Cinco dias haviam se passado desde a minha primeira consulta com a Dra. Helena, e a cada dia, eu me esforçava para seguir sua orientação de viver no presente. Tentar descobrir algo que me conectasse ao agora. Não tinha sido fácil. Ainda me sentia à deriva, sem saber quem eu era antes do acidente, mas percebi que me perder em suposições e fantasias só me afastava mais do que eu precisava fazer: viver o presente.
Foi então que comecei a explorar a cidade com mais atenção. A pequena cidade, rodeada pelas montanhas e sempre envolta por uma neblina gélida, me intrigava de uma maneira que eu não conseguia explicar. Apesar de seu tamanho, ela tinha uma história pulsante em suas ruas de pedras antigas e nos prédios de madeira escura. Era a quinta de sete cidades, todos pequenos distritos conectados por uma estrada longa e sinuosa que cortava as montanhas.
O acidente que mudou minha vida ocorreu no início dessa estrada, perto da sexta cidade, um lugar ainda mais isolado e quase esquecido. E, apesar de todos os meus esforços para não pensar nisso, havia algo que me atraía para aquela estrada. Uma curiosidade perigosa e persistente.
Em uma das minhas caminhadas, encontrei a biblioteca local. Era um edifício antigo, com janelas altas que pareciam já ter visto décadas de invernos rigorosos. O ar dentro era espesso com o cheiro de papel envelhecido e madeira úmida. Logo ao entrar, senti uma estranha sensação de familiaridade, como se estivesse no lugar certo, mesmo sem saber por quê.
Passei os dedos pelas lombadas dos livros, sem muita intenção no começo, mas algo começou a me puxar para eles. Comecei a pegar volumes aleatórios das estantes, folheando suas páginas e me perdendo em histórias que não eram as minhas. Histórias de outras pessoas, de outras épocas. Havia algo reconfortante em ler sobre vidas que já haviam sido vividas, como se, de alguma forma, eu pudesse encontrar um espelho nelas.
Foi então que descobri meu gosto pela leitura. Talvez eu sempre tivesse esse hábito e ele fosse parte de quem eu era antes do acidente, ou talvez fosse algo novo. Não sabia, e talvez isso não importasse. Sentar-me em uma das cadeiras de madeira velha e mergulhar em páginas cheias de histórias tornou-se uma fuga bem-vinda da incerteza que minha vida tinha se tornado.
Comecei a me interessar por livros históricos, particularmente sobre a região em que agora morava. Queria entender mais sobre a cidade, sobre os distritos que a cercavam, e, quem sabe, encontrar alguma pista sobre mim mesma. Em um desses livros, encontrei informações sobre as sete cidades conectadas pela antiga estrada. A cidade onde eu vivia, a quinta, era relativamente conhecida, mas a sexta — onde meu acidente ocorreu — era descrita como menor e mais isolada, quase uma extensão da estrada, sem grandes atrativos ou importância histórica.
A sétima cidade, no entanto, foi o que mais me intrigou. Não havia quase nenhuma menção a ela nos livros que encontrei, apenas uma nota vaga mencionando que o último registro oficial daquele lugar era de 1974. Desde então, era como se a cidade simplesmente tivesse desaparecido. Não constava em mapas, e não havia relatos recentes sobre ela. Era como se, de algum modo, a cidade tivesse deixado de existir.
Olhando para as páginas, senti um arrepio. Como uma cidade inteira poderia desaparecer sem deixar rastro? E por que ninguém parecia falar sobre isso? A ausência de informações apenas aumentava a minha curiosidade, mas eu sabia que não deveria me perder nesse mistério. Não ainda.
Apesar de minha crescente fascinação, havia uma frustração que se mantinha constante: eu não podia levar os livros para casa. Sem documentos, eu era apenas uma visitante sem identidade, e a política da biblioteca era clara. A bibliotecária, uma mulher de olhar severo, nunca deixava de me lembrar disso quando eu tentava assinar algum empréstimo. Assim, todo o conhecimento que eu queria levar comigo ficava preso ali, nas prateleiras da biblioteca. Era um detalhe simples, mas que me impedia de aprofundar minhas leituras como eu gostaria. Isso, no entanto, não me impediu de continuar voltando.
Naquele dia, após horas de leitura, fechei o livro sobre as cidades com um suspiro. Olhei para a janela, observando como a neblina parecia aumentar conforme o sol começava a se pôr atrás das montanhas. A biblioteca, agora quase vazia, estava mergulhada em um silêncio reconfortante, quebrado apenas pelo som ocasional de uma página sendo virada ou o chiado dos pés arrastando no assoalho.
Levantei-me para devolver o livro à estante, passando novamente pelas prateleiras que se estendiam ao longo do corredor, e senti uma leve melancolia. Havia algo naquelas histórias antigas, nos mistérios daquela região, que me puxava mais do que qualquer outra coisa. Mas, ao mesmo tempo, havia uma sensação de que eu não estava pronta para mergulhar completamente nesses segredos. Algo dentro de mim hesitava, como se soubesse que, uma vez que eu seguisse esse caminho, não haveria volta.
Ao sair da biblioteca, o ar frio da noite me atingiu com força. O vento vinha das montanhas, cortante e gelado, fazendo as árvores próximas balançarem de forma quase fantasmagórica. Apertei o casaco contra o corpo e olhei mais uma vez para o caminho que levava para fora da cidade. Aquela estrada longa e misteriosa, conectando os distritos, parecia chamar meu nome, mesmo que eu não soubesse qual era, silenciosamente, como uma promessa de respostas que eu ainda não estava pronta para buscar.
Voltei para casa naquela noite com mais perguntas do que respostas. Enquanto me preparava para dormir, senti novamente a presença da tatuagem em meu pulso, um lembrete constante de que meu passado ainda estava fora do meu alcance. A cada dia, parecia que eu descobria mais sobre o mundo ao meu redor, mas menos sobre mim mesma.
Mesmo assim, algo em mim sabia que, eventualmente, eu teria que voltar àquela estrada. E talvez, naquela estrada, eu encontraria não apenas a verdade sobre o acidente, mas também sobre quem eu realmente era.
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Atualizado até capítulo 21
Comments
Maria Socorro Netos
o que será que aconteceu
2024-12-09
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