A luz do dia mal penetrava a neblina constante do sétimo distrito enquanto Liam e eu explorávamos as casas ao redor da igreja. Elas estavam ainda mais deterioradas do que as que havíamos vistoriado no dia anterior. Suas estruturas de madeira ameaçavam ceder a qualquer momento, e um cheiro de mofo impregnava o ar.
Apesar de nossas descobertas até agora, a sensação de que ainda não havíamos encontrado o verdadeiro coração do mistério permanecia. As primeiras casas que visitamos continham apenas pertences velhos, móveis corroídos pelo tempo e algumas fotografias, todas seguindo o mesmo padrão perturbador: moradores vestidos de maneira uniforme, sem sorrisos, sem emoção, nem mesmo as crianças.
— É como se ninguém fosse permitido ser feliz aqui • comentei, segurando uma foto desgastada que mostrava um grupo de mulheres em frente a uma casa.
— Ou talvez eles não tivessem motivo para isso • respondeu Liam, enquanto mexia em uma gaveta repleta de papéis embolorados.
Mesmo com a inquietação crescente, continuamos nossa busca. Não encontramos nada realmente significativo até chegarmos a uma das últimas casas antes da igreja.
Era uma construção um pouco maior, mas ainda mais debilitada do que as anteriores. As janelas estavam quebradas, e a porta pendia de suas dobradiças. Assim que entramos, senti um arrepio percorrer minha espinha.
O interior estava cheio de móveis destruídos, pedaços de madeira espalhados pelo chão e uma sensação de abandono que parecia pesar no ar. Ao vasculharmos os cômodos, percebi uma abertura no chão, parcialmente escondida por escombros.
— Liam, acho que tem um porão aqui • chamei, apontando para o buraco.
Ele se aproximou e, juntos, removemos os pedaços de madeira que cobriam a entrada. Uma escada de madeira velha e rangente levava para baixo, para um espaço envolto em sombras.
— Eu vou primeiro • disse, descendo com cuidado, enquanto Liam iluminava o caminho com a lanterna.
Quando cheguei ao fundo, a luz fraca revelou um porão pequeno e apertado, com paredes cobertas de símbolos que eu reconheci instantaneamente: o mesmo que estava tatuado no meu pulso.
Foi então que vi algo que fez meu coração parar.
— Liam... • minha voz saiu em um sussurro.
— O quê? O que foi? • ele perguntou, descendo rapidamente atrás de mim.
Eu estava imóvel, encarando uma figura pequena no canto do porão. Era a mesma garotinha que havíamos visto na estrada no dia anterior. Ela estava parada ali, me observando com aqueles olhos vazios, sem expressão.
— É ela... • sussurrei.
A menina não disse nada, apenas virou-se e correu para o interior do porão, desaparecendo nas sombras.
— Espera! • gritei, seguindo-a instintivamente.
— Ashley, cuidado! • Liam chamou atrás de mim, mas eu já estava indo.
O porão se abria em um cômodo maior, e o que encontramos lá dentro foi ainda mais perturbador do que eu poderia imaginar.
As paredes estavam cobertas de símbolos, desenhados com algo que parecia carvão ou fuligem. No chão, espalhadas por todo lado, havia fotos de crianças, todas com os rostos queimados ou apagados de alguma forma, como a foto que encontramos no diário de Anna.
No centro do cômodo, havia um altar rudimentar, feito de madeira desgastada, coberto com imagens religiosas que pareciam... erradas. As figuras tinham traços que misturavam o humano e o grotesco, com expressões de dor e submissão.
— Meu Deus... • Liam murmurou, enquanto iluminava o altar com sua lanterna.
Eu me ajoelhei para olhar as fotos espalhadas no chão. Cada uma delas era como um soco no estômago.
— Essas crianças... elas eram marcadas • disse, apontando para os pequenos detalhes nos pulsos visíveis em algumas fotos.
Liam olhou para mim, sua expressão séria.
— Como você.
Assenti, engolindo em seco.
— O que fizeram com elas, Liam? Por que apagar os rostos?
— Talvez... talvez elas fossem parte de algo que não era para ser lembrado.
Me levantei, olhando para as paredes ao nosso redor. Os símbolos pareciam quase pulsar sob a luz da lanterna, como se tivessem vida própria.
— Isso não é só um culto, Liam. Isso é um pesadelo • falei, minha voz tremendo.
Ele assentiu, mas antes que pudesse responder, ouvimos um som fraco, quase imperceptível: passos leves vindo de algum lugar acima de nós.
Nos entreolhamos, o silêncio entre nós carregado de tensão.
— Acha que é ela? • Liam perguntou em um sussurro.
— Não sei. Mas acho que não estamos sozinhos aqui.
Com o coração disparado, subimos rapidamente, mas ao vasculhar cada canto da casa, não encontramos a garotinha nem qualquer sinal dela. A sensação de frustração começou a se acumular.
— Será que ela era mesmo real? • perguntei, minha voz vacilando.
Liam virou-se para mim, seus olhos verdes cheios de preocupação.
— O que você quer dizer?
— E se eu estou imaginando tudo isso? E se... e se eu estou perdendo a cabeça?
Minha respiração começou a acelerar enquanto tentava processar tudo. O diário, os símbolos, as fotos, a garotinha. Tudo parecia surreal demais para ser verdade.
— Ei, calma • Liam colocou as mãos em meus ombros, seu toque firme, mas reconfortante. • — Você não está sozinha nisso. Eu vi a garotinha também, lembra? Eu estou aqui, Ashley. Isso tudo é real.
Respirei fundo, tentando me acalmar. As palavras de Liam eram um fio de luz no meio da escuridão que parecia me envolver.
— Você acha mesmo?
Ele sorriu levemente, embora seu rosto ainda carregasse a seriedade da situação.
— Eu sei. E olha, vamos encontrar respostas, tá? Não importa o que esteja acontecendo aqui, a gente vai descobrir juntos.
Assenti, sentindo um pouco da tensão deixar meu corpo.
— Obrigada, Liam. Eu não sei o que faria sem você.
Ele deu um pequeno sorriso.
— Você faria o que sempre faz: seguir em frente. Mas, felizmente, você não precisa fazer isso sozinha.
Olhei para a casa ao nosso redor, para o porão que deixamos para trás. A sensação de que algo maior estava em jogo não diminuía, mas com Liam ao meu lado, parecia um pouco menos assustador.
— Vamos continuar procurando respostas • disse, minha voz mais firme agora.
Liam assentiu, e juntos, deixamos a casa para trás, prontos para enfrentar o que quer que estivesse nos esperando naquele distrito esquecido.
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Atualizado até capítulo 21
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