Escolhas e Caminhos

Sentei-me na cadeira familiar da Dra. Helena, já acostumada ao ambiente acolhedor de sua sala. Desde minha última consulta, algo em mim havia mudado. A sensação de incerteza ainda estava lá, mas eu começava a me sentir menos perdida. Pequenas descobertas, como meu gosto pela leitura e o mistério das sete cidades, pareciam me ancorar no presente. Estava longe de estar completa, mas havia progresso.

- Então, como se sente depois desses dias? • a Dra. Helena me perguntou, sua voz gentil como sempre.

Suspirei, tentando colocar em palavras o que eu vinha sentindo.

- Acho que estou... mais calma. A ansiedade de não saber quem eu era ainda me incomoda, mas estou conseguindo focar no agora. A cidade tem me distraído de forma positiva. Fui à biblioteca várias vezes. Encontrei livros históricos sobre a região, as sete cidades conectadas por aquela estrada antiga. A sexta cidade, onde aconteceu o acidente, é praticamente isolada. E a sétima... ela quase não existe, o último registro é de 1974.

A Dra. Helena sorriu, anotando em seu bloco enquanto eu falava.

- Parece que você encontrou uma maneira de se conectar com o presente, e isso é ótimo. Esse interesse pelas cidades pode ser uma forma de se ancorar enquanto explora sua nova realidade.

Assenti, concordando. O mistério das cidades me puxava de uma forma estranha, como se houvesse algo ali que eu precisava entender. Mas, ao mesmo tempo, havia uma calma que eu não tinha antes. Não precisava descobrir tudo de uma vez.

- Tenho uma notícia para você • disse ela, agora com um brilho no olhar • Consegui aprovar seus documentos provisórios.

Meus olhos se arregalaram. Não esperava que isso fosse acontecer tão rápido.

- Documentos provisórios?

Ela assentiu, sorrindo.

- Sim. Isso vai te permitir mais liberdade e te ajudar a construir uma vida mais estável. Mas tem uma decisão que você precisa tomar.

- Qual? • perguntei, ainda tentando absorver a notícia.

- Você terá que escolher seu nome • respondeu ela, sua voz suave, mas com uma seriedade delicada. • Isso pode ser temporário, mas será o nome pelo qual você será chamada até que consiga se lembrar do seu verdadeiro ou decidir ficar com o que escolher agora.

Um nome. A ideia de escolher algo tão essencial para mim mesma parecia ao mesmo tempo libertadora e esmagadora. Era como se, finalmente, eu pudesse dar um primeiro passo na construção de quem eu queria ser.

- Eu... não sei qual escolher • admiti, uma leve insegurança começando a pesar em mim.

- Não precisa decidir agora. Pense com calma. Esse é o começo de um novo capítulo para você • disse a Dra. Helena, encorajando-me.

Depois da consulta, caminhei até a biblioteca, um lugar que já começava a parecer familiar. Eu gostava da tranquilidade das estantes antigas e do cheiro dos livros envelhecidos. Era um refúgio, um espaço onde eu podia me perder nas histórias e esquecer, por algumas horas, do vazio dentro de mim.

Hoje, estava atrás do mesmo livro sobre as cidades. Já tinha lido parte dele, mas havia mais a descobrir. Caminhei até a prateleira dos livros históricos, e quando estendi a mão para pegá-lo, outra mão se chocou levemente contra a minha.

Olhei para o lado e vi um jovem de cabelos ruivos, sardas espalhadas pelo rosto e olhos verdes brilhantes que pareciam guardar uma curiosidade imensa. Ele sorriu, retirando a mão rapidamente.

- Ah, desculpa • disse, com um tom amigável. • - Parece que estamos atrás do mesmo livro.

Sorri de volta, um pouco tímida. Havia algo cativante no jeito dele, uma energia leve e descontraída.

- Sim, parece que sim • respondi - Você também está pesquisando sobre as cidades?

- Sim • disse ele, animado. • – Estou fazendo uma pesquisa para a faculdade de história. E a bibliotecária comentou que você também está interessada no tema. Achei curioso, porque geralmente sou o único obcecado por essas coisas por aqui. Sou Liam, aliás.

- Liam... • repeti o nome, como se o estivesse testando. • - Eu... ainda não tenho um nome.

Liam franziu o cenho, surpreso, mas manteve o sorriso.

- Como assim, não tem nome?

- É uma longa história • respondi, tentando não me estender demais. • – Mas estou prestes a escolher um.

-Uau, isso é uma grande decisão. Escolher seu próprio nome... deve ser uma responsabilidade e tanto • comentou ele, com genuína curiosidade nos olhos. • – Mas imagino que também seja libertador. Você pode escolher qualquer nome do mundo.

Ri levemente, percebendo a leveza com que ele encarava algo que parecia tão pesado para mim.

- Bem, se precisar de ajuda, estou aqui • disse ele, piscando de maneira descontraída. • – E já que vamos compartilhar o mesmo livro, talvez possamos trabalhar juntos na pesquisa. Duas mentes são melhores do que uma, certo?

Hesitei por um segundo. Era estranho, depois de tanto tempo fazendo tudo sozinha, pensar em dividir minha busca com alguém. Mas a ideia de ter companhia, especialmente alguém tão alegre, me trouxe um certo alívio.

- Parece uma boa ideia • respondi, finalmente, entregando-lhe o livro. • – Já li a primeira parte. Agora é sua vez.

Liam pegou o livro, sorrindo abertamente.

- Perfeito! Tenho certeza de que vamos descobrir algo interessante. Quem sabe o que está escondido nessas páginas?

Sentamos em uma das mesas da biblioteca, e enquanto ele folheava as páginas, percebi o quanto sua presença era reconfortante. Liam era alegre, curioso e, de certa forma, entusiasmado com o que fazíamos ali. Parecia realmente gostar da minha companhia, o que era algo novo para mim.

Enquanto ele lia, eu o observava de canto de olho. Havia algo na sua maneira despreocupada e amigável que tornava a pesquisa menos pesada, menos sobre o mistério sombrio das cidades e mais sobre a descoberta.

- Sabe, eu nunca imaginei que conheceria alguém tão interessado nessas cidades quanto eu • disse Liam, sem tirar os olhos do livro •. – Tem algo nelas, não é? Algo que puxa a gente, como se houvesse mais por trás da história oficial.

Eu assenti, entendendo exatamente o que ele queria dizer. Não era apenas o que estava escrito nos livros que me intrigava, mas o que estava faltando. E, de algum modo, eu sentia que Liam também estava em busca dessas respostas.

Por um momento, senti que, talvez, ter alguém ao meu lado nessa jornada seria exatamente o que eu precisava.

Sentei-me ao lado dele enquanto ele folheava o livro, concentrado nas páginas antigas e desgastadas. O silêncio entre nós não era incômodo, mas sim confortável, como se a presença dele, de alguma forma, suavizasse o peso do mistério que pairava sobre mim. Mesmo assim, algo dentro de mim me puxava para saber mais sobre ele.

- Você sempre foi interessado em história? • perguntei, tentando puxar um pouco mais de conversa.

Liam levantou os olhos do livro e sorriu, aquele sorriso fácil e amigável que parecia ser sua marca registrada.

- Desde pequeno, para ser honesto. Acho que tudo começou com meu avô. Ele costumava contar histórias sobre lugares que já não existem, como se quisesse manter viva a memória de algo perdido no tempo. Sempre achei isso fascinante • ele disse, com um brilho nos olhos. • – E você? Como começou a se interessar pelas cidades?

Eu hesitei. Claro que eu não tinha uma longa história como a dele, nem memórias de infância que justificassem meu fascínio. Meu interesse havia surgido apenas nos últimos dias, alimentado pela necessidade de encontrar respostas.

- Bem, na verdade, foi meio que por acaso • comecei, escolhendo as palavras com cuidado. • – Acho que a curiosidade é o que me move. Descobri que não há muitos registros sobre a última cidade, e isso me chamou a atenção. Mas, ao mesmo tempo, parece que há algo mais. Algo que não está escrito em nenhum livro.

Liam assentiu, ainda me olhando com aquele interesse moderado, mas genuíno. Ele fechou o livro, encostando-se à cadeira, como se quisesse ouvir mais.

- Isso faz sentido. Às vezes, o que está nas entrelinhas é mais importante do que o que está escrito. E essa região tem tantas histórias inexploradas... • Ele se inclinou um pouco para frente, animado. • – Já encontrei documentos e relatos que se contradizem, especialmente quando se trata da sexta e da sétima cidades. Há um quebra-cabeça aqui, com certeza. E, por algum motivo, sinto que a chave está no que foi deixado de fora.

Havia algo cativante na forma como ele falava, como se ele compartilhasse comigo o peso desse mistério, mas ao mesmo tempo fosse capaz de enxergar a beleza da descoberta.

- Isso faz todo o sentido • concordei, cruzando os braços e olhando para o livro. – Como se tudo o que conseguimos encontrar estivesse envolto em uma névoa. É intrigante, mas ao mesmo tempo frustrante. Cada resposta parece levar a mais perguntas.

Ele riu levemente, relaxando na cadeira.

- Exatamente! Mas é aí que a diversão começa, não é? • disse ele, seu tom brincalhão, mas sério ao mesmo tempo. • - A investigação, a descoberta. Eu adoro essa parte. E é ainda melhor quando não estamos sozinhos. Sabe, estou feliz que encontrei alguém que compartilhe desse interesse!

Senti um leve calor no rosto. Havia algo de reconfortante na forma como ele admitia a excitação da busca. Por um momento, fiquei me perguntando se ele também estava tentando encontrar algo mais profundo. Algo que talvez o conectasse a essas cidades da mesma forma que eu parecia estar conectada a elas, mesmo sem saber como ou por quê.

- Sabe, estava pensando... • ele começou, depois de uma pausa. • – O que acha de nos encontrarmos fora daqui? Podemos continuar conversando sobre as cidades, e talvez descobrir algo mais em conjunto. Tem um café ali perto, você já deve ter passado por ele. Não é nada chique, mas é ótimo para uma boa conversa e alguns devaneios históricos.

Eu o encarei por um momento, surpresa com a proposta. Não estava acostumada a esse tipo de interação social tão leve e descontraída, mas havia algo em Liam que me fazia querer aceitar. Talvez fosse sua energia, ou o fato de que, pela primeira vez em muito tempo, eu me sentia à vontade perto de alguém.

- Isso parece uma boa ideia • respondi, finalmente, com um sorriso discreto. • – Estou precisando de um bom café.

- Ótimo! • disse ele, claramente animado. • – Vamos nos encontrar amanhã, então? Depois da sua próxima visita à biblioteca?

Assenti, sentindo uma estranha combinação de curiosidade e antecipação. Eu não sabia onde essa nova parceria me levaria, mas, por algum motivo, isso parecia o próximo passo certo a ser dado.

- Combinado. Amanhã, no café • confirmei.

Liam sorriu, satisfeito, e se levantou, segurando o livro que ainda estava em suas mãos.

- Até amanhã, então. E não se preocupe, vou devolver o livro para você depois que eu terminar • brincou, piscando enquanto caminhava em direção à saída.

Fiquei sentada por mais alguns minutos, refletindo sobre como as coisas pareciam estar se encaixando, de uma forma ou de outra. Pela primeira vez, desde o acidente, não parecia que eu estava sozinha nesse mistério.

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Comments

Diulia Andriele

Diulia Andriele

cada vez mais interessante!

2025-01-03

0

Maria Socorro Netos

Maria Socorro Netos

que bom que eles gostam da mesma estória

2024-12-09

1

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