A primeira coisa que me atingiu quando entramos na cidade foi o cheiro. Era denso, pesado, um cheiro de queimado que impregnava o ar, tornando a respiração um esforço doloroso. A neblina não ajudava — não era uma névoa fria, mas uma fumaça sufocante que flutuava pelo chão, carregando consigo pequenas partículas de cinzas que dançavam na brisa abafada.
Liam e eu andávamos devagar pelas ruas, trocando olhares tensos e atentos. As casas de madeira, todas velhas e frágeis, pareciam estar ali há muito tempo, desmoronando lentamente sob o peso do abandono. A pintura descascada, as janelas quebradas e os telhados parcialmente caídos davam a sensação de que o lugar estava congelado no tempo, preso no instante de sua própria ruína. As ruas estavam esburacadas, invadidas pela vegetação, e raízes emergiam do chão como veias negras, se espalhando pelo asfalto e criando obstáculos a cada passo.
— Como é possível que isso tenha ficado assim sem que ninguém interferisse? • — murmurei, tentando evitar inspirar o ar contaminado.
— Talvez seja exatamente essa a intenção — respondeu Liam, também forçando-se a respirar o mínimo possível. • — Parece que ninguém quer que as pessoas venham até aqui.
Andamos por mais alguns metros, mas a sensação de desolação só aumentava. Cada casa parecia guardar um mistério, uma história inacabada. As portas, algumas escancaradas e outras bloqueadas por escombros, pareciam nos convidar e nos repelir ao mesmo tempo. O silêncio era total; nenhum som de pássaros, insetos ou mesmo o farfalhar das folhas quebrava a quietude. Era como se o próprio ambiente tivesse absorvido o último vestígio de vida e o transformado em uma lembrança morta.
Enquanto caminhávamos, notamos que a fumaça ficava mais densa em um ponto específico da cidade, como se houvesse algo emanando um calor constante. E então, entre as sombras que a fumaça projetava, avistamos a igreja.
Ou o que restava dela.
A estrutura estava em pé, mas com graves sinais de deterioração. As paredes estavam enegrecidas, as portas, caídas e meio queimadas, davam a impressão de que alguém as havia arrancado em um ato de desespero. A cruz no topo estava inclinada, quase caindo, e o chão ao redor parecia desintegrar-se sob o peso do que acontecera ali.
— Vamos ver mais de perto? • sugeriu Liam, em tom cauteloso.
Acenei, embora um nó se formasse em meu estômago. Aproximamo-nos devagar, observando a espessa camada de cinzas que cobria o chão, formando uma espécie de tapete macabro. A cada passo, o cheiro de queimado se tornava mais intenso, penetrando meu nariz e se fixando na minha garganta. Era quase insuportável.
Mas, quando chegamos a uma certa distância, o calor se intensificou a tal ponto que o ar ficou sufocante. Parei, puxando Liam pelo braço.
— Não dá para ir mais perto • sussurrei, com a voz falhando.
Ele concordou, olhando ao redor, como se procurasse uma alternativa. Mas a fumaça, agora densa e densa como uma névoa, envolvia todo o entorno da igreja, impossibilitando qualquer tentativa de nos aproximarmos. Era como se o local estivesse protegido por uma barreira invisível, impedindo-nos de desvendar o que quer que estivesse escondido ali.
— Vamos procurar abrigo • sugeriu ele, observando uma estrutura precária ao lado da rua principal.
Era um prédio que um dia fora a prefeitura, embora agora não passasse de um esqueleto semiabandonado. As portas de entrada estavam penduradas em dobradiças quebradas, e os vidros das janelas estavam estilhaçados. O telhado ameaçava ceder a qualquer momento, e as paredes pareciam marcadas pelo tempo, como se tivessem absorvido a tristeza do lugar.
Entramos cautelosamente, tentando não fazer barulho, e nos encontramos em um salão vazio e coberto de pó. Havia algumas mesas de madeira antigas, e estantes caindo aos pedaços nas laterais da sala. Arquivos antigos estavam empilhados nas prateleiras, cobertos por uma camada espessa de poeira. Sentíamos que qualquer movimento brusco poderia fazer com que tudo desmoronasse.
Liam começou a vasculhar uma das estantes enquanto eu procurava por algum documento mais recente. Havia papéis amarelados e desgastados, com datas antigas que remontavam ao último século. Muitos estavam irreconhecíveis, fragmentados e ilegíveis.
Finalmente, encontramos uma sala nos fundos, onde a umidade tinha destruído parcialmente os documentos. Com cuidado, Liam pegou um livro grande e empoeirado, com capa de couro, que parecia registrar a história da cidade.
Ele o abriu, e juntos começamos a ler.
— Aqui... fala sobre a construção da estrada principal • murmurou ele, percorrendo as linhas com os dedos. • — Diz que a cidade era um ponto importante, com viajantes e mercadores. Mas... o que aconteceu?
Continuei folheando o livro, até que encontramos uma página com uma inscrição trêmula, uma anotação escrita a mão, provavelmente por alguém que trabalhou na prefeitura.
..."O incêndio levou tudo. Não há mais motivos para permanecer aqui. A estrada está selada. Que aqueles que restaram encontrem paz... longe daqui."...
— Isso é... como se fosse uma mensagem de despedida • disse, sentindo um arrepio percorrer minha espinha. • - Eles sabiam que a cidade estava condenada.
Liam fechou o livro com cuidado, o semblante sério. O peso daquele lugar parecia cada vez mais presente, como se a história triste de seus habitantes ainda estivesse ali, impregnada nas paredes.
— Talvez seja isso • sugeriu ele, quebrando o silêncio pesado. • — Esse lugar... talvez seja uma espécie de prisão, e as cinzas são o que restou da dor deles.
Olhei para ele, sentindo uma pontada de tristeza ao perceber que, de certa forma, eu também estava presa na minha própria busca por respostas, carregando o peso do que eu não sabia.
— E agora? • perguntei, em um sussurro.
Liam suspirou, seus olhos fixos nos documentos à nossa frente.
— Acho que continuamos.
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Atualizado até capítulo 21
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