O dia estava sendo normal, até que vejo Julian Lopes se aproximar de onde estou no escritório, cheio daquele sorriso despretensioso. Ele estava estagiando na firma ao lado e, pelo visto, resolveu que seria uma boa ideia passar por aqui "casualmente". De longe, já percebo que ele vem com algo em mente, e sinto aquele misto de irritação e curiosidade que sempre surge quando ele aparece.
— "Ayana, que bom te ver!" Ele começa, todo casual.
— "E aí, Julian," respondo, tentando ser o mais profissional possível. — "Passando por aqui por algum motivo específico?"
Ele sorri, aquele sorriso que mistura charme com malícia, e diz:
— "Tenho uma proposta interessante pra você."
Já vou logo levantando uma sobrancelha. Conheço Julian bem demais para saber que suas "propostas" nunca são apenas profissionais. Mas mantenho o foco. Ele continua:
— "Estou trabalhando em um projeto na área civil, e quando pensei em alguém que pudesse agregar, lembrei de você. Sério, Ayana, você tem uma visão única sobre as coisas, e isso seria perfeito pra esse trabalho."
Por um segundo, a proposta me balança. A ideia de explorar um novo campo, longe da pressão de Eliane e do caos constante do escritório, é tentadora. Mas é Julian. E a última vez que me envolvi em algo com ele, profissional ou não, terminei em uma bagunça só.
— "E você acha que eu vou largar tudo aqui e trabalhar com você, só porque me considera uma ‘parceira em potencial’? Sabe que sou estagiária da Eliane, não vou sair assim."
Ele dá um passo à frente, os olhos brilhando com uma mistura de determinação e arrependimento. Droga, ele sempre sabe como acertar em cheio, como se eu fosse um livro aberto para ele.
— "Ayana, sei que já errei muito com você, e não tô aqui pra revirar o passado. Quero que você veja isso como uma oportunidade pra você mostrar seu valor, sem ninguém ditando o que fazer. Eu mudei, de verdade."
"Eu mudei." Quantas vezes já ouvi isso? Não sei se estou mais desconfiada ou tentada, e é aí que começa o conflito interno. Parte de mim quer arriscar, quer acreditar que talvez essa seja minha chance de crescer por conta própria. Mas, ao mesmo tempo, lembro do quanto foi difícil confiar nele e do quanto ele conseguiu quebrar essa confiança. Penso na Suraya, no que significa estar onde estou e nos sacrifícios para chegar aqui.
— "Tá bom, Julian. Eu agradeço pelo convite, mas… preciso pensar," respondo finalmente, tentando soar firme.
Ele solta um suspiro de alívio, como se esperasse uma reação muito mais negativa.
— "Claro, sem pressa. Sei que é uma decisão difícil, mas quero que saiba que realmente admiro seu talento. Não só por causa da nossa história, mas porque você é boa, Ayana. De verdade."
Não sei o que responder, então apenas aceno, indicando que ele já pode ir. Ele me lança um último olhar, quase como quem espera que eu o siga. Mas fico onde estou, sabendo que qualquer decisão sobre Julian deve ser pensada com cuidado.
Assim que ele sai, percebo Joseph vindo em minha direção. Ele não chega exatamente a me encarar, mas consigo sentir aquele ar irônico se acumulando ao redor dele.
— "Então, o que o Romeu veio fazer aqui?" ele pergunta, se inclinando casualmente na mesa ao meu lado.
— "Romeu?" rio, tentando disfarçar o nervosismo que sinto por dentro. — "Ele só veio fazer uma proposta de trabalho. Nada demais."
— "Ah, claro. Só uma ‘proposta de trabalho’." Joseph faz aspas no ar, e o tom dele não deixa dúvidas de que ele está adorando isso. — "E a Julieta tá considerando? Porque, se quiser voltar pra onde começou, é com ele mesmo que você devia estar."
A frase dele me pega de surpresa. E o pior é que ele diz isso com um meio sorriso, como se estivesse se divertindo às minhas custas. Isso me deixa irritada.
— "E o que exatamente você quer dizer com isso, Stive?" rebato, cruzando os braços.
— "Nada demais, só que você finalmente estava fazendo algo diferente aqui," ele diz, dando de ombros. — "Mas, sei lá, às vezes o pessoal gosta de repetir o passado."
— "Eu não tô repetindo nada. Só porque alguém faz uma proposta de trabalho, isso não significa que vou largar tudo e correr atrás de qualquer oferta," respondo, tentando manter a voz baixa, mas firme.
Joseph se aproxima um pouco mais, cruzando os braços e me encarando diretamente.
— "Sabe, Ayana, você pode fazer o que quiser. Só não entendo por que você daria ouvidos a alguém que já te prejudicou antes. Parece que você gosta de complicar as coisas."
— "Eu não preciso dos seus conselhos sobre quem eu deveria ouvir ou não, tá? A decisão é minha."
Ele solta uma risada curta, mas sem humor.
— "Se você diz… mas, sinceramente, parece que certas pessoas gostam de andar em círculos."
E, com isso, ele se afasta, deixando uma frustração enorme. Por que ele tem que se importar tanto? Ou melhor, por que eu me importo tanto com o que ele acha? Talvez ele só esteja sendo arrogante, como sempre, mas algo na maneira como ele reagiu me deixou mais confusa do que antes.
Mais tarde, na saída do escritório, Zau me encontra na recepção, toda animada.
— "Ei, amiga, você não sabe a novidade! Vamos comemorar hoje, eu e o Rafa decidimos que você não tem escolha."
— "Comemorar o quê? De onde você tirou essa ideia?" pergunto, meio distraída, ainda pensando na conversa com Julian e no comentário de Joseph.
Zau revira os olhos e me dá uma cotovelada leve.
— "Ah, Ayana, você precisa relaxar um pouco! Trabalha demais, fica pensando demais, e não vive nada."
Eu suspiro, e ela percebe que algo está me incomodando. Antes que eu consiga inventar uma desculpa, ela me puxa para sentar em um café ali perto.
— "Tá, agora me conta. Que cara é essa? Não me diga que o Stive aprontou alguma coisa de novo?"
Rio um pouco, porque Zau sempre pensa que tudo é culpa dele. Mas, ao invés de negar, resolvo desabafar.
— "Não foi exatamente o Stive, mas… ele teve que dar a opinião dele, claro. O Julian me chamou para trabalhar com ele em um projeto na área civil. Disse que admira meu trabalho, e que seria uma boa chance de mostrar o que sei. Só que…"
Zau ouve atentamente, e posso ver a preocupação no olhar dela.
— "Ayana, eu sei que você quer independência e mostrar seu valor, mas tem que pensar bem. Julian… ele já te bagunçou antes, e o Stive… bom, ele parece meio irritado com isso, né?"
Reviro os olhos, rindo um pouco.
— "Ah, Zau, o Joseph sempre tem que opinar em tudo que eu faço. Mas, sinceramente, você acha que ele se importa?"
Ela me encara por um segundo e dá de ombros.
— "Talvez ele se importe mais do que você acha. Mas deixa isso pra lá. E quanto ao Julian, só te digo uma coisa: ele é ótimo com palavras bonitas, mas pensa bem no que vai fazer."
Essas palavras ficam na minha mente, mesmo depois que Zau se despede e me deixa sozinha com meus pensamentos. O que faço agora? Aceitar a proposta do Julian seria uma mudança, uma forma de me distanciar de toda essa pressão com o Joseph, mas… será que estou pronta para enfrentar tudo de novo? E, por outro lado, o que realmente sinto quando vejo o Joseph me julgando assim? Talvez seja hora de eu mesma entender o que realmente quero.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 67
Comments