Algumas Perguntas

O som suave da cafeteira rompendo o silêncio da manhã foi o primeiro sinal de que Liam estava acordado. Eu estava na pequena mesa do quarto, segurando uma caneca de café quente enquanto minhas pálpebras pesavam de sono. A noite passada tinha sido longa e cheia de descobertas, mas minha mente estava longe de qualquer descanso.

Liam se espreguiçou na cama, o cabelo bagunçado e os olhos ainda meio fechados. Ele parecia tranquilo, alheio ao turbilhão de pensamentos que me consumia desde a noite anterior.

— Bom dia • ele disse, a voz rouca de sono, enquanto se levantava. • — Você ficou acordada a noite toda?

Eu apenas assenti, levando a caneca aos lábios e evitando seu olhar.

— O que você estava pesquisando? • Ele perguntou, notando meu notebook fechado sobre a mesa. Antes que eu pudesse responder, ele caminhou até a mesa e abriu o computador, indo direto para o histórico de pesquisa.

— Adam Westbrook e... símbolos religiosos? • ele leu em voz alta, a testa franzindo.

— Eu precisava entender mais sobre o que estamos lidando • murmurei, tentando soar casual.

Liam puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado, olhando para mim com curiosidade.

— Encontrou alguma coisa útil?

Olhei para ele, avaliando se deveria compartilhar tudo o que havia descoberto. Decidi começar com cautela.

— Sobre Adam Westbrook, sim. Ele financiou a reforma da igreja no sétimo distrito nos anos 1970. Mas parece que, depois disso, ele simplesmente... desapareceu. Não há mais registros sobre ele.

Liam balançou a cabeça lentamente, parecendo ponderar.

— E o símbolo? • ele perguntou.

Hesitei por um momento antes de responder.

— É associado a rituais antigos. Algo chamado de "consagração pela dor". As pessoas marcadas com ele eram submetidas a testes brutais para provar sua devoção.

Ele ficou em silêncio por um momento, os olhos fixos na tela do notebook.

— Isso é... sombrio • ele disse finalmente.

— Sombrio é pouco • retruquei, colocando a caneca na mesa. • — E eu ainda não entendo como tudo isso se conecta.

Liam passou a mão pelo cabelo, parecendo perdido em pensamentos.

— Talvez a gente esteja olhando para as peças erradas do quebra-cabeça • sugeriu.

— Ou talvez não estejamos olhando com atenção suficiente para as pessoas certas • rebati, inclinando-me para ele. • — O que você realmente sabe sobre Adam Westbrook, Liam?

Ele piscou, surpreso com a pergunta.

— Nada além do que você me contou • respondeu, mas havia uma tensão em sua voz.

— E sobre você? • continuei, incapaz de conter minha curiosidade. • — Por que você está tão interessado nessa cidade? Por que você sempre parece saber mais do que está disposto a dizer?

Liam inclinou-se para trás, cruzando os braços.

— Ashley, eu já te disse. Estou aqui pelo meu artigo. É isso.

— Certo, mas... e seu passado? • perguntei, tentando não soar acusadora. • — Você nunca fala sobre isso.

Ele suspirou, claramente desconfortável com o rumo da conversa.

— O que você quer saber?

— Tudo • respondi, sem hesitar.

Ele olhou para mim por um longo momento antes de começar a falar, a voz calma, mas carregada de algo que parecia melancolia.

— Eu nasci neste estado, mas não lembro muito da minha infância antes dos sete anos. Quando completei essa idade, minha mãe e eu nos mudamos para o terceiro distrito. Era um lugar tranquilo, mas pequeno demais para ela. Ela nunca se adaptou totalmente.

Ele fez uma pausa, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado.

— Minha mãe era... reservada. Não falava muito sobre o passado, e sempre evitava minhas perguntas sobre quem era meu pai.

— Você nunca soube nada sobre ele? • perguntei, incapaz de esconder minha surpresa.

Liam balançou a cabeça.

— Nada. Ela dizia que ele não era importante, que não valia a pena falar sobre ele.

— E o que aconteceu depois?

— Quando eu tinha dezessete anos, minha mãe faleceu de um câncer. Não sobrou ninguém para me contar mais sobre a minha família.

Senti um nó na garganta ao ouvir isso. Era difícil imaginar Liam, sempre tão cheio de energia e curiosidade, passando por algo tão difícil.

— Depois disso, fui para o quinto distrito. Era o lugar mais acessível para estudar e, sinceramente, eu precisava sair do terceiro. Não tinha nada para mim lá.

Ele parou por um momento, olhando para a janela como se estivesse revivendo aquelas memórias.

— História sempre foi minha paixão. Acho que, de certa forma, era minha maneira de tentar entender o que eu nunca consegui sobre o meu próprio passado.

A honestidade em sua voz me pegou de surpresa, mas ao mesmo tempo, algo sobre sua história parecia... incompleto.

— E você nunca tentou investigar mais sobre o seu pai? • perguntei.

Liam deu de ombros, um sorriso forçado nos lábios.

— Não havia muito o que investigar. Minha mãe queimou todas as pontes que tinha com o passado dela.

— Que conveniente • murmurei, antes que pudesse me conter.

Ele me lançou um olhar afiado, mas logo relaxou.

— Olha, eu entendo que tudo isso é estranho. Mas, para mim, esse lugar é só mais uma cidade com uma história complicada. Eu não acho que haja alguma conexão comigo aqui, Ashley.

Queria acreditar nele, mas a imagem de Adam Westbrook ainda estava gravada na minha mente.

— Tudo bem • respondi finalmente. • — Mas, Liam, se você lembrar de qualquer coisa... por menor que seja, você me conta, certo?

Ele assentiu, mas algo em seu olhar dizia que ainda estava escondendo algo.

O silêncio se instalou entre nós novamente, mas desta vez não era confortável. Eu sabia que ele tinha suas razões para guardar partes de sua história, mas, ao mesmo tempo, sentia que estávamos correndo contra o tempo.

Peguei outra caneca de café e voltei para os documentos, tentando me concentrar. Havia algo no passado de Liam que precisava ser desenterrado, e eu estava determinada a descobrir o que era, mesmo que ele não estivesse pronto para isso ainda.

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