Depois de semanas atolada de trabalho na firma, pensei que finalmente teria um respiro. Ah, mas em Valeriam, paz é um luxo caro, e meu bolso anda vazio. Primeiro, Joseph Stive some justo na semana em que temos uma tonelada de relatórios e documentos urgentes pra revisar. E pra variar, quem ficou com o trabalho dele? Eu, claro. Ele devia estar por aí, jogando basquete e posando de herói relaxado, enquanto eu toco o barco e faço malabarismo com os prazos.
Mas, como desgraça pouca é bobagem, Julian Lopes, o ex — sim, o meu "Cachorro Molhado" — resolveu dar o ar da graça. Desde que esbarrei com ele na rua da firma, o cara parece decidido a reviver o passado. E quando eu digo "reviver", é no pacote completo: mensagem fora de hora, conversinha mole sobre “os bons tempos” e até flores enviadas pra minha casa. Quem ele pensa que é? Como se meia dúzia de flores apagassem promessas vazias e sumiços que ele nunca explicou. Esse lance de “lembrar o passado” só reforça que preciso manter distância dele, porque um passo em falso, e ele toma isso como um convite pra ficar.
E hoje o dia já estava puxado o suficiente. Ainda processando a última audiência, vejo que a temida Eliane está me chamando. Ela tá lá, parada, com aquele olhar que atravessa até a alma e um tom que nem deixa espaço pra discussão.
— "Montenegro, um minuto, por favor,” diz ela, com a voz autoritária de sempre.
Reviro os olhos (por dentro, claro) e vou até a sala dela, fingindo calma, mas sentindo que essa conversa vai além de qualquer elogio. Entro, e Eliane fecha a porta, cruzando os braços e me encarando com aquele jeito dela que faz qualquer um se sentir no tribunal.
— "Montenegro, o que houve com o Stive? Ele tira uma folga e todo o trabalho cai nas suas costas?”
Engulo em seco. A irritação fervendo e eu tentando ser profissional.
— "Ele precisou de uma folga depois do julgamento. Achei que eu poderia assumir o trabalho pra garantir que tudo fosse entregue.”
Eliane me encara, o cenho franzido como se soubesse que não era bem assim.
— "Ayana, preste atenção: nunca se sobrecarregue pelos excessos dos outros. Só aceite o que valer pro seu próprio crescimento. Não desperdice seu potencial."
Assinto, mantendo o profissionalismo, mas com a irritação em ponto de ebulição. Não bastava Joseph me largar na mão? Agora, até minha chefe acha que estou sendo “boazinha” demais. No fim, quando saio da sala, já decidi: hoje eu ia esquecer um pouco da firma, desligar a cabeça e me dar uma folga mental.
Vou direto pro apartamento, troco de roupa e sigo pra faculdade onde Zau e eu combinamos de fazer uma pesquisa rápida antes de encontrarmos as meninas na cantina. Só que, ao entrar na biblioteca, dou de cara com uma figura que já me tira qualquer chance de sossego: Julian. É, o Cachorro Molhado em pessoa. Ele tá lá, todo casual, com aquele sorriso de lado e uma cara que eu conheço bem demais — uma mistura de remorso e charme que ele acha que vai resolver tudo.
Ele se aproxima e solta logo o elogio, já decorado.
— "Ayana, você sempre tão dedicada. Isso sempre me impressionou em você, sabia?”
— "Ah, Julian. Sempre com uma frase pronta, né? E sempre aparecendo no pior momento possível.”
Ele finge que não escutou e continua sorrindo, enfiando as mãos nos bolsos do jeans e tentando agir como se tudo estivesse normal entre a gente.
— "Eu só queria conversar, Yana. Lembrar dos bons tempos, sabe?”
Reviro os olhos. Como se eu quisesse lembrar de qualquer “bom tempo” com ele, logo agora que estou lutando feito uma doida pra construir minha própria vida. Mas respiro fundo e tento manter a compostura.
— "Julian, os velhos tempos ficaram onde deviam: no passado. Agora, minha vida tá cheia de coisas reais, e não tenho tempo pra ficção nostálgica.”
Ele me olha, com uma expressão meio surpresa e meio triste, mas não desiste.
— "É assim então? Só trabalho e mais trabalho? Não sobra espaço pra um pouco de... amor?”
É sério isso? Meus nervos já estão à flor da pele, mas dou meu melhor pra não explodir.
— "O que eu faço agora é por mim e pela minha família, Julian. Preciso de alguém que entenda e respeite isso. Alguém que me respeite, e não ache que eu vou largar tudo pra satisfazer os caprichos de outra pessoa.”
Ele abaixa a cabeça, e pela primeira vez, vejo que aquele sorriso sem vergonha some.
— "Mas você nunca fala da sua família, Yana. Sempre achei que era só você e Anaya. Será que tudo isso é só uma desculpa pra fugir?”
Fugir? Eu? Eu passo a vida lutando contra meu passado, me superando a cada dia, e ele acha que estou fugindo?
— "Olha, Julian, minha vida não é um quebra-cabeça pra você resolver. Eu tenho uma família, sim, e as coisas que eu faço aqui vão muito além do que você pode entender.”
Eu pego meus livros e deixo ele ali. Sei que ele ainda quer falar mais, mas essa conversa acabou. Saio da biblioteca misturando alívio e irritação. Julian nunca entendeu nada da minha vida, e não vai ser agora que vai começar a entender.
Quando chego na cantina, encontro Zau sentada, já com um café na mão e me olhando com uma expressão divertida.
— "O que foi, amiga? Você tá com uma cara de quem viu fantasma,” ela brinca.
— "Pior. Encontrei o Julian na biblioteca,” digo, soltando um suspiro.
Zau levanta as sobrancelhas, visivelmente interessada.
— "E o que ele queria agora? Não tinha desistido ainda?”
— "Ah, ele queria ‘relembrar os velhos tempos’. Como se tivesse o direito de entrar e sair da minha vida quando quisesse.”
Ela balança a cabeça, segurando o riso.
— "E você cortou ele, né?”
Assinto, pegando meu café e suspirando fundo.
— "Cortei, mas ele disse uma coisa que ficou na minha cabeça. Perguntou sobre minha família. Sobre o porquê de eu nunca falar dela.”
Zau me observa, e vejo que ela está pronta pra ouvir. E talvez seja mesmo a hora de abrir essa parte da minha vida.
— "Sabe, Zau, acho que nunca te falei da Suraya, minha irmã mais velha.”
Ela me olha curiosa.
— "Suraya! Aquela chamada de A Viúva do Magnata?”
Respiro fundo concordo com a cabeça, tentando organizar tudo na cabeça.
— "Essa mesma... Suraya se sacrificou por nós. Nosso pai... ele afundou a fazenda em dívidas de jogo. Teve uma aposta... a última e a mais desgraçada. Ele perdeu tudo que tínhamos. Pra salvar a fazenda, Suraya teve que casar com o homem que comprou nossa dívida. Um desgraçado chamado Fonseca Abreu.”
A expressão de Zau muda, ficando séria.
— "Caramba, Ayana. E o que aconteceu?”
— "Aconteceu que, aindo bem nevinha, ela foi ‘vendida’ num casamento. Minha mãe adoeceu e morreu pouco tempo depois. Anaya ficou responsável por tudo, mas nunca mais vimos Suraya... até que, anos depois, Anaya me contou que ela foi acusada de matar o próprio marido. O Fonseca era um magnata, cheio de dinheiro e influência. Dizem que ela é a ‘Viúva Negra’. Pra mim, ela é minha irmã.”
Zau fica em silêncio por um momento, absorvendo tudo.
—"Nossa, Yana, me lembro de ouvir isso pelas mídias! Agora entendo sua dedicação. Você não tá só lutando por você.”
Assinto, sentindo o alívio de finalmente compartilhar essa parte da minha história.
— "Exato. Eu tenho uma irmã pra resgatar e um nome pra honrar. Só consigo fazer isso vencendo aqui.”
Zau me puxa pra um abraço apertado.
— "E você vai vencer, amiga. Isso tudo só vai te tornar mais forte.”
Nosso momento é breve, mas entre sorrisos e um abraço amigo, sinto que, com apoio e determinação, ainda tenho força pra encarar tudo que vier.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 67
Comments