O som estridente do alarme ecoa pelo quarto, e acordo num sobressalto. O relógio marca 6h30, e eu já tô no limite do pânico. Tenho duas provas hoje, uma delas com a Dra. Eliane, que além de ser minha professora, é minha chefe no escritório. Como se isso não fosse suficiente pra alimentar meu desespero, também preciso entregar um relatório pra ela até o final do expediente. Nada como acordar já sentindo o peso do caos.
— "Puta merda, tô atrasada!" — resmungo pra mim mesma, lançando-me para fora da cama enquanto tento ignorar o coração disparado de ansiedade. Vou direto pro banheiro, mais pelo impulso do que pela lógica, e faço o banho mais rápido da minha vida. Nem sei por que ligo pra Zau nesses momentos, mas, inconscientemente, já a imagino me dizendo: “Isso, Ayana, foco. Lava o cabelo, mas sem firula.”
Envolta no vapor do chuveiro, minha mente tá num looping de desespero, relembrando tudo que preciso fazer. Saio correndo do banheiro e puxo a primeira roupa que encontro, nem verifico no espelho. Hoje, não tem tempo pra vaidade, só pra correr.
Quando passo pelo corredor em direção à cozinha, percebo que o quarto da Zau está impecável. Ah, claro. Não passou por aqui. Provavelmente, ela está com o Rafael ou numa de suas aventuras noturnas. Enquanto coloco o café pra esquentar, envio uma mensagem rápida pra ela: “Cadê você, loirinha?” Antes mesmo de pegar minha pasta, o celular vibra com uma chamada. Olho a tela e vejo o nome: Joseph Stive.
Justo ele? Respiro fundo e atendo, me preparando para o que quer que seja.
— "Cadê você, Montenegro? A prova começa em dez minutos," ele diz, com aquele tom meio provocador que sempre me tira do sério.
— "O quê?!" — Nem sei se solto um grito ou um suspiro exasperado. Meu cérebro só registra o pânico. Desligo na cara dele e pego a bolsa, saindo de casa feito um furacão.
O elevador parece uma eternidade. Então, respiro fundo e decido que hoje, vai ser escada. Desço correndo, dois degraus de cada vez, quase me desequilibrando, e já chego na calçada com um único pensamento: táxi. O metrô levaria tempo demais, e hoje, cada minuto conta.
Assim que entro no táxi, o motorista percebe minha pressa e me lança um olhar intrigado, mas nem ligo. Com o caderno de anotações na mão, tento revisar mentalmente os pontos mais importantes da prova. Mas minha mente, claro, insiste em me lembrar da pressão do dia, como se cada detalhe estivesse conspirando para tornar tudo mais difícil. Parece que o universo decidiu testar meus limites hoje.
Finalmente, a faculdade surge diante de mim, mas o tempo não foi nada generoso. Vou direto para o corredor da sala de prova e vejo o professor Elcio já distribuindo os enunciados. Respiro fundo e tento manter a calma.
— "Professor, por favor, só mais um minuto!" — peço, tentando soar convincente.
Elcio nem levanta a cabeça. Seu rosto é a expressão da indiferença e do rigor.
— "A regra é clara, Ayana. Quem chega atrasado não faz a prova," diz ele, com uma frieza que me faz querer gritar.
Conto até três, tentando manter a compostura. Conheço bem o professor Elcio e sua fama de ser inflexível. Já tive que lidar com a atitude impiedosa dele algumas vezes, e sei que argumentar seria perda de tempo. Levanto a cabeça, respiro fundo e dou meia-volta, sentindo um misto de frustração e derrota.
No pátio, encontro um banco vazio. Sento, deixando a adrenalina do atraso se dissipar, trocada por uma sensação amarga de resignação. Perder a prova da Dra. Eliane é um desastre, mas o que posso fazer? Fico ali alguns minutos, tentando colocar meus pensamentos no lugar, quando o celular vibra novamente. Olho para a tela e vejo um número desconhecido.
— "Alô?"
— "Oi, Ayana, é o Eduardo."
Eduardo? O cara da balada? Sinto uma leve exasperação se juntar ao estresse do momento.
— "Oi, Eduardo," respondo, sem entusiasmo.
— "Gostei muito de te conhecer. Pensei... talvez a gente pudesse sair hoje à noite?"
Solto um riso nervoso, meio involuntário. Sério? Justo agora?
— "Eduardo, você realmente acha que esse tipo de abordagem funciona? Porque, honestamente, tô tendo o pior dia da minha vida e… sua ligação não ajuda."
Ele fica em silêncio por um instante, como se estivesse ofendido.
— "Não imaginei que ligar pra te convidar seria tão... problemático."
— "Pois é, Eduardo. Sugiro que você repense o timing." — Desligo, sem paciência para mais conversa. Hoje, não tenho espaço pra insistências desnecessárias.
Quando o sino toca, anunciando o fim da prova, levanto-me com determinação. Meu próximo passo é tentar remarcar uma prova especial com a Dra. Eliane, se é que ela vai me permitir. No entanto, mal dou dois passos, e sinto alguém se aproximando. Viro o rosto e dou de cara com Joseph, com aquele sorrisinho que é uma mistura de ironia e provocação.
— "Então… você perdeu a prova?" — pergunta ele, como se estivesse genuinamente interessado.
— "Sim, Stive, e a última coisa que preciso agora é dos seus comentários," respondo, sem esconder a irritação.
Ele ergue uma sobrancelha, mantendo o tom descontraído.
— "Relaxa, vim te ajudar," diz ele, surpreendendo-me. "Achei que você pudesse precisar de uma mão com o relatório da Dra. Eliane."
Dou uma olhada de lado, tentando decifrar suas intenções. Joseph oferecendo ajuda é raro, então fico intrigada. Apesar da hesitação, sei que hoje realmente preciso.
— "Tá bom, aceito a ajuda," digo, resignada. Não é o momento de recusar apoio.
Ele esboça um sorriso, aquele de “sabia que você ia ceder”, e começa a caminhar em direção à saída. Sem alternativa, o acompanho. Pelo caminho, me pergunto qual será o próximo comentário sarcástico. Joseph tem o talento de me desestabilizar, Mas às vezes sinto que ele enxerga algo em mim que nem eu mesma vejo.
Quando chegamos ao táxi, ele se acomoda tranquilamente no assento, como se estivesse em um passeio despreocupado. Por um segundo, me pego observando-o. Ele parece tão seguro, tão centrado, até mesmo relaxado, enquanto eu estou uma pilha de nervos.
— "Tá me encarando por quê?" — ele pergunta, com um sorriso de canto, sem desviar o olhar.
Desvio o rosto, sentindo as bochechas esquentarem.
— "Só pensando na correria do dia, Stive. Nem se preocupe."
Ele solta uma risada baixa, um som que é irritantemente confortável, como se estivesse se divertindo com o meu estresse. O caminho até o escritório segue em silêncio, e, de certa forma, a presença dele me acalma, embora eu jamais admitiria isso em voz alta.
Quando chegamos, subimos para a sala de conferências onde trabalhamos, e ele se senta ao meu lado, abrindo o notebook.
— "Beleza, o que cê precisa pro relatório?" — ele pergunta, assumindo um tom sério que é quase inesperado.
Respiro fundo e tento focar no que realmente preciso fazer, deixando a presença dele me dar um suporte. Começamos a revisar o material, e percebo que ele realmente está empenhado em me ajudar, o que me faz admirá-lo ainda mais. Joseph não é o tipo de pessoa que ajuda por conveniência; ele tem seus próprios motivos, e hoje, está aqui. Isso, pra mim, já é o suficiente.
Depois de uma hora de trabalho intenso, ele olha pra mim e diz:
— "Acho que isso cobre tudo. Dra. Eliane não vai ter do que reclamar."
Sorrio, sentindo uma onda de gratidão.
— "Obrigada, Joseph. Eu realmente não conseguiria sem você hoje."
Ele me encara por um segundo, e percebo uma suavidade em seu olhar que normalmente está escondida.
— "Relaxa, Montenegro. A gente sabe quando precisa dar um apoio."
Ficamos em silêncio por um instante, e de repente, percebo o quanto ele me faz bem, mesmo quando estou no limite do estresse. Ele é um paradoxo: o amigo provocador que, ao mesmo tempo, sabe exatamente como me acalmar.
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Atualizado até capítulo 67
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