A água quente do chuveiro cai pelos meus ombros, relaxando meu corpo depois de um dia inteiro de caos no escritório. Fecho os olhos, deixo a cabeça cair para trás e respiro fundo, tentando mentalizar um jeito de escapar da próxima missão quase impossível: sair com a Zau. Sim, ela me arrastou pra mais uma noitada. Eu devia ter dito não. Mas quando me dei conta, ela já estava lá em casa, planejando a “produção da noite”, como se isso fosse a coisa mais importante do universo.
Do outro lado do banheiro, Zau canta alto alguma música pop nova, enquanto toma banho no segundo chuveiro. Ela está na maior animação, como sempre. Zau é aquele tipo que vive pra festa. Eu, claro, sou o completo oposto: devoradora de séries, rainha do pijama e do cobertor. Se fosse minha escolha, estaria agora com um chocolate quente, um filme e minhas pantufas de sempre. Mas Zau? Ela nunca aceita esse meu lado caseiro em paz.
— “Ayana, vamo lá! Se agiliza, mulher!” Ela grita, e eu dou um longo suspiro. Ela é uma força da natureza. Não adianta tentar argumentar.
Saio do chuveiro e encontro a Zau no meu quarto, já enrolada numa toalha, mexendo no celular com uma mão e revirando meu armário com a outra.
— “Qual é a pressa, Zau?” pergunto, secando o cabelo.
Ela me olha com aquele ar de “você não entende nada”.
— “Pressa? Miga, tem que se preparar emocionalmente pra essa noite! Você acha que é só chegar? É toda uma produção, minha filha!” Ela diz, ainda vasculhando minhas roupas. “E, pelo amor, me diz que você tem uma roupa que não seja... escritório.”
Dou de ombros e reviro os olhos.
— “Minhas roupas estão ótimas, obrigada.”
Ela solta um suspiro dramático.
— “Ayana, amiga, com todo o respeito: isso aqui tudo grita ‘advogada certinha’. Hoje você vai ser outra pessoa. Confia em mim.”
Vejo ela pegar uma peça que parece mais uma blusa de treino do que uma roupa de sair. Não sei como ela consegue transformar uma roupa normal em algo tão... revelador. Mas é a Zau. Nada é impossível pra ela.
— “Isso aqui vai ser perfeito. Confia,” ela diz, piscando.
Respiro fundo. Sinto que vou me arrepender, mas a essa altura, nem ligo mais.
Ela não demora pra transformar meu visual. Em minutos, estou de cabelo solto, maquiagem que nem sabia que podia usar e, claro, com uma blusa que parece menor do que eu esperava. Dou uma última olhada no espelho e... nem reconheço a pessoa ali. Sinto como se estivesse pronta pra uma festa de Carnaval, e não pra uma balada casual.
— “Pronto! Tá maravilhosa!” ela grita, e o brilho nos olhos dela é genuíno. Eu tento esconder o desconforto.
— “Tá um pouco... curto, você não acha?” digo, tentando ajeitar a roupa.
Ela balança a cabeça.
— “Nada disso. Hoje é noite pra mostrar que você tá aí pro mundo ver. Chega de esconder essa beleza toda.”
E antes que eu possa protestar, estamos descendo as escadas do prédio. Lá embaixo, vejo Rafael e o amigo dele, Eduardo, nos esperando ao lado de um carro. Rafael e eu... olha, não somos exatamente melhores amigos. Ele é namorado da Zau e tem aquele ar de quem acha que é o centro do universo. Sempre me pergunto o que ela vê nele, mas, enfim, o amor é cego, né?
Rafael apresenta Eduardo, que nos cumprimenta com um sorriso de canto. Ele é alto, tem uma jaqueta de couro e um jeito meio metido. Não gosto do tipo, mas faço um esforço pra ser educada. Entro no carro e tento me convencer de que a noite vai ser divertida.
A música toca alto assim que entramos no bar na Avenida São Francisco. É um lugar sofisticado, luzes neon piscando pra todos os lados e um DJ comandando a pista de dança com música eletrônica. O tipo de ambiente que faz a Zau se sentir em casa... e eu, bem... me sinto como se tivesse caído de paraquedas ali.
Zau, é claro, já tá dançando antes mesmo de pegar um drink. Ela é assim, uma festa ambulante. Rafael a acompanha, e, pra minha surpresa, Eduardo se senta ao meu lado, com aquele sorriso meio convencido.
— “Então, Ayana,” ele começa, me oferecendo um copo. “Veio só pra ficar sentada?”
Solto uma risadinha, tentando manter a calma.
— “Vim acompanhar minha amiga. Não sou muito do tipo ‘pista de dança’, sabe?”
Ele ri, mas seu olhar não é exatamente amigável. É daquele tipo que te olha de cima a baixo como se fosse uma análise.
— “Ah, que desperdício, uma mulher como você na balada só pra acompanhar amiga. Vai dançar um pouco, se solta!” diz ele, com um tom de voz que parece achar que o mundo todo gira em torno das ideias dele.
Seguro meu suco e dou um gole, tentando ignorá-lo. Ele continua tentando puxar assunto, com elogios óbvios e jogando charme de um jeito que só piora minha opinião dele. A verdade é que eu daria tudo pra estar longe dali.
Depois de mais umas tentativas falhas de me convencer a dançar, ele desiste e se junta ao grupo na pista. Suspiro aliviada, me acomodando no meu canto, com meu suco e a visão dos outros se divertindo. Zau, como sempre, tá totalmente no clima, dançando como se o mundo fosse acabar amanhã.
— “Ayana!” ela grita, vindo até mim e me puxando pra pista.
— “Zau, já falei que não sou boa de dança!” tento argumentar, mas ela já me arrasta pelo braço.
— “Você é boa de ser feliz, e é isso que importa!”
Acabo rindo, não por estar convencida, mas porque é impossível resistir à energia dela. Sabe quando você tá quase se divertindo mesmo contra a sua vontade? Pois é, esse é o poder da Zau.
Por alguns minutos, deixo de lado a advogada séria e me perco na música, rindo das besteiras que Zau fala e tentando me soltar um pouco. É estranho, mas por um momento, sinto que estou onde deveria estar. Rafael e Eduardo vêm dançar com a gente, e eu tento ignorar o olhar insistente de Eduardo, focando só na música e no fato de que estou aqui, com minha melhor amiga, vivendo algo que ela acha importante pra mim.
Quando a noite já vai longe, decido que preciso de um ar fresco. Digo pra Zau que vou pegar um pouco de ar e saio para a varanda. A brisa da noite é um alívio depois de tanto barulho e luz. Me encosto na grade, olhando a cidade e me perguntando como fui parar aqui, entre advogados e festas barulhentas, quando minha ideia de felicidade é tão mais simples.
De repente, ouço passos e vejo que Eduardo veio atrás de mim. Reviro os olhos, mas tento ser educada.
— “Festa demais pra você também?” pergunto, forçando um sorriso.
Ele dá um risinho e se aproxima.
— “Só queria aproveitar uma boa companhia. Sabe, você é diferente das outras meninas que eu conheço.”
Dou um sorriso educado, mas ele continua a se aproximar.
— “Você tem um charme que não precisa de esforço,” ele murmura, e sinto um incômodo.
— “Eduardo, vamos com calma, tá?” digo, tentando manter a firmeza.
Ele recua, mas o sorriso não desaparece.
— “Só tava elogiando, Ayana. Você não é do tipo que recebe elogios bem, né?”
Reviro os olhos.
— “Recebo, sim, quando vêm com respeito.”
Ele dá uma risada seca e finalmente desiste, voltando para a festa. Quando Zau aparece para ver como estou, dou um sorriso aliviado e digo que já estou pronta pra ir embora.
— “Ah, amiga, eu sei que balada não é muito tua praia, mas foi bom te ver se soltando um pouco,” ela diz, enquanto pegamos o caminho de volta.
Enquanto caminhamos de volta, percebo que, por mais que eu prefira a calma da minha rotina, às vezes é bom sair da zona de conforto. Mesmo que seja só pra confirmar o quanto amo meu mundinho tranquilo. E, com Zau ao meu lado, sempre sei que, se for pra sair, vou estar com a melhor companhia possível.
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Atualizado até capítulo 67
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