O silêncio da cidade era absoluto enquanto Liam e eu carregávamos a caixa para o carro. Havíamos empilhado os documentos mais relevantes, incluindo o álbum de fotografias e algumas anotações datadas. Apesar de não termos encontrado muitas respostas, as peças que tínhamos eram suficientes para ampliar ainda mais o mistério.
— Acho que já temos material suficiente para analisar mais tarde • Liam comentou, colocando a caixa no banco de trás. • — E para sermos honestos, eu já não aguento mais esse lugar.
Assenti em silêncio, meu olhar se desviando para o cenário ao nosso redor. A sensação de abandono era quase sufocante, e cada sombra parecia esconder segredos que preferíamos não desvendar. Entramos no carro e demos partida. A estrada, cheia de buracos e ladeada por árvores, parecia ainda mais desolada à luz fraca do final da tarde.
Avançamos alguns metros quando, de repente, Liam freou bruscamente, e o carro deu um leve solavanco. Meu corpo foi projetado para frente, e meu coração disparou.
— O que foi? • perguntei, ofegante, olhando para ele.
— Ali! • exclamou Liam, apontando para a estrada.
Meu olhar seguiu o dele, e meu coração parou por um momento. Uma garotinha estava parada bem no meio do caminho. Ela parecia ter saído de outra época. Suas roupas eram antigas, iguais às das fotos que havíamos encontrado, um vestido pálido e desgastado que parecia ter sido usado por gerações. Seu cabelo estava emaranhado, e a sujeira cobria suas mãos e rosto. Mas o mais perturbador era sua expressão, ou a falta dela. Seus olhos fixos em nós eram vazios, como se não houvesse alma ali.
— O que?... • murmurei, minha voz falhando.
— Eu vou sair — disse Liam, já abrindo a porta do carro.
— Cuidado! — avisei, mas minha própria curiosidade me fez abrir a porta também.
Saímos do carro devagar, os dois com os olhos fixos na figura imóvel da menina. A tensão no ar era palpável. Cada passo que dávamos parecia pesado, como se algo nos puxasse para trás.
— Ei, está tudo bem? • Liam chamou, a voz suave.
A menina não respondeu, nem se moveu. Ela apenas continuou nos encarando, os olhos vazios fixos em nós. Mas, de repente, como se um estalo invisível a tivesse despertado, ela se virou e correu, os pés descalços batendo na estrada de terra.
— Espere! • gritei, começando a correr atrás dela.
Liam veio logo atrás, ambos ofegantes enquanto tentávamos alcançá-la. Ela era rápida, mais do que parecia possível para alguém tão pequeno. Correu em direção a uma casa ao lado da estrada, uma construção que mal havíamos notado antes. Era uma estrutura de madeira antiga e quase em ruínas. As tábuas estavam podres, e o telhado parecia prestes a desabar.
A menina abriu a porta com um movimento ágil e desapareceu lá dentro. Paramos na frente da casa, trocando olhares. O som de nossos corações batendo ecoava em meus ouvidos.
— Isso não é normal • disse Liam, ofegante.
— Nada aqui é • respondi, minha voz quase um sussurro.
Empurrei a porta lentamente, que rangeu alto como se protestasse contra nossa entrada. O interior da casa era tão sombrio quanto o exterior. A luz fraca do entardecer mal iluminava o espaço, mas era o suficiente para ver que as paredes estavam cobertas de algo. Me aproximei, e minha respiração parou.
O símbolo.
O mesmo da minha tatuagem, gravado repetidamente nas paredes, de maneira caótica e obsessiva. Alguns eram feitos com algo que parecia tinta, outros eram apenas arranhões profundos na madeira. O ar estava pesado, como se o próprio ambiente estivesse impregnado de alguma energia estranha.
— Isso não pode ser coincidência • Liam murmurou ao meu lado, passando os dedos pelos símbolos arranhados.
— Onde ela está? • perguntei, olhando ao redor.
Procuramos por toda a casa, cada canto e cada quarto. Mas a menina havia desaparecido, como se nunca tivesse estado ali. Não havia sons de passos, nem sinal de que alguém morasse naquele lugar há anos.
— Ela simplesmente... sumiu • disse Liam, ainda olhando em volta, incrédulo.
— Isso não faz sentido • respondi, minha voz tremendo.
Foi então que notei algo em cima de uma mesa coberta de poeira no canto da sala. Um objeto pequeno e desgastado: um diário. Caminhei até ele, meus passos ecoando no silêncio. Peguei-o com cuidado, como se pudesse se desfazer em minhas mãos.
— O que é isso? • perguntou Liam, aproximando-se.
— Um diário • respondi, folheando as páginas.
As primeiras estavam completamente ilegíveis, cobertas de manchas de umidade e marcas de tempo. Mas, conforme avancei, algumas partes ainda estavam intactas. As letras eram tremidas, como se a pessoa que escreveu estivesse nervosa ou com pressa. Uma das primeiras frases legíveis me fez congelar:
"A igreja quer mais. Eles sempre querem mais."
— O que isso significa? • perguntei em voz alta, olhando para Liam.
Ele balançou a cabeça, o rosto sério.
Continuei lendo, passando os olhos pelas palavras fragmentadas. A pessoa que escreveu parecia estar descrevendo algo terrível. Havia menções a "sacrifícios", "purificação" e "as crianças marcadas". Uma frase em particular fez meu estômago revirar:
"Eles dizem que as marcas nos protegem, mas tudo o que sinto é medo."
Toquei meu pulso instintivamente, onde minha tatuagem parecia arder sob a pele. Liam olhou para mim, notando meu desconforto.
— Você acha que isso está relacionado à sua tatuagem? • ele perguntou.
— Acho que sim • respondi, quase sem fôlego. • — E acho que essa cidade tem muito mais segredos do que imaginávamos.
Fechei o diário, segurando-o com firmeza. Era mais uma peça no quebra-cabeça, mas ao mesmo tempo levantava ainda mais perguntas. Quem era a menina? O que aconteceu com as pessoas da cidade? E, mais importante, qual era o verdadeiro significado do símbolo que carregava em meu corpo?
Enquanto saíamos da casa, o céu já estava escuro. O carro parecia um refúgio seguro em comparação àquele lugar, mas a sensação de que algo nos observava ainda estava presente.
Ao nos afastarmos, olhei para trás uma última vez. A casa parecia ainda mais sombria sob a luz fraca da lua, e uma parte de mim tinha certeza de que, se entrássemos novamente, as coisas seriam diferentes.
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Atualizado até capítulo 21
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