O som das festividades do baile ainda ecoava pelos corredores do castelo, mas Estela precisava de ar. O peso das responsabilidades, dos sussurros políticos e das ameaças veladas estavam tornando o ambiente sufocante. Ela caminhou rapidamente pelos corredores, deixando a música e as risadas cada vez mais distantes. Passou pela grande porta que dava para os jardins e sentiu o frescor da noite envolvê-la, proporcionando um alívio imediato.
As flores do jardim, iluminadas pela luz suave da lua, exalavam um perfume doce. Estela se moveu entre as roseiras, sentindo-se, por um momento, livre das amarras do palácio. Ela sabia que, tecnicamente, não deveria estar ali sozinha, longe dos olhos vigilantes dos guardas e conselheiros, mas era uma rainha, e, por uma vez, queria agir como uma mulher comum.
Ela caminhou até uma fonte cercada de rosas brancas, onde o som suave da água correndo a tranquilizava. Sentou-se na borda de mármore, olhando para o reflexo da lua na superfície calma da água.
De repente, ela ouviu um farfalhar entre as árvores próximas. Seu corpo ficou tenso por um momento, e ela se levantou, os sentidos aguçados. Não deveria haver mais ninguém ali.
“Quem está aí?” perguntou, sua voz firme, mas com uma ponta de incerteza.
Por um momento, houve silêncio. Então, uma figura emergiu das sombras, caminhando lentamente na direção de Estela. Era um jovem, de aparência distinta, com cabelos negros bagunçados que caíam sobre a testa e olhos de um azul profundo que pareciam brilhar à luz da lua. Ele usava roupas simples, mas havia algo nele que exalava uma aura de mistério.
“Perdão, Majestade”, disse o homem com uma reverência leve. “Não era minha intenção assustá-la.”
Estela deu um passo para trás, seus olhos ainda fixos no estranho. “Quem é você? E o que faz aqui no jardim, longe da festa?”
O jovem ergueu o olhar, e um sorriso sutil surgiu em seus lábios. “Meu nome é Elias. Sou apenas um viajante, Majestade. Alguém que, por acaso, encontrou seu caminho para este belo jardim.”
“Um viajante?” Estela arqueou uma sobrancelha, desconfiada. “Um viajante que anda pelos jardins reais sem ser notado? Isso não parece muito comum, Elias.”
“Nem tudo no mundo é tão comum quanto parece, minha rainha”, ele respondeu, com um tom quase brincalhão. “Mas lhe garanto, não vim com más intenções. Apenas buscava um momento de paz, assim como a senhora.”
Estela o observou atentamente, tentando decifrar se ele representava algum tipo de ameaça. Havia algo nele que despertava sua curiosidade, mas também a mantinha em alerta. Elias parecia deslocado ali, mas, ao mesmo tempo, parecia pertencer àquele ambiente de sombras e mistério.
“Este não é um lugar seguro para forasteiros”, disse ela, finalmente. “Principalmente à noite. Há guardas por toda parte. Você poderia ser preso por invadir o jardim real.”
Ele inclinou levemente a cabeça, como se reconhecesse a seriedade de suas palavras, mas sem demonstrar medo. “Eu sei dos riscos, Majestade. Mas também sei que há algo mais profundo que trouxe a senhora até aqui, longe dos olhos do seu reino.”
Estela sentiu um frio percorrer sua espinha. “Do que está falando?”
“De como às vezes queremos escapar. Nem que seja por um breve momento. O peso do mundo pode ser demais para qualquer pessoa, mesmo para uma rainha.” Os olhos de Elias encontraram os dela, e sua voz suave tinha uma intensidade que fez Estela hesitar.
Ela olhou para ele, sentindo-se desarmada de uma forma que não experimentava há muito tempo. “Você fala como se me conhecesse, Elias. Mas não passa de um estranho que apareceu no meu jardim.”
Ele deu um passo à frente, mas parou a uma distância respeitosa. “Às vezes, estranhos podem nos entender de maneiras que aqueles ao nosso redor não conseguem.”
Estela ficou em silêncio por um momento, lutando contra a sensação de atração que começava a crescer dentro dela. Havia algo em Elias — algo enigmático, perigoso até — que despertava uma curiosidade insaciável. Mas, ao mesmo tempo, era imprudente deixar-se levar por isso.
“Você não deveria estar aqui”, disse ela, tentando recuperar o controle da situação.
“Talvez não”, Elias concordou, com um sorriso que não alcançou totalmente seus olhos. “Mas você também não deveria, minha rainha. E, no entanto, aqui estamos.”
Aquelas palavras a atingiram de maneira inesperada. Estela sempre fora cautelosa, sempre preocupada com as consequências de suas ações, mas naquele momento, em meio às rosas brancas e ao luar, ela se sentiu tentada a baixar a guarda.
“Por que veio até mim?” perguntou, finalmente. “O que realmente quer, Elias?”
Ele a olhou nos olhos, e pela primeira vez, a intensidade em seu olhar a deixou sem fôlego. “Eu não vim até você por escolha, Majestade. Fui atraído. Como se algo, ou alguém, estivesse me chamando. Talvez seja o destino, ou talvez seja o acaso. Mas, no fundo, eu sei que há uma razão para estarmos aqui esta noite.”
Estela franziu a testa, desconcertada. “Destino?”
“Sim”, ele respondeu, sua voz suave, mas carregada de significado. “Há forças no mundo que vão além da nossa compreensão, e talvez elas tenham nos colocado neste momento.”
Ela deu um passo para trás, tentando processar o que ele estava dizendo. “Você fala como se soubesse algo que eu não sei.”
Elias sorriu, mas não respondeu de imediato. Em vez disso, ele olhou para o céu, como se estivesse buscando as estrelas para obter respostas. “O que eu sei, minha rainha, é que este momento é importante. E que, de alguma forma, estamos ligados. Não posso explicar o porquê, mas sinto isso.”
Estela sentiu o coração acelerar. “Isso é loucura. Eu não o conheço.”
“E, ainda assim, está aqui, falando comigo, quando poderia ter me expulsado no momento em que me viu.”
Ela hesitou, percebendo que ele estava certo. Algo a impedia de mandá-lo embora, mesmo sabendo que deveria. “Você deveria ir embora, Elias. Se alguém o encontrar aqui, será perigoso para ambos.”
“Sim, talvez seja”, ele respondeu calmamente. “Mas não posso partir ainda. Não sem entender por que estou aqui. Não sem falar com você.”
O silêncio entre eles se prolongou. O som suave da água na fonte parecia amplificar a tensão no ar. Estela olhou para Elias mais uma vez, tentando ler suas intenções, mas o enigma em seus olhos só a confundia mais.
“Eu deveria prendê-lo por invadir os jardins reais”, ela disse, mas sua voz soou hesitante, quase como uma pergunta.
“Mas não vai”, Elias replicou suavemente.
Estela apertou os lábios, sentindo-se dividida. Ele tinha razão — algo dentro dela a impedia de agir contra ele. Mas por quê? Seria apenas a curiosidade? Ou algo mais profundo, que ela não conseguia nomear?
“Se for realmente o destino, como você diz, então talvez haja uma razão para isso. Mas eu não posso deixar que você fique. Vá embora, antes que alguém o veja.”
Elias observou-a por um longo momento, como se estivesse gravando cada detalhe de sua fisionomia. Então, com um leve aceno, ele se afastou.
“Nos veremos novamente, Majestade”, disse ele, antes de desaparecer entre as sombras das árvores.
Estela ficou ali, sozinha, o coração batendo rápido e a mente cheia de perguntas. Quem era Elias?
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Atualizado até capítulo 50
Comments
Cecilia geralda Geralda ramos
estranho viu e se Elias ,for das sombras.
2025-02-07
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