Capítulo 13: O Peso da Verdade

Naquela tarde, o escritório parecia ainda mais silencioso que o normal, quase sufocante. O tipo de silêncio que traz junto um peso que gruda na pele, sabe? Era só eu e aquele monte de papel espalhado pela mesa. Era pra ser só mais uma revisão, mais uma tarefa daquelas que a gente faz no piloto automático, mas... a cada página que eu folheava, uma sensação estranha crescia. Tipo quando você sente que tem alguma coisa errada, mas ainda não sabe o quê. Só sabe que não vai gostar do que vai encontrar.

Joseph tinha dado o cano mais uma vez, deixando tudo nas minhas mãos. “Fazer o quê, né?”, pensei. Já estava acostumada a isso. Ele é desses que aparece na hora de colher os louros, mas some quando o bicho pega. "Ah, se ele ao menos soubesse...", murmurei, sem saber se estava falando comigo mesma ou tentando aliviar a frustração.

E ali, no meio daquele monte de contratos, transferências bancárias e e-mails sem pé nem cabeça, um nome chamou minha atenção. Não era um nome qualquer, e quanto mais eu lia, mais aquilo parecia suspeito. Era alguém com quem o escritório tinha uma relação de anos, um desses aliados que todos veem como intocáveis. Mas ali, em preto e branco, apareciam transações estranhas, reuniões que nunca foram registradas, valores que não batiam. Me senti como se tivesse tropeçado em uma porta entreaberta, que mostrava algo que eu não deveria ver.

Um arrepio correu pela espinha. Aquela sensação de que, se eu continuasse, ia acabar descobrindo alguma coisa que talvez mudasse tudo. Parecia loucura, mas era como se uma parte de mim quisesse largar tudo e sair correndo; a outra parte, a que não sabe deixar uma pulga atrás da orelha, só queria ir mais fundo.

“É só mais um trabalho, Ayana. Faz o que te mandaram e segue em frente”, eu tentei me convencer. Mas aquela voz na minha cabeça era fraca. Cada linha que eu lia me fazia pensar na Suraya. Minha irmã estava presa por um erro que nem era dela, presa em um sistema que, claramente, não liga pra quem está em desvantagem. E eu aqui, de frente pra uma possível evidência de que o próprio escritório pra quem eu trabalhava compactuava com essas jogadas sujas? Aquilo doía, me deixava indignada.

E no meio de tudo isso, me vi andando direto para a mesa do Joseph, determinada a ter uma segunda opinião — ou pelo menos uma confirmação de que eu não estava ficando louca. Assim que ele chegou do almoço, com aquele jeito relaxado, malandro, já fui logo abrindo o jogo.

— “Stive, tenho uma coisa importante pra te mostrar,” eu disse, sem rodeios, colocando o contrato bem debaixo do nariz dele. Ele olhou para o papel, e por um segundo pensei que ele também ia achar aquilo preocupante. Mas ele só deu uma risadinha.

— “Ah, Montenegro... você ainda não aprendeu que certas coisas é melhor deixar quieto?” disse ele, dando aquele sorrisinho debochado.

Senti o sangue ferver.

— “Você tá falando sério, Joseph? Você tá me dizendo que devo fechar os olhos pra isso?” Eu nem acreditava que estava tendo essa conversa. “Isso é sério. É crime! Não dá pra simplesmente ignorar.”

Ele só deu de ombros.

— “Você ainda é nova nisso, Ayana. Nem tudo na advocacia é tão preto no branco. Às vezes, a melhor coisa que você faz por você mesma é seguir em frente.”

Meu estômago revirava. Como ele podia ser tão frio, tão indiferente? *E é com esse tipo de gente que eu trabalho?*, pensei. Até tentei manter a calma, mas a indignação era evidente.

— “Sabe, Joseph, é fácil falar isso quando você nunca sentiu na pele o que é uma injustiça. Eu já senti, minha irmã tá sentindo. E eu não vou fingir que não vi isso aqui.”

Ele olhou pra mim, como se eu fosse uma garotinha ingênua. “Nem tudo é o que parece, Ayana. Às vezes, o que parece ser justiça só vai trazer problema. Só estou dizendo... não te mete onde você não sabe o que está pisando.”

Aquela conversa não ia pra lugar nenhum, então me virei e voltei pra minha mesa, com o peito cheio de raiva e frustração. Tudo o que eu sentia era uma mistura de revolta e impotência. Se até as pessoas em quem eu supostamente devia confiar pensavam assim, então, quem estaria do meu lado?

Foi quando, quase num impulso, peguei o celular e disquei um número que estava ali há meses. Era de um investigador, Daniel Ferraz, que minha amiga Anaya havia me indicado quando cheguei em Valeriam. Ele tinha fama de ser discreto e de não fazer muitas perguntas. Alguém que eu precisava nesse momento.

— “Sr. Ferraz, sou eu, Ayana Montenegro. Acho que preciso da sua ajuda... é sobre a Suraya.”

Pouco depois, combinamos de nos encontrar numa cafeteria discreta. Quando cheguei, ele já estava lá, me esperando. A expressão no rosto dele era séria, e o volume da pasta ao seu lado me deixou ainda mais ansiosa.

— “Montenegro,” ele disse, acenando com a cabeça. “Preciso te contar que a situação dela vai muito além do que imaginávamos.”

Sentei-me, tentando esconder o nervosismo. Ele abriu a pasta e começou a espalhar documentos na mesa. Era um verdadeiro quebra-cabeça, e em cada peça eu reconhecia um nome, uma empresa, figuras políticas que eu conhecia das manchetes de jornal. Meu coração parecia bater na garganta.

— “Sua irmã caiu nas mãos de uma rede poderosa,” ele disse, em voz baixa. “Isso é muito maior do que um simples erro jurídico. Há um grupo que a gente chama de ‘Ordem das Sombras’. Eles controlam coisas no oculto, manipulando tribunais, políticos, tudo o que você possa imaginar, pra proteger interesses milionários.”

Fiquei ali, paralisada, tentando processar aquilo. Era como se tudo ao redor estivesse embaçado. *Ordem das Sombras?* Aquilo parecia coisa de filme, mas era minha realidade, e a realidade da minha irmã.

— “Então... você está me dizendo que prenderam ela de propósito? Que... todo esse tempo, ela foi só um peão pra essas pessoas?”

Ele assentiu, olhando ao redor como se procurasse alguém nos observando. “Eles têm tentáculos em todo lugar, Ayana. Gente influente, que não hesita em calar quem tenta se intrometer. Suraya incomodou as pessoas erradas. E eu... eu mesmo já recebi ameaças por causa dessa investigação.”

Meu estômago parecia dar voltas. A cada palavra que ele dizia, minha raiva aumentava. “Como ninguém fez nada até agora? Por que ninguém denunciou?”

Ferraz me olhou com aquele olhar cansado, um olhar de quem já viu muito. “Porque a maioria das pessoas, Ayana, prefere ficar na segurança do que já conhece. Ninguém quer mexer com isso. É um preço alto demais.”

E então, como um soco no estômago, lembrei das palavras de Joseph: Às vezes, é melhor não saber de tudo. Na hora, me parecia uma desculpa covarde, mas agora... era como se aquela frase fizesse um sentido cruel.

— “E você vai continuar com essa investigação? Ou vai desistir também?” perguntei, quase desafiando ele.

Ele sorriu de lado, com um ar sério, mas determinado. “Eu vou até onde der, Montenegro. Mas eu preciso de aliados. Se você quer a verdade, precisa decidir o quanto está disposta a arriscar.”

As palavras dele ecoaram como um desafio. Eu sentia o peso disso tudo nas costas, uma responsabilidade que eu não pedi, mas que também não podia ignorar. Saí da cafeteria com a cabeça fervendo, andando pelas ruas como se estivesse à deriva. Eu queria justiça pra minha irmã, mas... até onde eu estava disposta a ir?

Olhei pro céu, pro horizonte meio embaçado, e uma onda de determinação começou a me preencher. Não sabia o que me esperava, mas sabia de uma coisa: eu não ia parar, não ia descansar enquanto não fizesse Justiça.

Nem que tivesse que encarar todas as sombras do mundo.

Capítulos
1 Palavra do Autor & Apresentação
2 Prólogo
3 Capítulo 1: Ayana
4 Capítulo 2: O Chato Sempre Aparece
5 Capítulo 3: Fio Solto e Promessas de Encrenca
6 Capítulo 4: Batalha dos Gigantes
7 Capítulo 5: Noites de Risos e Memórias
8 Capítulo 6: Cicatrizes e Velhos Fantasmas
9 Capítulo 7: O Peso da Experiência
10 Capítulo 8: Revelações no Café
11 Capítulo 9: Uma Proposta Inesperada
12 Capítulo 10: Sob Pressão
13 Capítulo 11: Entre Linhas e Lembranças
14 Capítulo 12: Fragmentos de Justiça
15 Capítulo 13: O Peso da Verdade
16 Capítulo 14: Entre Brilhos e Noitadas
17 Capítulo 15: Sol, Piscina e Sombras do Passado
18 Capítulo 16: Entre Águas e Farpas
19 Capítulo 17: Em Ponto de Ebulição
20 Capítulo 18: Velhos e Novos Conflitos
21 Capítulo 19: A Hora da Verdade
22 Capítulo 20: Redefinindo Laços e Limites
23 Capítulo 21: Tentação e Limites
24 Capítulo 22: Despertando Verdades
25 Capítulo 23: Debates e Dilemas no Refeitório
26 Capítulo 24: Uma Noite de Conversa e Confusão
27 Capítulo 25 - Noite à Valeriana
28 Capítulo 26: Um Dia a Mais no Redemoinho
29 Capítulo 27: Destinos Entrelaçados
30 Capítulo 28: Entre Jogos e Rivalidades
31 Capítulo 29: Entre Ventos e Confissões
32 Capítulo 30: Sob o Céu Estrelado
33 Capítulo 31: Sob o Céu e as Ondas
34 Capítulo 32: Sob os Olhos da Cidade
35 Capítulo 33: O Grande Dia
36 Capítulo 34: Novas Conquistas, Velhos Segredos
37 Capítulo 35: A Teia da Justiça
38 Capítulo 36: Sinais e Conexões
39 Capítulo 37: Descobertas e Compromissos
40 Capítulo 38: Primeiras Consequências Profissionais
41 Capítulo 39: Conquistas e Descobertas
42 Capítulo 40: Um dia Diferente
43 Capítulo 41: Uma Pausa para Viver
44 Capítulo 42: Despedidas e Novos Começos
45 Capítulo 43: Revelações e Opostos
46 Capítulo 44: Um Amanhecer de Revelações
47 Capítulo 45: O Dia em que Eu Virei Criança
48 Capítulo 46: Destino Lagoas – Sem Planos, Apenas Vida
49 Capítulo 47: Luzes de Lagoas
50 Capítulo 48 – Olhos nas Sombras
51 Capítulo 49 – A Teia de Mentiras
52 Capítulo 50 – Sombras e Promessas
53 Capítulo 51 – Ecos de Silêncio e Vozes nas Sombras
54 Capítulo 52 - Pressão e Reações
55 Capítulo 53: Laços que Nunca Quebram
56 Capítulo 54 – Ecos de uma cidade dourada
57 Capítulo 55 – À Beira do Abismo
58 Capítulo 56 – O Dia da Verdade
59 Capítulo 57 – O Veredicto
60 Capítulo 58 - O Peso da Liberdade
61 Capítulo 59 - Sob o Céu de Lagoas
62 Capítulo 60: Primeiras Decisões
63 Capítulo 61: Ventos do Mar
64 Capítulo 62: Recomeços e Despedidas
65 Capítulo 63: Quem É Você, Stive?
66 Epílogo - Três Anos Depois: O Ciclo da Vida
67 Galeria de Memórias
Capítulos

Atualizado até capítulo 67

1
Palavra do Autor & Apresentação
2
Prólogo
3
Capítulo 1: Ayana
4
Capítulo 2: O Chato Sempre Aparece
5
Capítulo 3: Fio Solto e Promessas de Encrenca
6
Capítulo 4: Batalha dos Gigantes
7
Capítulo 5: Noites de Risos e Memórias
8
Capítulo 6: Cicatrizes e Velhos Fantasmas
9
Capítulo 7: O Peso da Experiência
10
Capítulo 8: Revelações no Café
11
Capítulo 9: Uma Proposta Inesperada
12
Capítulo 10: Sob Pressão
13
Capítulo 11: Entre Linhas e Lembranças
14
Capítulo 12: Fragmentos de Justiça
15
Capítulo 13: O Peso da Verdade
16
Capítulo 14: Entre Brilhos e Noitadas
17
Capítulo 15: Sol, Piscina e Sombras do Passado
18
Capítulo 16: Entre Águas e Farpas
19
Capítulo 17: Em Ponto de Ebulição
20
Capítulo 18: Velhos e Novos Conflitos
21
Capítulo 19: A Hora da Verdade
22
Capítulo 20: Redefinindo Laços e Limites
23
Capítulo 21: Tentação e Limites
24
Capítulo 22: Despertando Verdades
25
Capítulo 23: Debates e Dilemas no Refeitório
26
Capítulo 24: Uma Noite de Conversa e Confusão
27
Capítulo 25 - Noite à Valeriana
28
Capítulo 26: Um Dia a Mais no Redemoinho
29
Capítulo 27: Destinos Entrelaçados
30
Capítulo 28: Entre Jogos e Rivalidades
31
Capítulo 29: Entre Ventos e Confissões
32
Capítulo 30: Sob o Céu Estrelado
33
Capítulo 31: Sob o Céu e as Ondas
34
Capítulo 32: Sob os Olhos da Cidade
35
Capítulo 33: O Grande Dia
36
Capítulo 34: Novas Conquistas, Velhos Segredos
37
Capítulo 35: A Teia da Justiça
38
Capítulo 36: Sinais e Conexões
39
Capítulo 37: Descobertas e Compromissos
40
Capítulo 38: Primeiras Consequências Profissionais
41
Capítulo 39: Conquistas e Descobertas
42
Capítulo 40: Um dia Diferente
43
Capítulo 41: Uma Pausa para Viver
44
Capítulo 42: Despedidas e Novos Começos
45
Capítulo 43: Revelações e Opostos
46
Capítulo 44: Um Amanhecer de Revelações
47
Capítulo 45: O Dia em que Eu Virei Criança
48
Capítulo 46: Destino Lagoas – Sem Planos, Apenas Vida
49
Capítulo 47: Luzes de Lagoas
50
Capítulo 48 – Olhos nas Sombras
51
Capítulo 49 – A Teia de Mentiras
52
Capítulo 50 – Sombras e Promessas
53
Capítulo 51 – Ecos de Silêncio e Vozes nas Sombras
54
Capítulo 52 - Pressão e Reações
55
Capítulo 53: Laços que Nunca Quebram
56
Capítulo 54 – Ecos de uma cidade dourada
57
Capítulo 55 – À Beira do Abismo
58
Capítulo 56 – O Dia da Verdade
59
Capítulo 57 – O Veredicto
60
Capítulo 58 - O Peso da Liberdade
61
Capítulo 59 - Sob o Céu de Lagoas
62
Capítulo 60: Primeiras Decisões
63
Capítulo 61: Ventos do Mar
64
Capítulo 62: Recomeços e Despedidas
65
Capítulo 63: Quem É Você, Stive?
66
Epílogo - Três Anos Depois: O Ciclo da Vida
67
Galeria de Memórias

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