A manhã foi inteira dedicada ao caso da Duvall. Eu e Joseph trabalhamos sem parar, cruzando dados, revendo contratos, e tentando encontrar brechas que pudessem derrubar a empresa. Essa parceria inesperada estava rendendo frutos. Por mais que eu tentasse resistir, não tinha como negar: o Joseph era um adversário à altura. Rápido, sagaz, e — mesmo com aquele sarcasmo irritante — entendia do que falava.
Mas o descanso forçado chegou na tarde, e não porque eu queria. Era hora de encarar Direito Processual Penal com o professor Elcio. Ele transforma cada aula em um tribunal simulado, colocando a gente pra atuar como advogados de casos complexos. Hoje, eu teria que enfrentar, mais uma vez, meu oponente de sempre: Joseph Stive.
Assim que entramos na sala, Elcio já estava terminando os preparativos. A turma toda sabia que haveria um confronto entre mim e Joseph, e a empolgação era visível. Cada um de nós assumiria um lado de um caso de homicídio complicado, daqueles cheios de nuances. Joseph, claro, ficou com a defesa, enquanto eu assumi a acusação. E, como sempre, ele não perdeu a chance de me provocar.
— Se prepara, Montenegro — ele diz, ajeitando a gravata e com aquele sorrisinho de quem já sabe o final. — Hoje não vai ser fácil me derrubar.
— Nem precisa me avisar, Stive — rebato, com um olhar de desafio. — Já tô acostumada a te colocar no chão.
Ele ri, achando graça. Eu, por outro lado, ignoro e volto para minhas anotações, tentando construir a linha de acusação mais sólida que consigo. O caso é cheio de variáveis e poderia pender pra qualquer lado, mas estou confiante de que posso vencer.
Quando o Elcio dá início à simulação, o ambiente fica tenso. Eu abro o caso com uma introdução direta e contundente, tentando prender a atenção do “júri” (a turma). Em seguida, apresento a primeira evidência: um conjunto de provas circunstanciais que liga o réu à cena do crime.
— Excelência, senhoras e senhores do júri — começo, me levantando e olhando fixamente para a sala. — O acusado tinha acesso ao local e um motivo claro. Temos registros das mensagens ameaçadoras que ele enviou à vítima na semana anterior ao crime, e testemunhas o viram nas proximidades da cena na noite do ocorrido. Não são meras coincidências. Esse conjunto de evidências aponta claramente para um crime premeditado.
Faço uma pausa e deixo as palavras ressoarem. Em um julgamento real, a pausa certa pode fazer o júri sentir o peso do caso.
Mas Joseph se levanta com calma, ajeitando os papéis. O sorriso provocador dá lugar a uma expressão séria. Ele começa com uma defesa calculada, puxando uma série de contra-argumentos com habilidade.
— Excelência, membros do júri — ele inicia, sua voz firme e calculada. — A promotoria baseia sua acusação em provas circunstanciais. Mas, como todos sabemos, a presença nas proximidades do local e a troca de mensagens, por si só, não são suficientes para condenar alguém. Todos nós já trocamos mensagens acaloradas em momentos de raiva. Isso não prova a intenção de matar.
Ele se volta para mim com um olhar de desafio e, então, apresenta uma testemunha da defesa: uma vizinha que, segundo ele, teria visto o acusado no dia anterior ao crime em outra cidade, o que enfraquece minha tese de premeditação.
— De acordo com o testemunho de Dona Vera, o acusado estava a quilômetros de distância da cena um dia antes do ocorrido. Senhora Vera é uma vizinha com quem ele convive há anos, e que não tem motivos para mentir sobre o paradeiro dele.
Percebo que ele joga uma isca. É uma tentativa de reduzir a confiança na premeditação. Mas não perco o foco. Assim que ele termina, tomo a palavra.
— Excelência, com todo respeito, a testemunha da defesa não elimina o fato de que o réu foi visto nas proximidades na noite do crime. Estamos falando de provas consistentes de um comportamento ameaçador e de um álibi que é, no mínimo, inconsistente. A própria defesa admite que houve mensagens ameaçadoras — aponto para o júri, reforçando minha linha de raciocínio. — Além disso, o histórico de conflitos entre réu e vítima já indicam a predisposição para a violência.
A expressão no rosto de Joseph se endurece por um instante, e ele se aproxima, abrindo outro documento. Não demora a dar o troco.
— Excelência, senhoras e senhores, estamos aqui para estabelecer a dúvida razoável. A promotoria se apoia em uma série de hipóteses, mas hipóteses não bastam para condenar alguém. Até agora, não vimos nenhuma evidência direta de que meu cliente tenha, de fato, cometido o crime. A defesa solicita que todas as evidências sejam analisadas sem o filtro das suposições.
Os olhos dele voltam para mim, desafiando. Sei que a ausência de provas diretas é uma falha no meu caso, mas decido arriscar e pressionar mais um ponto.
— Excelência, o júri precisa entender que uma condenação nem sempre exige uma evidência direta quando temos um conjunto de provas circunstanciais robusto. É o conjunto dessas provas que torna a culpa do réu evidente. Temos uma série de ameaças, um histórico de conflitos e a presença dele na cena do crime na mesma noite. O que mais seria necessário para provar a intenção?
A sala fica em silêncio. O “júri” está completamente envolvido, e vejo Júlio e Natália na primeira fila trocando olhares de surpresa com cada argumento. Joseph se aproxima para o contra-ataque final.
— Montenegro, há uma coisa que você parece ignorar: direito penal não se baseia em achismos. — Ele se vira para o júri e aponta para os documentos. — A promotoria tenta fazer conexões sem provas concretas. Intenção não é o mesmo que ação, e até que isso fique claro, não podemos deixar que meu cliente pague por um crime que ele pode não ter cometido.
Cada argumento parece um golpe, e a turma está hipnotizada. A tensão entre nós dois é evidente, e, ao final da simulação, quando o professor Elcio finalmente encerra o tribunal, tenho certeza de que dei tudo de mim. Joseph também sabe disso.
— Parabéns, Ayana — Elcio diz, enquanto a turma aplaude. — Sua argumentação foi convincente e cheia de nuances. E Joseph, sua defesa foi sólida e estratégica. Ambos mostraram por que estão entre os melhores da turma.
Receber elogios do professor Elcio é raro. Apesar do cansaço, sorrio, satisfeita. Venci mais uma vez, mas sei que Joseph não vai deixar isso quieto.
Assim que saímos da sala, vou direto pra cantina com Júlio e Natália. Peço um café forte e desabo na cadeira. Eles começam a conversar sobre a monografia do próximo ano, mas minha cabeça ainda tá na simulação. Sei que deveria estar pensando no trabalho de conclusão, mas, sinceramente, tudo que quero é descansar um pouco.
— E aí, Ayana, já escolheu o tema da sua monografia? — pergunta Júlio, tomando um gole de café.
— Tô pensando em algo sobre violência de gênero no sistema penal, algo com impacto social — respondo, mexendo no meu café, ainda meio aérea.
— Ah, tem tudo a ver com você! — Natália sorri. — Sempre lidando com os temas mais complexos.
Retribuo o sorriso, mas minha atenção escapa para o Joseph, algumas mesas adiante, cercado por umas garotas da turma. É irritante como ele consegue ser... popular. Toda vez que olho, tem alguém diferente ao lado dele. E o pior? Ele tá sempre tão à vontade, tão confiante. Me incomoda mais do que eu gostaria de admitir.
— Olha só o Joseph, sempre cercado de gente — comento, sem disfarçar o tom irritado.
Júlio e Natália seguem meu olhar e caem na risada.
— Típico dele, né? Todo metido a galã. Mas, fala aí, Ayana, você não acha ele charmoso? — Natália pergunta, com um sorriso maroto.
— Eu? Charmoso? O Joseph? — quase engasgo com o café. — Só se for no conceito dele. Ele é... irritante.
— Sei... — Júlio ri, arqueando as sobrancelhas. — Inimigos mortais que se enfrentam em sala. A tensão entre vocês dois é digna de novela.
Reviro os olhos, sem paciência pra insinuações. Antes que eu possa responder, percebo que o Joseph tá vindo na nossa direção. Justo quando eu tava evitando outra interação com ele.
— Montenegro! — ele diz, com aquele sorriso que me tira do sério. — Parabéns pela atuação. Foi... surpreendente.
Tento manter
a calma, mesmo sem precisar da aprovação dele.
— Valeu, Joseph. Sua defesa também foi sólida — digo, mantendo o tom profissional.
Ele cruza os braços, me encarando com aquele olhar de quem gosta de jogar provocações.
— Mas saiba de uma coisa — ele continua, com os olhos brilhando em desafio. — Hoje, eu deixei você ganhar.
Eu dou uma risada seca.
— Ah, claro. Porque é óbvio que eu nunca poderia ganhar de você por mérito, né?
Ele ergue as mãos, como se se rendesse, mas o sorriso persiste.
— Só tô dizendo que, se eu quisesse, o resultado seria outro. Mas, como sou generoso, deixei você brilhar um pouco.
Meus amigos tão se segurando pra não rir, enquanto meu rosto esquenta de raiva.
— Joseph, você vive nesse mundinho onde acha que pode tudo, né? Só pra constar, eu não preciso de presente de ninguém. Se eu ganhei, foi porque sou boa no que faço. E você sabe disso.
Ele me encara por um segundo, e então dá uma risada baixa.
— Gosto dessa sua confiança, Montenegro. Mas um dia, quem sabe, você vai ver que eu não sou tão ruim.
Dizendo isso, ele sai, me deixando ainda mais irritada.
— Ayana... — Júlio começa, rindo. — Você realmente não gosta dele, né?
— Não é questão de gostar ou não, Júlio. Ele simplesmente me tira do sério. Não sei como consegue ser tão arrogante e ainda achar que tá certo.
— Talvez ele só queira sua atenção — Natália provoca, com um sorriso.
— Se é isso, ele tá indo pelo pior caminho — respondo, tomando o último gole do café e me levantando. — Vamos mudar de assunto. Precisamos decidir o tema da monografia.
Mas, no fundo, sei que o embate entre eu e Joseph ainda vai longe.
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Atualizado até capítulo 67
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