Liam e eu estávamos de volta ao carro, com o diário em mãos. O silêncio entre nós era quase tão pesado quanto o ar da cidade que havíamos acabado de deixar para trás. O pequeno livro parecia vibrar com um peso próprio, como se estivesse impregnado pelas memórias terríveis de quem o escreveu.
De volta ao sexto distrito, estacionamos o carro próximo ao hotel em que decidimos passar a noite. Assim que nos acomodamos no quarto simples, abri o diário novamente e comecei a folheá-lo, enquanto Liam se aproximava com seu laptop, preparado para anotar tudo o que pudéssemos desvendar.
— Vamos tentar entender isso de uma vez por todas • ele disse, sentando-se ao meu lado na cama.
Eu balancei a cabeça e voltei minha atenção ao diário. As primeiras páginas que já havíamos lido estavam marcadas por palavras desconexas e rabiscos frenéticos. No entanto, conforme avançávamos, as informações começaram a se tornar mais perturbadoras.
"A igreja diz que é para nos proteger, mas eles não protegem ninguém. Só tomam. Sempre tomam."
Li a frase em voz alta, sentindo um arrepio subir pela espinha.
— "Eles tomam"? Tomam o quê? • Liam perguntou, franzindo o cenho.
— Pode ser uma referência aos sacrifícios que ela menciona em outros trechos — sugeri, passando os dedos pelas bordas das páginas amareladas.
Conforme continuávamos a leitura, o diário pintava um quadro sombrio do sétimo distrito. Havia menções vagas a um "líder", alguém que parecia comandar a igreja com uma autoridade absoluta e que havia introduzido o uso das marcas.
"As marcas são permanentes. Ele diz que elas nos conectam, mas tudo o que sinto é uma prisão. Alguns dos marcados nunca mais foram vistos."
Essas palavras me fizeram tocar instintivamente o pulso, onde o símbolo em minha pele parecia pulsar, mesmo que fosse apenas minha imaginação. Liam notou meu gesto e estreitou os olhos.
— Você acha que as pessoas desaparecidas eram como você? • ele perguntou.
— Não sei... mas é difícil ignorar as semelhanças. • Minha voz era um sussurro.
Então, chegamos às últimas páginas. Lá, uma nova voz surgiu, diferente do tom frenético das entradas anteriores. Era mais calma, mas carregava um peso de desespero e medo. Uma pequena foto estava presa na mesma página, amarelada e quase apagada. Mostrava uma mulher segurando uma criança no colo, mas o rosto da criança havia sido queimado, como se alguém tivesse apagado deliberadamente.
Liam tirou a foto com cuidado, observando-a por um momento antes de me mostrar.
Meus olhos voltaram ao texto logo abaixo da foto. Li as palavras em voz alta:
"Não posso mais fingir que estamos seguros aqui. Eles vieram à noite, dizendo que era para o bem de todos. Mas eu sei o que isso significa. Vi o que aconteceu com os outros. Não vou deixar que minha filha se torne uma deles. Vou fugir. Se alguém encontrar isso, saiba que não foi por falta de aviso."
Abaixo dessa mensagem, estava o nome "Anna", escrito com uma caligrafia cuidadosa e quase reverente.
— Anna... esse é o nome dela • murmurei, sentindo um aperto no peito.
— E parece que ela sabia muito bem o que estava acontecendo • Liam completou. Ele segurava a foto com cuidado, analisando cada detalhe. • — Mas o que fizeram com a filha dela? Por que apagar o rosto da criança?
— Não sei. Talvez fosse para esconder a identidade dela ou como uma espécie de ritual... • falei, desviando os olhos da foto.
A leitura do diário nos deixou exaustos, mas não havia muito mais que pudéssemos fazer naquela noite. Decidimos levar o diário e a foto conosco e retornar ao sétimo distrito no dia seguinte para continuar a busca.
Enquanto nos preparávamos para dormir, Liam quebrou o silêncio:
— Você já pensou que talvez isso seja maior do que imaginamos? Que a história do sétimo distrito pode ser apenas a ponta do iceberg?
— Sim • respondi, encarando o teto. • — Mas, no momento, só quero entender o que tudo isso tem a ver comigo.
Ele assentiu em silêncio, e minutos depois, o quarto mergulhou na escuridão.
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O sol mal havia nascido quando acordamos. O ar do sexto distrito estava frio, e o céu cinzento parecia refletir a tensão que carregávamos.
— Pronta para voltar? • Liam perguntou, enquanto colocava o diário em sua mochila.
— Não sei se "pronta" é a palavra certa, mas não temos escolha.
Carregamos nossas coisas de volta para o carro e logo estávamos na estrada novamente. O caminho para o sétimo distrito parecia ainda mais desolado sob a luz do dia. Cada árvore retorcida e cada buraco na estrada pareciam sussurrar segredos que não queriam ser revelados.
Quando finalmente cruzamos o portão de arames que marcava a entrada da cidade, uma sensação de peso se instalou em meu peito. A cidade parecia ainda mais sombria à luz do dia, como se a claridade destacasse seu abandono e decadência.
— Vamos começar pelas casas próximas à igreja? • Liam sugeriu.
Assenti, embora o pensamento de me aproximar da igreja novamente me deixasse inquieta. Não podíamos ignorar que algo ali parecia querer nos manter afastados.
Enquanto estacionávamos o carro perto da praça central, olhei para Liam e encontrei a mesma determinação refletida em seu rosto. Por mais aterrorizante que fosse, sabíamos que precisávamos continuar.
O sétimo distrito ainda guardava segredos, e estávamos decididos a desvendá-los — custasse o que custasse.
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Atualizado até capítulo 21
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