A noite no castelo era densa e silenciosa, exceto pelo sussurro do vento que passava pelas janelas da torre. Estela estava em seu quarto, sozinha, sentada à beira da cama com a mente pesada. A visita dos nobres havia terminado, mas as preocupações que ela trouxera ainda pairavam como uma nuvem sobre seu espírito. Desde a traição de Alaric, Estela sentia que o perigo estava em todos os lugares – até mesmo dentro do castelo.
Foi então que os sussurros começaram. Um som quase imperceptível, como vozes que vinham das sombras. Estela se levantou abruptamente, olhando ao redor, mas o quarto estava vazio. Sua mente estava cansada, mas algo dentro dela dizia que aquilo era mais do que simples exaustão.
Ela caminhou até a janela, olhando para o céu escuro e para o pátio iluminado por tochas. Sentia-se sozinha, mesmo cercada por guardas e conselheiros. Seu irmão, Carlos, estava mais distante, e a pressão de liderar o reino sozinha começava a esmagá-la. Mas, naquela noite, algo mais pesava sobre seus ombros. Algo que ela não conseguia entender.
De repente, as sombras ao redor dela começaram a se mexer, se torcerem em formas indistintas. Estela piscou, achando que sua visão estava lhe pregando uma peça, mas quando fechou os olhos, os sussurros voltaram, mais fortes desta vez.
_"Estela..."_
Ela abriu os olhos com um sobressalto, reconhecendo a voz. Não era qualquer voz, era a de sua mãe. Estela cambaleou para trás, com o coração batendo rápido no peito.
— Não, isso é impossível... — murmurou, sentindo a garganta seca.
_"Estela, venha..."_
A voz parecia vir de todos os cantos do quarto, preenchendo o ar com uma sensação inquietante. Ela tentou ignorar, convencer-se de que era apenas a pressão da liderança, o cansaço acumulado. Mas a conexão era forte demais para ser ignorada.
Estela saiu apressadamente do quarto, os corredores do castelo vazios e escuros, com as tochas lançando sombras alongadas nas paredes de pedra. Ela não sabia exatamente para onde estava indo, mas seus pés a guiavam. A voz de sua mãe, um sussurro baixo e quase inaudível, parecia puxá-la para algum lugar específico dentro do castelo.
Ela desceu as escadas de pedra que levavam às câmaras subterrâneas, onde poucas pessoas iam, exceto os criados e alguns guardas. Quanto mais fundo ela ia, mais os sussurros se intensificavam, e algo dentro de si começava a despertar. Uma sensação antiga e adormecida, algo que ela mal conseguia compreender.
Finalmente, chegou à porta de uma pequena sala de armazenamento, onde mantinham antigos pertences de sua família. Ao abrir a porta, o cheiro de mofo e madeira velha a envolveu. Estela olhou ao redor, seus olhos percorrendo as pilhas de caixas e móveis cobertos por panos. Mas então, no fundo da sala, viu algo que nunca havia notado antes.
Havia um pequeno baú, escondido sob um tapete empoeirado. Estela se ajoelhou diante dele, com o coração acelerado, e cuidadosamente retirou o tapete. Ao abrir o baú, encontrou um diário, velho e desgastado, com o nome de sua mãe gravado na capa: **Anaïs**.
— O diário de minha mãe... — murmurou para si mesma, surpresa por nunca tê-lo visto antes.
Ela passou a mão pela capa de couro, hesitante. Havia tanto que ela não sabia sobre sua mãe, tantos segredos enterrados junto com ela. Atraída por uma curiosidade irresistível, Estela abriu o diário e começou a folheá-lo, lendo trechos dispersos.
_"O reino está mergulhado em escuridão... As Sombras se aproximam... Eu vejo seus rostos nas noites frias, e seus sussurros invadem meus sonhos..."_
Estela sentiu um arrepio percorrer sua espinha. As palavras de sua mãe soavam estranhamente familiares. Era como se a própria Anaïs também tivesse experimentado as mesmas visões, os mesmos sussurros que agora a atormentavam.
Ela virou mais algumas páginas, e uma passagem em particular chamou sua atenção.
_"Estela... meu pequeno raio de luz. Eu temo pelo seu futuro. A linhagem de nossa família está marcada por algo mais sombrio do que você pode imaginar. As Sombras... estão ligadas a nós. Eu tentei protegê-la, mas temo que um dia você também ouvirá seus sussurros."_
Estela fechou o diário abruptamente, sentindo-se sufocada pela revelação. As Sombras estavam ligadas a sua família? Mas como isso poderia ser? Sua mãe havia morrido antes de explicar qualquer coisa, deixando Estela e Carlos sozinhos para enfrentar um destino que eles nem compreendiam.
Ela se levantou rapidamente, com o diário firme em suas mãos, e saiu da sala, determinada a encontrar respostas. Subiu as escadas apressadamente, sua mente correndo com perguntas e uma sensação crescente de pavor. Assim que chegou ao topo, deu de cara com Carlos, que parecia tenso.
— Estela, o que está fazendo aqui embaixo? — ele perguntou, notando o diário em suas mãos.
— Carlos, encontrei algo... — ela começou, mas sua voz tremeu. — Algo sobre nossa mãe. Algo que você precisa ver.
Ele olhou para o diário com curiosidade, mas havia uma cautela em seus olhos.
— O que encontrou?
— Este diário... é da nossa mãe. Ela sabia sobre as Sombras, Carlos. Ela sabia que estavam ligadas à nossa família, e que de alguma forma... estamos marcados por elas.
Carlos franziu o cenho, pegando o diário das mãos dela e folheando rapidamente as páginas. Quanto mais ele lia, mais sua expressão ficava sombria.
— Isso não faz sentido — murmurou, os olhos ainda fixos no diário. — Nossa mãe nunca mencionou nada disso. Por que esconderia algo tão importante?
— Eu não sei, mas... Carlos, eu também estou ouvindo os sussurros. Eu os ouço nas sombras, como se estivessem tentando me chamar.
Carlos ergueu o olhar, visivelmente perturbado. — Você está ouvindo as Sombras? Estela, isso pode ser perigoso. Não sabemos do que elas são capazes. E se forem uma armadilha? Não podemos confiar nelas.
Estela balançou a cabeça, sentindo-se dividida entre o medo e a curiosidade. — Eu não sei, Carlos. Mas sinto que essas visões, esses sussurros, estão tentando me mostrar algo. Algo sobre o que nossa mãe estava tentando proteger. Talvez isso possa nos ajudar a entender como derrotar as Sombras.
Carlos fechou o diário com um estalo, seu rosto sério. — Precisamos ser cuidadosos. Se isso for verdade, estamos lidando com forças além da nossa compreensão. E agora que sabemos disso, não podemos confiar em ninguém, nem mesmo nos que estão ao nosso redor.
Estela assentiu, sentindo o peso das palavras de seu irmão. As Sombras, os sussurros, o passado de sua mãe – tudo parecia estar se unindo, mas ainda havia muito que eles não sabiam. E quanto mais se aproximavam da verdade, mais o perigo parecia crescer ao redor deles.
Enquanto a noite avançava, os sussurros nas sombras não cessaram. E Estela sabia que eles estavam apenas começando a revelar seus segredos sombrios.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 50
Comments
Cecilia geralda Geralda ramos
que falta de paz neste castelo até quando .
2025-02-07
0