Imersões

A água quente escorria sobre mim, enquanto o vapor lentamente preenchia o pequeno banheiro do apartamento. Era reconfortante, mas temporário. Fechei os olhos, tentando me desligar dos pensamentos constantes que dominavam minha mente desde o acidente, mas, inevitavelmente, eles voltavam para o mesmo ponto.

Olhei para o meu pulso, a água escorrendo sobre a tatuagem. Aquele pequeno símbolo. Simples, mas perturbador. Eu o observava há dias, tentando fazer algum tipo de conexão, esperando que, em algum momento, a lembrança do porquê ele estava ali simplesmente surgisse. Mas nada acontecia. Era como tentar encaixar uma peça de quebra-cabeça em um lugar onde ela claramente não pertencia. Eu não sabia o que aquilo significava. Não sabia se tinha algum propósito ou se era apenas um vestígio aleatório do meu passado.

Suspirei e esfreguei os dedos sobre o símbolo, mas mesmo aquele toque não provocava qualquer memória. Eu não sentia uma conexão real com aquilo, como se não pertencesse a mim. Era parte do meu corpo, mas, ao mesmo tempo, era uma marca de algo que não reconhecia. Algo alheio. Algo esquecido.

Desliguei o chuveiro e me enrolei na toalha, saindo para o quarto ainda envolto pelo vapor. Apesar de todas as incertezas, eu estava grata por ter conseguido algum apoio para tentar reorganizar minha vida. Eu não sabia meu nome, de onde vinha, ou o que tinha acontecido comigo, mas o governo me ofereceu ajuda para conseguir uma identificação temporária. Eles entenderam a gravidade do meu caso, mas, como a memória ainda não tinha voltado e não havia informações sobre parentes ou conhecidos, eu estava em uma espécie de limbo.

Mesmo assim, deram-me condições para começar de novo, até que algo mais concreto surgisse. Eu tinha conseguido um pequeno apartamento, um espaço simples e básico, mas confortável o suficiente para eu tentar me estabilizar. Além disso, arrumaram acompanhamento psicológico semanal. Hoje seria minha primeira sessão.

Por mais que eu fosse grata pela ajuda, algo em mim resistia a esse acompanhamento. Parte de mim tinha medo do que seria revelado durante essas conversas. Medo de que, em algum momento, a verdade sobre quem eu era emergisse de uma forma que eu não estava preparada para lidar. No entanto, fugir disso não resolveria nada. Minha mente estava vazia, e eu não podia continuar vivendo como se essa ausência fosse normal.

Me vesti com simplicidade, pegando uma calça jeans e uma blusa leve. No espelho, minha expressão parecia cansada, apesar de eu ter dormido a noite inteira. Os pesadelos ainda rondavam minhas noites, mas não o suficiente para me acordar. Eu sabia que eles estavam lá, sussurrando sob a superfície.

Olhei para o relógio. Faltava uma hora para minha sessão. Sentei-me na beirada da cama, de frente para a janela, onde o sol tímido de início de tarde iluminava o quarto. Havia uma calma exterior que não combinava com a tormenta interior que eu sentia todos os dias. O relógio parecia se mover lentamente, arrastando-me para o inevitável.

Peguei meu caderno de anotações na mesa ao lado e o abri na primeira página. Estava em branco, como a minha mente. A ideia era registrar qualquer coisa que viesse à tona, uma estratégia sugerida pela enfermeira que me acompanhou durante minha recuperação no hospital. Mas até agora, as páginas permaneciam intactas.

Ao menos eu teria algo para contar na sessão?

Deitei o caderno de volta na mesa e me levantei. Decidi sair um pouco antes e andar até o consultório, mesmo que fosse um caminho curto. Talvez o ar fresco me ajudasse a acalmar os nervos.

---

O consultório da Dra. Helena era simples, mas acolhedor. Havia uma poltrona confortável em um canto, algumas plantas espalhadas e uma estante cheia de livros. Assim que entrei, senti uma mistura de ansiedade e alívio. Um espaço neutro, onde eu poderia tentar entender o que estava acontecendo comigo, mas ao mesmo tempo, um lugar onde eu teria que me abrir sobre coisas que eu nem sabia se queria confrontar.

Dra. Helena era uma mulher loira de meia-idade, de sorriso gentil e olhos atentos. Ela me recebeu com um aceno e me convidou a sentar na poltrona enquanto ela ocupava a cadeira em frente.

— Como você está se sentindo? — foi a primeira pergunta dela, um tom suave, mas firme. Havia uma pasta no seu colo, com o símbolo do governo na capa. Possivelmente, um relatório com o pouco histórico que eu tinha.

Respirei fundo. O que eu deveria dizer? Que estava perdida? Que não conseguia sequer me identificar no espelho? Que, todas as noites, antes de dormir, a única coisa que me conectava a algum tipo de vida passada era uma tatuagem que eu nem lembrava de ter feito?

— Um pouco confusa, para ser sincera — respondi, optando por uma versão simplificada da verdade.

Ela acenou com a cabeça, como se esperasse essa resposta.

— Isso é completamente normal, considerando o que você passou. O que importa agora é que estamos aqui para entender o que está causando essa confusão e, aos poucos, começar a reconstruir as partes que estão faltando.

Parte de mim queria acreditar nisso, mas outra parte temia que não houvesse nada para reconstruir. E se essa confusão fosse tudo o que restava?

Dra. Helena me observou por um momento, antes de falar novamente.

— Sei que essa é uma pergunta difícil, mas gostaria que me falasse um pouco sobre o que sente quando olha para essa tatuagem.

A pergunta me pegou de surpresa. Eu não esperava que ela abordasse a tatuagem tão diretamente, tão cedo. Automaticamente, minha mão foi para o pulso, como se eu precisasse tocá-la para responder.

— Não sei — comecei, hesitante. — É como... se ela estivesse aqui, mas não fizesse parte de mim. Não consigo entender por que a tenho, ou o que significa. E isso me incomoda.

Ela continuou me olhando atentamente, incentivando-me a continuar.

— Acho que... é a única coisa que tenho do meu passado. Mas, ao mesmo tempo, é a coisa que mais me confunde.

Dra. Helena fez uma anotação rápida em seu caderno e depois voltou sua atenção para mim.

— Vamos explorar isso aos poucos. Você não precisa ter todas as respostas agora. Por enquanto, o mais importante é reconhecer o que você está sentindo. A partir daí, começamos a construir um caminho.

Eu acenei, mas as palavras dela me atingiram de forma diferente do que eu esperava. Talvez eu estivesse querendo todas as respostas de uma vez. Talvez fosse essa a origem da minha frustração. Mas, de alguma forma, aquele espaço, aquela conversa, fez com que eu me sentisse um pouco menos perdida.

Eu sabia que ela ia me fazer perguntas, e que, inevitavelmente, eu teria que falar mais sobre o que estava acontecendo dentro de mim. Mas ainda era estranho estar ali, diante de uma pessoa que sabia mais sobre a minha mente, meu corpo e meu comportamento do que eu mesma.

Ela ergueu os olhos do caderno, mantendo seu tom calmo e amigável.

— A tatuagem é uma representação física do seu passado — disse ela, como se isso fosse óbvio, mas não para mim. — Porém, nosso foco não é apenas o símbolo em si, mas o que ele provoca em você emocionalmente. Quando você a vê, o que sente de verdade? Existe alguma sensação específica que surge além da confusão?

Essa pergunta me pegou de surpresa. Não era algo em que eu tinha pensado. Eu olhava para a tatuagem várias vezes ao dia, mas raramente me permitia sentir qualquer coisa sobre ela, além da frustração de não saber seu significado.

Olhei para o meu pulso novamente, tentando encontrar uma resposta.

— Acho que… fico inquieta — comecei, lentamente. — É como se ela estivesse ligada a algo importante, a algo que não quero lembrar. Ao mesmo tempo, ela é tudo que eu tenho, então eu me prendo a ela, como se fosse minha única âncora.

Dra. Helena acenou, parecendo satisfeita com minha resposta.

— Inquietação é uma palavra forte — disse ela, tomando nota novamente. — Vamos explorar essa sensação. Inquietação geralmente vem de um lugar de conflito interno. Algo dentro de você está resistindo a encarar esse símbolo, mas, ao mesmo tempo, você sabe que ele guarda uma verdade. Talvez, uma parte de você ainda não esteja pronta para confrontar essa verdade.

Eu refleti sobre isso. Talvez fosse verdade. Talvez, de alguma forma, eu estivesse evitando lidar com o que a tatuagem representava, porque, no fundo, eu temia o que ela poderia me revelar. Não era só a curiosidade de não saber quem eu era. Havia algo mais profundo, uma angústia que eu não conseguia colocar em palavras.

Ela deixou o silêncio preencher o ambiente por alguns instantes antes de continuar.

— Vamos voltar um pouco — sugeriu, cruzando as mãos sobre o colo. — Você disse que essa tatuagem é sua única âncora. Como você lida com essa ideia de ter apenas uma âncora, e ela ser tão nebulosa?

Eu respirei fundo, hesitando por um momento. Não queria soar desesperada, mas havia uma verdade crua naquilo.

— Me sinto perdida, para ser sincera — admiti, sentindo a garganta apertar ao falar isso em voz alta. — Às vezes, sinto como se fosse flutuar para longe. Como se, sem a tatuagem, eu realmente não existisse. É assustador, porque ela é a única prova física de que eu tinha uma vida antes disso. Mas também é… insuficiente. É como se não fosse o bastante para me segurar.

Dra. Helena ouviu atentamente, o olhar dela nunca deixando o meu. Eu tinha a sensação de que ela sabia exatamente o que dizer, mas estava me dando espaço para encontrar as palavras.

— Esse sentimento de perda de identidade — ela começou, escolhendo as palavras com cuidado — é uma reação completamente normal em casos como o seu. O que você descreveu — a sensação de que sua identidade está suspensa, flutuando, sem um ponto de ancoragem sólido — é o que chamamos de dissociação. Em vez de se agarrar a uma ideia ou memória concreta, sua mente está tentando encontrar algo em que se apoiar, mas como não há uma memória clara, você se sente vulnerável.

Ela fez outra pausa, permitindo que suas palavras se assentassem em minha mente.

— O que precisamos entender — continuou — é que, por mais que a tatuagem pareça importante, ela não é a única coisa que define quem você é. Você ainda está aqui, mesmo que não tenha todas as respostas agora. O seu passado é parte de você, mas não é a única coisa que importa. Seu presente e as decisões que você faz daqui para frente também contam.

Essas palavras me fizeram parar. De certa forma, eu sabia que ela estava certa. Estava tão obcecada com o que eu não lembrava que não estava vivendo o presente. Eu tinha me colocado em uma espécie de suspensão, esperando que minha memória voltasse para preencher as lacunas, sem me permitir seguir em frente até lá.

— Isso faz sentido — eu disse, com um pequeno aceno. — Mas ainda sinto como se estivesse à deriva.

Dra. Helena sorriu levemente, como se soubesse que essa luta interior levaria tempo.

— Isso é esperado, e vai levar tempo para mudar. O que precisamos fazer agora é focar no que você pode controlar. Pequenos passos. Não vamos forçar a memória, mas vamos explorar como você pode começar a construir uma nova vida, mesmo que a antiga ainda seja um mistério. É aqui que o processo de reconstrução começa.

Ela fez outra anotação, e senti o peso das suas palavras me envolver. Pequenos passos. Eu queria respostas grandes e imediatas, mas sabia que não seria assim. Estava claro que essa jornada seria longa, e talvez cheia de armadilhas que eu nem sabia que existiam.

Dra. Helena colocou a caneta sobre a mesa e se inclinou ligeiramente para frente.

— Vou sugerir que, nos próximos dias, você tente fazer coisas simples que lhe tragam algum tipo de ancoragem emocional. Pode ser algo que você goste de fazer, mesmo que não tenha certeza se fazia parte da sua vida antes. Algo que faça você se sentir conectada ao presente. E, ao mesmo tempo, vamos continuar explorando o que a tatuagem representa para você, mas sem pressa. Você precisa de tempo para se reconectar com seu eu atual.

Eu acenei, absorvendo o que ela disse. A sessão estava chegando ao fim, mas já me sentia um pouco mais centrada do que quando entrei.

— Eu vou tentar — respondi, ainda um pouco incerta, mas mais disposta a fazer o que ela sugeriu.

Dra. Helena sorriu, se levantando da cadeira e me acompanhando até a porta.

— Lembre-se, você não está sozinha nisso. Estaremos aqui todas as semanas para continuar esse processo.

Saí do consultório com a mente em turbilhão, mas com a sensação de que, talvez, não estivesse tão perdida quanto pensava. Eu ainda tinha muitas perguntas, ainda não sabia quem eu era, mas, pela primeira vez, senti que talvez houvesse um caminho. E, por enquanto, isso seria o suficiente.

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Comments

Maria Socorro Netos

Maria Socorro Netos

a estória é boa espero que ela recupere logo a memória

2024-12-09

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