Naquela tarde, o escritório parecia ainda mais silencioso que o normal, quase sufocante. O tipo de silêncio que traz junto um peso que gruda na pele, sabe? Era só eu e aquele monte de papel espalhado pela mesa. Era pra ser só mais uma revisão, mais uma tarefa daquelas que a gente faz no piloto automático, mas... a cada página que eu folheava, uma sensação estranha crescia. Tipo quando você sente que tem alguma coisa errada, mas ainda não sabe o quê. Só sabe que não vai gostar do que vai encontrar.
Joseph tinha dado o cano mais uma vez, deixando tudo nas minhas mãos. “Fazer o quê, né?”, pensei. Já estava acostumada a isso. Ele é desses que aparece na hora de colher os louros, mas some quando o bicho pega. "Ah, se ele ao menos soubesse...", murmurei, sem saber se estava falando comigo mesma ou tentando aliviar a frustração.
E ali, no meio daquele monte de contratos, transferências bancárias e e-mails sem pé nem cabeça, um nome chamou minha atenção. Não era um nome qualquer, e quanto mais eu lia, mais aquilo parecia suspeito. Era alguém com quem o escritório tinha uma relação de anos, um desses aliados que todos veem como intocáveis. Mas ali, em preto e branco, apareciam transações estranhas, reuniões que nunca foram registradas, valores que não batiam. Me senti como se tivesse tropeçado em uma porta entreaberta, que mostrava algo que eu não deveria ver.
Um arrepio correu pela espinha. Aquela sensação de que, se eu continuasse, ia acabar descobrindo alguma coisa que talvez mudasse tudo. Parecia loucura, mas era como se uma parte de mim quisesse largar tudo e sair correndo; a outra parte, a que não sabe deixar uma pulga atrás da orelha, só queria ir mais fundo.
“É só mais um trabalho, Ayana. Faz o que te mandaram e segue em frente”, eu tentei me convencer. Mas aquela voz na minha cabeça era fraca. Cada linha que eu lia me fazia pensar na Suraya. Minha irmã estava presa por um erro que nem era dela, presa em um sistema que, claramente, não liga pra quem está em desvantagem. E eu aqui, de frente pra uma possível evidência de que o próprio escritório pra quem eu trabalhava compactuava com essas jogadas sujas? Aquilo doía, me deixava indignada.
E no meio de tudo isso, me vi andando direto para a mesa do Joseph, determinada a ter uma segunda opinião — ou pelo menos uma confirmação de que eu não estava ficando louca. Assim que ele chegou do almoço, com aquele jeito relaxado, malandro, já fui logo abrindo o jogo.
— “Stive, tenho uma coisa importante pra te mostrar,” eu disse, sem rodeios, colocando o contrato bem debaixo do nariz dele. Ele olhou para o papel, e por um segundo pensei que ele também ia achar aquilo preocupante. Mas ele só deu uma risadinha.
— “Ah, Montenegro... você ainda não aprendeu que certas coisas é melhor deixar quieto?” disse ele, dando aquele sorrisinho debochado.
Senti o sangue ferver.
— “Você tá falando sério, Joseph? Você tá me dizendo que devo fechar os olhos pra isso?” Eu nem acreditava que estava tendo essa conversa. “Isso é sério. É crime! Não dá pra simplesmente ignorar.”
Ele só deu de ombros.
— “Você ainda é nova nisso, Ayana. Nem tudo na advocacia é tão preto no branco. Às vezes, a melhor coisa que você faz por você mesma é seguir em frente.”
Meu estômago revirava. Como ele podia ser tão frio, tão indiferente? *E é com esse tipo de gente que eu trabalho?*, pensei. Até tentei manter a calma, mas a indignação era evidente.
— “Sabe, Joseph, é fácil falar isso quando você nunca sentiu na pele o que é uma injustiça. Eu já senti, minha irmã tá sentindo. E eu não vou fingir que não vi isso aqui.”
Ele olhou pra mim, como se eu fosse uma garotinha ingênua. “Nem tudo é o que parece, Ayana. Às vezes, o que parece ser justiça só vai trazer problema. Só estou dizendo... não te mete onde você não sabe o que está pisando.”
Aquela conversa não ia pra lugar nenhum, então me virei e voltei pra minha mesa, com o peito cheio de raiva e frustração. Tudo o que eu sentia era uma mistura de revolta e impotência. Se até as pessoas em quem eu supostamente devia confiar pensavam assim, então, quem estaria do meu lado?
Foi quando, quase num impulso, peguei o celular e disquei um número que estava ali há meses. Era de um investigador, Daniel Ferraz, que minha amiga Anaya havia me indicado quando cheguei em Valeriam. Ele tinha fama de ser discreto e de não fazer muitas perguntas. Alguém que eu precisava nesse momento.
— “Sr. Ferraz, sou eu, Ayana Montenegro. Acho que preciso da sua ajuda... é sobre a Suraya.”
Pouco depois, combinamos de nos encontrar numa cafeteria discreta. Quando cheguei, ele já estava lá, me esperando. A expressão no rosto dele era séria, e o volume da pasta ao seu lado me deixou ainda mais ansiosa.
— “Montenegro,” ele disse, acenando com a cabeça. “Preciso te contar que a situação dela vai muito além do que imaginávamos.”
Sentei-me, tentando esconder o nervosismo. Ele abriu a pasta e começou a espalhar documentos na mesa. Era um verdadeiro quebra-cabeça, e em cada peça eu reconhecia um nome, uma empresa, figuras políticas que eu conhecia das manchetes de jornal. Meu coração parecia bater na garganta.
— “Sua irmã caiu nas mãos de uma rede poderosa,” ele disse, em voz baixa. “Isso é muito maior do que um simples erro jurídico. Há um grupo que a gente chama de ‘Ordem das Sombras’. Eles controlam coisas no oculto, manipulando tribunais, políticos, tudo o que você possa imaginar, pra proteger interesses milionários.”
Fiquei ali, paralisada, tentando processar aquilo. Era como se tudo ao redor estivesse embaçado. *Ordem das Sombras?* Aquilo parecia coisa de filme, mas era minha realidade, e a realidade da minha irmã.
— “Então... você está me dizendo que prenderam ela de propósito? Que... todo esse tempo, ela foi só um peão pra essas pessoas?”
Ele assentiu, olhando ao redor como se procurasse alguém nos observando. “Eles têm tentáculos em todo lugar, Ayana. Gente influente, que não hesita em calar quem tenta se intrometer. Suraya incomodou as pessoas erradas. E eu... eu mesmo já recebi ameaças por causa dessa investigação.”
Meu estômago parecia dar voltas. A cada palavra que ele dizia, minha raiva aumentava. “Como ninguém fez nada até agora? Por que ninguém denunciou?”
Ferraz me olhou com aquele olhar cansado, um olhar de quem já viu muito. “Porque a maioria das pessoas, Ayana, prefere ficar na segurança do que já conhece. Ninguém quer mexer com isso. É um preço alto demais.”
E então, como um soco no estômago, lembrei das palavras de Joseph: Às vezes, é melhor não saber de tudo. Na hora, me parecia uma desculpa covarde, mas agora... era como se aquela frase fizesse um sentido cruel.
— “E você vai continuar com essa investigação? Ou vai desistir também?” perguntei, quase desafiando ele.
Ele sorriu de lado, com um ar sério, mas determinado. “Eu vou até onde der, Montenegro. Mas eu preciso de aliados. Se você quer a verdade, precisa decidir o quanto está disposta a arriscar.”
As palavras dele ecoaram como um desafio. Eu sentia o peso disso tudo nas costas, uma responsabilidade que eu não pedi, mas que também não podia ignorar. Saí da cafeteria com a cabeça fervendo, andando pelas ruas como se estivesse à deriva. Eu queria justiça pra minha irmã, mas... até onde eu estava disposta a ir?
Olhei pro céu, pro horizonte meio embaçado, e uma onda de determinação começou a me preencher. Não sabia o que me esperava, mas sabia de uma coisa: eu não ia parar, não ia descansar enquanto não fizesse Justiça.
Nem que tivesse que encarar todas as sombras do mundo.
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Atualizado até capítulo 67
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