Rostos do Passado

Dentro do silêncio sufocante da antiga prefeitura, o som de nossas respirações ecoava. A poeira suspensa no ar parecia se movimentar com cada passo, enquanto os móveis antigos rangiam sob o peso do tempo. Apesar do cansaço e da atmosfera opressiva, Liam e eu seguimos vasculhando os arquivos restantes. Algo nos impulsionava, uma sensação incômoda de que estávamos perto de descobrir algo importante, mesmo sem saber o quê.

Havíamos empilhado algumas caixas sobre a mesa menos instável do local. Dentro delas, papéis rasgados, livros mofados e objetos esquecidos formavam uma paisagem caótica. Em uma dessas caixas, Liam encontrou um álbum de fotografias, um objeto que parecia mais pessoal do que oficial.

— Veja isso • ele chamou, segurando o álbum com cuidado, como se pudesse desmoronar a qualquer momento.

Aproximei-me, observando enquanto ele o abria. A primeira foto era de um grupo grande de pessoas, provavelmente os antigos moradores da cidade. O papel estava desgastado, com bordas amareladas e algumas manchas de mofo. O que mais me chamou a atenção, no entanto, foi a expressão deles. Ninguém sorria.

— Isso é estranho • comentei, inclinando-me para ver melhor. • — Nem mesmo as crianças estão sorrindo.

Liam assentiu, os olhos atentos às imagens. Ele virou a página, revelando mais fotos. Em todas, as pessoas tinham o mesmo semblante apático, os olhos fixos na câmera, como se fossem incapazes de expressar qualquer emoção. Havia fotos de famílias, de eventos comunitários e até de casamentos, mas em nenhuma delas havia qualquer vestígio de felicidade.

— Parece que... não havia alegria aqui • murmurou ele, passando os dedos pelo papel desbotado.

Enquanto ele virava mais páginas, uma foto em particular chamou minha atenção. Era a imagem de uma igreja, bem diferente da que havíamos visto na cidade. A estrutura estava nova, com paredes brancas e uma torre intacta. Um grupo de pessoas estava reunido em frente a ela, mas novamente, sem sorrisos.

— Essa é a igreja antes do incêndio? • perguntei, apontando para a foto.

— Acho que sim • respondeu Liam. • — Parece muito diferente. Aqui ainda está inteira.

Examinamos a imagem mais de perto. As roupas das pessoas eram simples, mas algo parecia padronizado, quase como um uniforme. As mulheres usavam vestidos longos e de cores neutras, enquanto os homens estavam todos de camisa branca e calças escuras. Até as crianças vestiam roupas semelhantes, sem nenhuma variação.

— Isso é estranho. A partir de quando as pessoas começaram a se vestir assim? • questionei, folheando o álbum em busca de pistas.

Continuamos explorando as fotos, e foi então que encontramos um padrão. Antes de uma certa data, os habitantes da cidade vestiam roupas comuns, com cores variadas e estilos mais livres. Porém, em algum momento, provavelmente após a reforma da igreja, tudo mudou. Todos começaram a se vestir de forma uniforme, como se seguissem um código imposto por alguém.

— É como se... algo tivesse acontecido na cidade para que todos seguissem essas regras • Liam sugeriu, a voz baixa. • — Será que foi a reforma da igreja?

Balancei a cabeça, concordando em silêncio. Era impossível não ligar a padronização à influência religiosa. Talvez a igreja tivesse assumido um papel maior na comunidade, ditando regras e restringindo a individualidade. A sensação de desconforto crescia a cada página que virávamos.

E então, encontramos algo ainda mais perturbador.

Uma foto em particular chamou nossa atenção. Estava bastante danificada, com as bordas rasgadas e partes da imagem desbotadas. Mostrava um grupo de pessoas, provavelmente em frente à igreja. Elas estavam alinhadas, com os braços cruzados na frente do corpo. Mas o que realmente nos deixou perplexos foi um detalhe sutil: alguns dos indivíduos tinham pequenos pontos escuros no pulso.

— Espere... • murmurei, inclinando-me mais perto. • — Isso parece uma tatuagem.

Liam pegou a foto, examinando-a com cuidado. Embora estivesse desgastada, era possível distinguir os pontos no pulso de pelo menos três pessoas. Eles pareciam idênticos ao símbolo que carregava em meu próprio braço.

— É a mesma coisa • ele confirmou, olhando para mim com seriedade. • — O mesmo símbolo.

Um calafrio percorreu minha espinha. Até aquele momento, a tatuagem havia sido uma incógnita, algo que eu associava apenas ao acidente e ao culto mencionado em nossas pesquisas. Mas agora, parecia estar diretamente conectada a esse lugar.

— Será que todos na cidade tinham essa marca? • perguntei, a voz quase um sussurro.

— Não sei • respondeu ele, colocando a foto de lado para examinar outras. • — Mas definitivamente não é coincidência. Eles tinham algum tipo de ritual ou prática que envolvia isso.

Voltamos ao álbum, procurando mais pistas, mas a maioria das fotos estava muito danificada para fornecer mais informações. Ainda assim, o que havíamos encontrado era suficiente para confirmar que a tatuagem não era apenas um símbolo qualquer. Ela fazia parte da história daquela cidade, e talvez tivesse um significado ainda mais profundo.

— Acho que precisamos olhar mais documentos. Isso não pode ser tudo • disse Liam, fechando o álbum e olhando para as pilhas de papéis espalhadas pela sala.

Eu concordei, embora uma sensação de inquietação tomasse conta de mim. Cada descoberta parecia nos levar mais fundo em um mistério que ficava mais sombrio a cada passo. O que quer que estivesse conectado àquela tatuagem, à igreja e ao abandono da cidade, não era algo simples ou fácil de desvendar.

Enquanto Liam procurava em outra pilha de documentos, sentei-me por um momento, passando os dedos pela minha tatuagem. Ela parecia mais pesada agora, como se carregasse o peso das histórias que descobríamos.

— Seja o que for, estamos chegando perto • disse Liam, interrompendo meus pensamentos. • — E tenho a sensação de que isso não vai ser fácil de digerir.

Olhei para ele, assentindo lentamente. Ele estava certo. Quanto mais avançávamos, mais sombria a verdade parecia se tornar. E, de alguma forma, eu sabia que o pior ainda estava por vir.

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