Pistas Ocultas

Dona Emília estava sentada atrás de uma pequena mesa de madeira, com óculos na ponta do nariz e um olhar atento em nossa direção. Após nossa conversa anterior, ela nos permitiu acesso a alguns documentos que mantinha guardados em uma pequena sala no fundo da sede de organização da cidade. A sala, embora bem iluminada, possuía um ar abafado e carregado de papel velho e madeira envelhecida. Ela abriu uma gaveta de ferro e retirou um fichário desgastado.

- Esses arquivos são mais recentes, pelo menos em comparação ao que costumamos ter aqui • explicou ela. • – Achei que poderiam ser de interesse, especialmente se estão tão interessados na história da estrada e dos distritos.

Liam e eu trocamos um olhar curioso, e então ele abriu o fichário. Em meio a páginas amareladas e relatórios de eventos corriqueiros da cidade, uma folha em particular chamou nossa atenção. Era uma nota oficial datada de 1999, e, com um leve tremor nas mãos, puxei o documento para mais perto de mim, observando cada detalhe.

> Nota Oficial – Governo Estadual

Data: 12 de agosto de 1999

Assunto: Fechamento da estrada do sétimo distrito

Considerando a falta de manutenção e as condições estruturais da estrada que leva ao sétimo distrito, este comunicado formaliza o fechamento permanente do trecho final da rodovia estadual que conecta o sexto e o sétimo distritos. Medidas de isolamento foram tomadas para garantir a segurança dos cidadãos.

A partir desta data, o acesso ao sétimo distrito é estritamente proibido.

Ao terminar de ler, troquei um olhar espantado com Liam, que também parecia absorver a estranheza daquela nota.

- O fechamento permanente... sem mais nem menos? • perguntei, tentando entender o que poderia ter motivado algo tão drástico.

Dona Emília suspirou, ajeitando os óculos.

- Esse fechamento gerou muita discussão na época. A estrada já era perigosa, claro, mas era uma rota essencial para o transporte de bens e suprimentos. Desde então, a estrada foi praticamente esquecida, e o sétimo distrito foi se tornando um mistério para quem não vivia naquela época.

Liam franziu o cenho, lendo o documento mais uma vez, como se esperasse encontrar algo escondido nas entrelinhas. Ele virou-se para Dona Emília.

- E a cidade em si? O que se sabe sobre ela?

Ela deu de ombros, pensativa.

- Pouco se sabe, mesmo para nós, moradores do sexto distrito. O último relato que ouvi foi sobre o incêndio na igreja... depois disso, é como se a cidade tivesse sido apagada da memória de todos.

Fiquei em silêncio, processando a informação, enquanto sentia uma curiosidade cada vez mais intensa para entender o que realmente aconteceu naquele lugar. Agradecemos a Dona Emília e nos despedimos, levando uma cópia do documento para nossas próprias anotações. Do lado de fora, o vento frio do distrito nos envolveu novamente, e Liam virou-se para mim, com os olhos brilhando.

- Vamos dar uma olhada online e ver o que conseguimos descobrir sobre essa estrada e o sétimo distrito • sugeriu ele, e eu assenti.

Encontramos um café local com uma conexão de internet fraca, mas que bastava para uma pesquisa básica. Liam colocou o nome do sétimo distrito no Google, e para nossa surpresa, uma localização surgiu rapidamente. A cidade estava listada, mas quando tentamos visualizar a rota, o mapa não exibia nenhum caminho, como se houvesse uma lacuna entre o sexto e o sétimo distritos.

- Isso é... estranho • murmurei, sentindo um arrepio na espinha.

Liam concordou, sua expressão se tornando mais séria.

- Mesmo com o fechamento da estrada, deveria haver algum traço dela no mapa, ou pelo menos uma referência sobre a rota antiga. Mas é como se o caminho até lá não existisse.

Ele clicou em várias opções de navegação, tentando fazer o Google Maps traçar uma rota, mas o aplicativo nos levava sempre até o sexto distrito e então parava, sem qualquer indicação de continuação.

- Talvez exista uma forma de chegar até lá sem um caminho oficial... como um desvio? • sugeri, com uma mistura de curiosidade e apreensão.

Liam coçou a cabeça, ainda analisando a tela.

- Pode ser. Mas, se existe, alguém precisaria saber onde fica. E considerando o tempo que essa estrada foi abandonada, é provável que quase ninguém saiba como chegar até lá.

Sentamos por alguns minutos em silêncio, digerindo a estranheza da situação. Estávamos diante de um mistério que parecia se aprofundar cada vez mais. A ideia de uma cidade completamente esquecida, onde o último evento registrado foi o incêndio de uma igreja, acendeu algo dentro de mim, uma espécie de impulso para descobrir mais. Não era apenas um desejo de desvendar uma história, mas de entender se aquilo de alguma forma conectava-se à minha própria existência.

Liam quebrou o silêncio, ainda com o olhar fixo na tela.

- Ashley, você sente... • ele hesitou, escolhendo as palavras com cuidado • - sente que essa busca é mais do que só curiosidade?

A pergunta me pegou de surpresa, mas depois de um momento de reflexão, assenti. Havia algo inegavelmente pessoal naquela busca. Algo que eu não sabia explicar, mas que me puxava para seguir adiante, como se aquela cidade perdida tivesse respostas para as perguntas que eu ainda nem sabia formular.

- Eu acho que sim, Liam. É como se... eu precisasse ir até lá. Como se essa cidade pudesse ser a peça que falta para eu entender minha história, talvez até sobre quem eu sou.

Ele assentiu com um leve sorriso, compreensivo.

- Então, vamos continuar. Nem que precisemos mapear cada pedaço de informação sozinhos.

A determinação em seu olhar trouxe uma onda de segurança para mim. Saber que não estava sozinha nesse processo tornava a jornada menos assustadora e um pouco mais possível.

---

Ao entardecer, antes de fechar, voltamos à biblioteca para tentar encontrar mais pistas, mas a maioria dos documentos públicos que mencionavam o sétimo distrito eram ainda mais antigos ou possuíam pouca informação relevante. No entanto, não desistimos. Liam e eu passamos a tarde alternando entre livros de história local e sites de cartografia, analisando imagens aéreas, tentando ver se conseguíamos identificar qualquer trilha ou marco que indicasse o caminho esquecido.

Enquanto revistávamos mais alguns jornais antigos, encontrei uma fotografia em preto e branco, desgastada, mas ainda legível. Nela, um grupo de trabalhadores estava posicionado ao lado de uma antiga ponte que, segundo a legenda, ficava em algum ponto na estrada entre o sexto e o sétimo distritos. Observei a estrutura em detalhe; era uma ponte de madeira, suspensa sobre um rio estreito e coberto de pedras. Havia algo familiar naquele lugar, um lampejo na memória, como se eu já tivesse passado por ali.

Mostrei a imagem a Liam, e ele arregalou os olhos.

- Se essa ponte ainda existe, pode ser nossa pista para encontrar a estrada original • disse ele, quase sem fôlego.

Concordei, animada, mas a adrenalina também vinha acompanhada de um leve temor. A ideia de encontrar a estrada abandonada era emocionante, mas o mistério sombrio que envolvia o sétimo distrito pesava sobre nós.

- Então, está decidido? • perguntei, com um meio sorriso, tentando disfarçar a inquietação.

- Totalmente. Vamos arrumar o que precisar, porque, Ashley, isso vai ser uma aventura que nem em nossos sonhos poderíamos imaginar.

Meus lábios se curvaram em um sorriso, e embora o medo e a incerteza persiste, algo dentro de mim sabia que estava no caminho certo.

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