O castelo estava em completa movimentação. Nobres, cavaleiros e servos corriam de um lado para o outro, preparando o salão de festas para o primeiro grande baile em homenagem à nova rainha, Estela. As paredes estavam decoradas com tapeçarias coloridas e arranjos florais; as mesas repletas de banquetes finos e doces de frutas exóticas. Apesar do brilho da festa iminente, Estela sentia um peso em seu peito.
Enquanto observava os preparativos da sacada de seu quarto, a jovem rainha suspirava, perdida em pensamentos. O baile era um evento importante, uma tradição para selar sua coroação e reafirmar sua liderança sobre o reino. No entanto, Estela se sentia deslocada. Parte dela ansiava por se conectar com seu povo e sua corte, mas outra parte desejava estar longe dali, talvez no silêncio da floresta, onde as obrigações reais não a alcançariam.
“Majestade, está na hora de se preparar!” A voz de Clara, sua dama de companhia, soou atrás dela, trazendo-a de volta ao presente.
Estela virou-se lentamente. “Eu não sei se estou pronta para isso, Clara.”
Clara sorriu com gentileza, ajustando o vestido de cetim azul que Estela vestia. “Eu entendo que é muita pressão, mas é apenas uma noite. Você não está sozinha. E lembre-se, este baile é uma chance de mostrar que o reino ainda está unido, mesmo após as perdas.”
“Não sei se consigo sorrir e fingir que tudo está bem quando há tanto acontecendo nos bastidores. Há perigo, Clara. Sinto isso no ar, como uma sombra que não consigo afastar.” Estela passou a mão pela testa, tentando acalmar o turbilhão de emoções.
Clara se aproximou, segurando a mão da rainha. “Você é forte, Estela. Mais forte do que pensa. Lembre-se de que sua mãe, a rainha Isadora, também enfrentou momentos difíceis. E ela sempre disse que as pessoas precisam de um líder para olhar e sentir esperança, mesmo em tempos sombrios. Hoje é sua chance de ser essa líder.”
Estela assentiu levemente, embora a dúvida ainda a consumisse. “Eu sei que tenho que fazer isso. Só... queria que houvesse um jeito mais simples.”
Clara riu suavemente. “Ser rainha nunca é simples, minha senhora. Mas vamos transformar esta noite em algo especial, por você e por seu povo.”
Estela respirou fundo e olhou para seu reflexo no espelho. O vestido azul profundo, adornado com detalhes prateados, caía elegantemente até o chão. Seus cabelos estavam presos em um penteado intricado, com pequenas rosas de prata enfeitando as mechas escuras. Ela estava linda, mas, por dentro, sentia-se uma impostora.
Pouco tempo depois, Estela desceu para o grande salão. Assim que entrou, todos os olhos se voltaram para ela. Os murmúrios de aprovação se espalharam, e os sorrisos dos nobres tentavam disfarçar a tensão que pairava sobre o reino. Ao seu lado, Carlos se aproximou e estendeu o braço.
“Pronta para ser o centro das atenções?” ele brincou, tentando aliviar o nervosismo que via no rosto da irmã.
Estela sorriu, embora sem entusiasmo. “Estou pronta para enfrentar o que for preciso, Carlos. Mas não posso negar que preferia estar em outro lugar.”
Carlos riu baixinho. “Você nunca foi fã dessas festas, mesmo quando éramos crianças. Lembra de como sempre se escondia nos jardins enquanto todos dançavam?”
“Lembro. E eu adoraria estar nos jardins agora, longe de toda essa formalidade”, ela respondeu, enquanto caminhavam juntos pelo salão. “Mas devo isso ao reino. Precisamos mostrar força.”
“Você está fazendo isso, Estela. Só não se esqueça de viver um pouco também”, Carlos disse, com um olhar sincero. “Vamos, dance comigo.”
Sem esperar resposta, Carlos a puxou para o centro do salão. A música começou a tocar suavemente, e logo eles estavam girando ao som da valsa. Por alguns instantes, Estela se permitiu esquecer as preocupações. Sentiu-se protegida nos braços do irmão, como se o peso de ser rainha pudesse ser temporariamente deixado de lado.
“Acho que você está começando a se divertir”, Carlos comentou, com um sorriso largo.
“Talvez um pouco. É bom dançar com você, como nos velhos tempos”, ela respondeu, permitindo-se rir.
No entanto, quando a dança terminou, o peso das responsabilidades voltou à tona. Estela sentiu a presença de olhares atentos sobre ela, como se cada passo e cada palavra fossem cuidadosamente analisados pelos nobres e líderes da corte.
Ao caminhar pelo salão, cumprimentando os convidados, um sentimento de desconexão crescia dentro dela. Embora sorrisse e conversasse educadamente, sua mente estava longe, voltando-se para as ameaças que rondavam o reino, o culto das Sombras e as revelações contidas no diário de sua mãe.
“Majestade, a honra é toda minha em estar aqui nesta noite”, disse o Conde Alaric, inclinando-se perante Estela. “O reino está deslumbrante sob sua liderança.”
“Obrigada, Conde”, Estela respondeu, tentando esconder sua apreensão. “Estamos todos fazendo o melhor para seguir adiante.”
Alaric, no entanto, parecia perceber algo além das palavras da rainha. “Nem tudo são flores, não é, Majestade? Há rumores de que tempos sombrios se aproximam.”
Estela hesitou, encarando-o com um olhar firme. “Rumores sempre existem, Conde. Mas meu dever é garantir que o reino esteja preparado, não importa o que venha.”
O conde inclinou levemente a cabeça, respeitoso, mas seus olhos ainda carregavam um tom de desafio. “É claro. E confio que fará o necessário.”
Quando o conde se afastou, Estela sentiu um calafrio subir pela espinha. Embora estivesse cercada por seus aliados, o ambiente parecia mais denso, como se segredos e conspirações pairassem no ar.
Antes que pudesse se afastar para encontrar um momento de tranquilidade, sentiu uma presença ao seu lado. Era Arion, o misterioso cavaleiro que havia se tornado uma figura constante ao seu redor desde que as ameaças começaram a se intensificar.
“Majestade, você parece cansada”, ele observou, seus olhos analisando-a com cautela. “Posso oferecer algum alívio? Talvez uma dança?”
Estela sorriu, embora ligeiramente surpresa. “Você dança, Arion?”
“Quando necessário. Embora eu prefira a batalha à pista de dança”, ele respondeu, com um leve sorriso. “Mas se isso ajudar a rainha a se sentir mais à vontade, estou à disposição.”
Estela olhou para ele, incerta. Arion era uma presença constante, protetor, mas também enigmático. No entanto, naquele momento, ela se sentiu estranhamente segura ao seu lado. “Uma dança, então. Apenas uma.”
Eles se moveram para o centro da pista, e a música começou novamente. Estela sentiu o toque firme de Arion em sua cintura, guiando-a com leveza. Diferente de Carlos, a dança com Arion era carregada de uma tensão sutil, como se houvesse mais sendo dito nos silêncios do que nas palavras.
“Há algo que a incomoda esta noite, Majestade”, ele disse suavemente, enquanto giravam. “Algo além das preocupações comuns de um baile.”
Estela suspirou, olhando diretamente nos olhos dele. “Sinto como se estivesse dançando sobre uma corda bamba. A qualquer momento, tudo pode desmoronar.”
Arion a puxou um pouco mais para perto. “Você está mais forte do que pensa. E não está sozinha.”
Aquelas palavras, simples, mas carregadas de significado, trouxeram um inesperado alívio a Estela. Por um breve momento, ela se permitiu confiar. Enquanto giravam pelo salão, as preocupações do reino se dissolveram, ainda que apenas por alguns instantes.
Quando a dança terminou, Arion a soltou, mas seus olhos mantiveram o contato por mais tempo do que o necessário. “Obrigado pela dança, Majestade. E lembre-se, estou sempre por perto.”
Estela assentiu, sentindo que as palavras dele significavam mais do que aparentavam.
Enquanto a noite continuava e o baile seguia com mais risos e música, Estela se sentia dividida. Entre as obrigações de ser rainha e seus desejos de encontrar uma paz que parecia cada vez mais distante, a jovem rainha sabia que, cedo ou tarde, teria que enfrentar o destino que a aguardava. Mas, naquela noite, por mais breve que fosse, ela se permitiu um momento de leveza, perdida entre as danças e os sussurros sombrios que rondavam seu coração.
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Atualizado até capítulo 50
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