O Sexto Distrito

A estrada sinuosa finalmente nos levou ao sexto distrito. Depois de algumas horas de viagem, as árvores densas que envolviam a estrada abriram espaço para um conjunto modesto de casas, todas com um aspecto um pouco desgastado pelo tempo e pela natureza que parecia reclamar seu espaço. O mato crescia ao redor das construções, invadindo calçadas e as laterais das ruas. As casas eram pequenas, com fachadas que, em algum momento, deveriam ter sido coloridas, mas que agora exibiam tons desbotados e rachaduras aqui e ali. O vento frio cortava o ar, fazendo a paisagem parecer ainda mais desolada e esquecida.

Liam parou o carro perto de um prédio simples que parecia abrigar o único mercado da cidade. Observei ao redor enquanto saía do carro, sentindo o peso do silêncio que parecia permear cada centímetro do distrito. Não havia muitas pessoas na rua, apenas uma ou duas figuras passando apressadas, olhando para nós com curiosidade e, talvez, uma pitada de desconfiança.

- Bem-vinda ao sexto distrito, Ashley • disse Liam, fechando a porta do carro e observando o lugar ao nosso redor. • – Parece que encontramos o último lugar onde o tempo realmente não passa.

Dei um leve sorriso, tentando disfarçar a inquietação que começava a se instalar em mim. Havia algo nesse lugar que me fazia sentir observada, como se o próprio distrito guardasse memórias profundas, presas nas paredes antigas e no solo que há tanto tempo sustentava aqueles prédios.

Entramos no mercado, esperando talvez encontrar alguma orientação sobre onde poderíamos começar a explorar. Lá dentro, encontramos prateleiras modestas com produtos básicos. No fundo do mercado, um senhor estava organizando caixas, mas se virou rapidamente ao ouvir o som da porta se abrindo. Ele nos olhou de cima a baixo, com uma expressão de desconfiança que ele nem tentou disfarçar.

- Posso ajudar? • perguntou, num tom seco, como se a ideia de nos ajudar fosse um incômodo.

Liam deu um passo à frente, tentando manter a simpatia.

- Olá, bom dia! Somos da cidade vizinha, e estamos fazendo uma pesquisa histórica sobre os distritos. Achamos que seria interessante saber mais sobre o sexto, já que é um dos menores.

O senhor ergueu uma sobrancelha, cruzando os braços. Seu olhar era frio e parecia pesar sobre nós.

- Não temos muita coisa aqui para “pesquisar”, se é isso que estão procurando – respondeu ele, quase com irritação. • – E não estamos muito acostumados com visitas, então não se empolguem muito.

Senti meu rosto corar, o desconforto tomando conta de mim, mas Liam manteve a calma, apenas assentindo respeitosamente.

- Entendemos, senhor. Vamos ser breves.

Ele soltou um resmungo e voltou para seu trabalho, ignorando nossa presença. Troquei um olhar com Liam, que parecia mais divertido do que incomodado. Ao sairmos do mercado, ele me deu um sorriso tranquilizador.

- Nem todo mundo aqui parece ser fã de visitantes, mas quem sabe encontramos alguém mais receptivo, não é?

Assenti, tentando afastar o desconforto. Andamos pela rua principal até encontrarmos um prédio um pouco mais conservado, com uma placa indicando que ali funcionava a sede de organização da cidade. Entramos, e uma senhora simpática nos recebeu, seu sorriso caloroso imediatamente contrastando com a frieza do senhor do mercado.

- Olá, jovens! Posso ajudar vocês em alguma coisa? • perguntou, com uma voz doce e cheia de curiosidade.

Liam se adiantou, explicando que estávamos interessados na história do distrito e que estávamos buscando informações para uma pesquisa local. A senhora assentiu animadamente, parecendo feliz com a nossa presença.

- Oh, claro! Nem sempre temos visitas interessadas na nossa história • disse, conduzindo-nos até uma pequena sala com cadeiras de madeira e algumas fotografias antigas penduradas na parede. • – Meu nome é Dona Emília. Eu sou uma das responsáveis pela manutenção dos arquivos da cidade.

Enquanto ela nos acomodava, notei como a sala tinha um ar de nostalgia, com fotos em preto e branco mostrando imagens antigas do distrito, das construções e de alguns moradores em festas e eventos que agora pareciam pertencer a um passado muito distante. Ela começou a nos contar sobre a fundação do distrito, que havia surgido como um ponto de apoio para os trabalhadores que construíram a estrada.

- Esse distrito sempre foi mais isolado que os outros – contou Dona Emília. – As famílias aqui sempre foram pequenas, e muitos dos antigos moradores acabaram mudando-se ao longo dos anos. Hoje, sobraram poucos de nós, mas continuamos cuidando da nossa história, sabe?

Enquanto ela falava, eu sentia uma espécie de nostalgia inexplicável, como se aquelas histórias, de algum modo, fossem também parte de quem eu era.

Em um momento de pausa, Dona Emília voltou-se para mim, apertando os olhos como se tentasse se lembrar de algo.

- Você parece familiar – disse ela, um pouco hesitante. – Não é de hoje que eu vejo esse rosto por aqui... Você não é a moça do acidente?

Senti meu corpo enrijecer, mas fiz que sim com a cabeça, surpresa que ela se lembrasse de mim.

- Sim... acho que sou eu. Eu não me lembro do acidente, mas me disseram que foi por aqui.

Ela balançou a cabeça, com um olhar compreensivo.

- Lembro-me de ter ouvido sobre isso. Foi um evento um tanto incomum, considerando que não recebemos muitos visitantes e que a estrada pode ser traiçoeira, especialmente à noite.

Liam olhou para mim, interessado, mas manteve-se em silêncio, deixando que eu lidasse com a conversa.

- Eu... ainda estou tentando entender quem eu sou, e parte da razão pela qual estou aqui é para ver se posso descobrir algo sobre o que aconteceu.

Dona Emília assentiu, apertando minha mão gentilmente.

- Querida, ninguém aqui sabe o que de fato aconteceu naquela noite. Mas você é bem-vinda para explorar o distrito, e, se precisar de alguma ajuda, estarei por aqui.

Agradeci, tocada pela gentileza dela. Depois de um tempo, nos despedimos e saímos da sede de organização. A experiência havia sido estranha, mas reconfortante de certo modo. Liam me acompanhou em silêncio, respeitando o momento. Quando finalmente voltamos para o carro, ele falou, com um leve sorriso:

- Parece que começamos a encontrar algumas respostas, não é?

Assenti, sentindo um misto de emoções. Cada vez mais, parecia que essa jornada não era apenas sobre descobrir as histórias dos distritos, mas também sobre montar as peças de quem eu era – ou de quem fui um dia.

- Sim • Olhei para ele e sorri, grata por sua presença. • – E obrigada por estar aqui comigo, Liam.

Ele deu de ombros, rindo.

Essa é a parte fácil. Quem sabe o que mais vamos descobrir pelo caminho?

Enquanto dirigíamos para o próximo ponto da cidade, senti que, pela primeira vez, estávamos no caminho certo para encontrar as respostas que tanto procurávamos.

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