentiu uma faísca de esperança acender-se dentro de si, uma esperança de que talvez, apenas talvez, houvesse mais em seu casamento do que ela imaginara inicialmente.

Enquanto caminhavam de volta para a mansão, lado a lado, o silêncio entre eles era confortável, quase cúmplice. Havia um novo entendimento entre os dois, algo que não precisava ser expresso em palavras, mas que estava ali, crescendo de maneira silenciosa.

Naquela noite, durante o jantar, Eleanor notou que a atmosfera entre ela e Sir Thomas havia mudado. O que antes era uma troca de palavras formais agora era um diálogo mais fluido, mais natural. Eles discutiram assuntos triviais sobre a mansão, os criados, e até mesmo sobre o baile na corte, mas havia uma leveza na conversa que antes não existia. Eleanor sentiu que, finalmente, estavam começando a se conhecer de verdade, e isso a deixava cheia de otimismo em relação ao futuro.

No entanto, à medida que a noite avançava, uma sombra de preocupação voltou a pairar sobre Eleanor. Apesar da abertura de Sir Thomas, ela sabia que ainda havia muito que ele estava guardando, segredos que ele não estava pronto para compartilhar. E havia também a questão de Sir William, cuja presença e insinuações ainda a assombravam.

Depois do jantar, Eleanor se retirou para seus aposentos, mas não conseguiu dormir. As revelações daquele dia, as conversas e os sentimentos despertados estavam todos entrelaçados em sua mente, impedindo-a de encontrar paz. Ela se levantou e foi até a janela, olhando para os jardins abaixo, que estavam iluminados apenas pela luz da lua. O mundo lá fora parecia tão tranquilo, tão distante das intrigas e tensões que ocupavam seu coração.

Foi então que ela ouviu um som suave vindo do corredor. A princípio, pensou que fosse apenas um criado, mas ao se aproximar da porta, percebeu que os passos eram mais pesados, mais deliberados. Com o coração batendo mais rápido, Eleanor abriu a porta com cuidado e espiou para o corredor.

Para sua surpresa, ela viu Sir Thomas caminhando em direção à

ala oeste, a parte da mansão que ela sabia que guardava segredos antigos e sombrios. Ele não parecia notar sua presença, seus passos eram silenciosos, quase furtivos, como se não quisesse ser visto. Eleanor hesitou por um momento, mas sua curiosidade e a preocupação por ele a impulsionaram a segui-lo.

Mantendo-se à distância, ela o seguiu pelos corredores até que ele parou em frente à mesma porta que ela havia encontrado dias antes, o quarto onde encontrara o livro com as anotações antigas. Eleanor ficou parada, escondida na sombra de uma coluna, observando enquanto Sir Thomas abria a porta e entrava no quarto.

O que ele estava fazendo ali? E por que naquele momento?

Eleanor sabia que estava se aventurando em território perigoso, mas não podia ignorar a necessidade de saber o que estava acontecendo. Esperou alguns momentos antes de se aproximar silenciosamente da porta, que Sir Thomas havia deixado entreaberta. Ela espiou para dentro do quarto e viu Sir Thomas parado diante do cofre na parede, o mesmo que ela havia tentado abrir anteriormente.

Ele estava girando a combinação, os olhos fixos na fechadura, como se estivesse concentrado em uma tarefa delicada. Eleanor prendeu a respiração enquanto o observava, tentando entender o que estava acontecendo. Após alguns momentos, Sir Thomas conseguiu abrir o cofre, e ele retirou um pequeno baú de madeira de seu interior.

Eleanor observou enquanto ele colocava o baú sobre a escrivaninha e o abria. Dentro havia uma série de documentos antigos, amarelados pelo tempo. Sir Thomas pegou um deles, um pergaminho selado com cera vermelha, e o desenrolou com cuidado. Eleanor não conseguia ver o que estava escrito, mas pôde notar a expressão de preocupação no rosto de Sir Thomas enquanto ele lia.

O que era aquele documento? E por que ele estava tão perturbado?

Antes que Eleanor pudesse pensar em como agir, Sir Thomas voltou a guardar o documento no baú e o fechou novamente. Ele colocou o baú de volta no cofre, trancando-o com a mesma precisão que usara para abri-lo. Então, ele ficou parado por um momento, olhando para o cofre como se estivesse perdido em pensamentos profundos.

Eleanor sabia que aquele era o momento de se retirar antes que fosse descoberta. Ela recuou silenciosamente pelo corredor, retornando aos seus aposentos com o coração acelerado. Quando finalmente fechou a porta atrás de si, sentiu uma onda de confusão e ansiedade. O que acabara de testemunhar? E o que aquilo significava para ela e para seu casamento?

Enquanto se deitava na cama, Eleanor sabia que as respostas que procurava não seriam fáceis de encontrar. Mas, agora, mais do que nunca, estava determinada a descobrir a verdade. Sabia que havia algo de muito importante em jogo, algo que estava profundamente enraizado na história da família Wycliffe. E, com ou sem a ajuda de Sir Thomas, Ela estava decidida a descobrir o que era.

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Comments

Aina Brito Nunes

Aina Brito Nunes

o que será 😅

2024-10-18

1

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