O sol nascia preguiçoso entre os prédios altos de Valeriam, tingindo o céu de tons alaranjados e dourados. Ainda era cedo, mas eu já estava de pé. Quatro anos longe da fazenda não foram suficientes pra me livrar do hábito de madrugar. Eu sabia que Valeriam era diferente, uma cidade que nunca dormia de verdade, mas que guardava um silêncio quase misterioso nas primeiras horas do dia. E era nesse silêncio que, hoje, eu me sentia mais imersa nos meus próprios pensamentos.
Encostada na pia do banheiro, prendo o cabelo e encaro meu reflexo. Aos 24 anos, já vivi coisas que me transformaram de formas que eu nunca imaginaria. Os anos em Valeriam me endureceram, me deram um tipo de força diferente. Mas, ao mesmo tempo, essa cidade também trouxe muitas memórias e encontros inesperados, como os de ontem.
A noite passada no Oásis Urbano ainda tava fresca na minha mente. Eu tava ali só pra rir com as meninas, tomar uns mojitos e esquecer do estresse do estágio e da faculdade, mas a aparição de Julian virou a noite de cabeça pra baixo. Ainda me pego revivendo o momento em que ele cruzou a porta do bar, aquele mesmo jeito de quem já acha que sabe tudo. Eu não via Julian desde o término, e foi estranho. Ele parecia igual, e ao mesmo tempo… diferente. Mais sério, talvez, mas sempre com aquela mesma intensidade.
— Yana, — murmuro pro espelho, meio que dando uma bronca em mim mesma. — Para com isso, vai. Isso já passou.
Tento me concentrar, mas meu cérebro me trai com flashes do passado. O primeiro ano de faculdade, as saídas com Julian, as conversas sobre Direito e as vezes que a gente virava a noite revisando casos fictícios só pra debater depois. No começo, eu achei que tinha encontrado alguém que entendia meu mundo, minha ambição, mas depois ficou claro que ele queria outra coisa. Ele queria uma Ayana diferente, talvez mais maleável, menos… teimosa. No final, percebi que eu queria alguém que me entendesse de verdade, não só alguém que me admirasse de longe, mas ele nunca foi esse cara.
Desvio o olhar do espelho e desligo a torneira, decidindo que já pensei demais. Saio do banheiro, enrolada na toalha, cantarolando baixinho pra espantar esses pensamentos. Zau ainda tá jogada na cama, dormindo profundamente, com o cobertor embolado e um dos pés pra fora, o que sempre me faz rir.
— Zau, bora acordar, menina! Tá na hora! — brinco, puxando o lençol de leve.
Ela só resmunga algo incompreensível, com a cara amassada e o cabelo todo bagunçado.
— Yana, sério? Ainda são cinco e meia. Dormir nunca é uma opção pra você?
— Não são cinco e meia, são seis e meia. Levanta daí!
Ela finalmente abre os olhos e se espreguiça com aquela preguiça preguiçosa que só a Zau tem, arrastando os pés até o banheiro. Sempre leve, sempre com uma piada na ponta da língua, ela é o oposto de mim, e talvez seja isso que torna nossa amizade tão natural.
Enquanto ela se arruma, troco de roupa e começo a organizar mentalmente o dia. Entre aulas, o estágio com Eliane Morgan e o projeto do tribunal simulado que preciso apresentar pra Elcio, sei que a quarta-feira vai ser longa. Mas esse ritmo frenético tem seu lado bom. Me distrai dos pensamentos sobre Julian, sobre Belo Monte, e sobre o estranho sentimento que me envolveu quando recebi aquela mensagem da minha irmã, Anaya.
A Zau sai do banheiro enrolada na toalha, com aquele jeito de quem não leva nada muito a sério, piscando pra mim como se tivesse acabado de ganhar um prêmio.
— E aí, fui rápida, né?
— Você só se molhou, Zau.
Ela ri, e descemos pro metrô, que, como sempre, já tá cheio, mesmo no início da manhã. Caminhamos pelas ruas ainda tranquilas, e enquanto andamos, meu celular vibra. Uma chamada. Olho o visor e, por um instante, fico parada. “Cachorro Molhado”. Esse é o nome que coloquei pro Julian depois que terminamos.
— Ah, não. Justo agora, — murmuro, sentindo um misto de irritação e surpresa.
— Ué, quem é esse “cachorro molhado”? — Zau pergunta, espiando a tela do meu celular com um sorriso curioso.
Reviro os olhos e mostro o nome sem muito entusiasmo. Zau cai na risada, obviamente adorando O apelido.
— Nossa, perfeita a descrição! Por que você colocou esse nome?
— É meio bobo, mas, sabe quando a pessoa te olha com aquela cara de “por que você fez isso comigo?” depois que termina? O Julian é tipo isso. Sempre faz aquele olhar de cachorro molhado quando lembra do término. Toda vez que ele tenta falar comigo é uma desculpa, um “ei, precisamos nos ver” pra resolver “coisas pendentes”.
— Ixi, então atende e resolve logo essas “pendências” que esse cachorro molhado acha que vocês ainda têm, — Zau brinca, dando de ombros.
Olho pro telefone, e decido não atender. Não quero arriscar reviver conversas que já tiveram fim. Enfio o celular no bolso e sigo andando. De vez em quando, eu vejo ele pelo campus, e sempre trocamos um aceno breve. Eu sou educada, ele finge que não tá tentando me impressionar. Melhor deixar as coisas assim.
Zau desce na estação dela, e sigo sozinha pro campus. Chego na faculdade com a cabeça um pouco menos cheia, e me preparo para a aula com o professor Elcio. Entre os rostos conhecidos, avisto o Joseph no fundo da sala, me observando com aquele sorriso presunçoso de sempre. Ele tem o dom de aparecer quando minha paciência já tá baixa.
— Yana, parece que dormiu na biblioteca de novo. Esse ar sério tá mais pesado do que o normal, — ele provoca, com um sorrisinho.
Respiro fundo e decido ignorar, focando na aula de Direito Civil, minha favorita. A professora Luzia tá discutindo um caso complicado, e eu me concentro, apresentando meus argumentos com a firmeza que sei que ela espera de mim.
— Excelente, Ayana. Continue assim, — ela comenta ao final, e sinto um alívio.
A turma começa a dispersar, e o celular vibra de novo. Desta vez, é uma mensagem da minha irmã, Anaya: “Preciso falar com você, mana. Assim que puder, me liga.”
O estômago dá um nó, e minha cabeça já dispara a mil. Anaya não manda mensagem se não for algo importante, e fico preocupada. Mas antes que eu consiga ligar, Joseph aparece do nada.
— Montenegro, são onze e meia. Tá pronta pra impressionar a Eliane hoje?
— Sempre pronta, Stive. E você?
— Eu nasci pronto.
Reviro os olhos e começo a guardar meu material, mas meu cérebro ainda tá preso na mensagem da Anaya. Será que algo ruim aconteceu? A gente não se fala com frequência, mas, mesmo longe, minha irmã sempre foi meu porto seguro. Tento deixar esse pensamento de lado enquanto sigo pro escritório da Eliane.
Chegamos ao prédio da MST & Associados, e a presença imponente da Eliane já me faz esquecer tudo. Ela tá à nossa espera com o olhar analítico de sempre, avaliando cada detalhe. Ao lado dela, Joseph também assume um ar sério, e, pela primeira vez, sinto que estamos sincronizados. Podíamos ser rivais, mas ali, na frente da Eliane, éramos uma equipe.
Ela nos conduz pra sala de reuniões, e meu foco finalmente se alinha ao presente.
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Atualizado até capítulo 67
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