Joseph me encara com aquele maldito sorriso de canto enquanto eu leio os documentos no laptop dele. Sinto o sangue subir pra cabeça. Não é só uma descoberta “grande”. É gigante.
Ele encontrou um fio solto que conecta a Duvall Corp a um monte de empresas de fachada, que basicamente fazem o trabalho sujo de encobrir as fraudes trabalhistas deles. Se a gente souber usar isso, é possível que o caso que estamos montando vire uma bomba. Algo capaz de não só derrubar o processo em andamento, mas de escancarar uma rede de corrupção que ninguém tá nem sonhando.
— Como você achou isso? — pergunto, tentando não transparecer que tô impressionada. Mas é impossível.
Joseph só dá de ombros, como se fosse a coisa mais fácil do mundo. O sorriso convencido tá mais insuportável do que nunca.
— Pesquisei um pouco sobre os antigos processos da Duvall. Sabe como é, um bom estagiário precisa se aprofundar, né?
Reviro os olhos, mas não consigo esconder a pontada de inveja. Era o tipo de sacada que eu deveria ter tido, mas com tanta coisa pra revisar e um milhão de documentos, tô perdida nos detalhes burocráticos e cansada até os ossos.
— Tá, mas você acha que isso é suficiente pra convencer a Eliane? — pergunto, mais prática agora.
Ele me encara, e o sorriso dá lugar a uma expressão mais séria. A questão não é só encontrar o ponto fraco da Duvall; é saber como usar isso sem tropeçar. Eliane não é exatamente fácil de impressionar.
— Se a gente juntar os documentos certos e apresentar de forma bem amarrada, sim. Mas vamos precisar de mais do que só esse fio solto. A Eliane quer provas sólidas, e o dossiê tem que estar robusto — ele diz, todo focado.
Ele tá certo. Por maior que seja essa descoberta, ainda falta costurar as evidências. Me ajeito na cadeira, sentindo a adrenalina bater. É um baita desafio, e, apesar de tudo, a ideia de pegar algo tão grande ao lado do Joseph me anima. O cara pode ser insuportável, mas sabe o que tá fazendo.
— Certo. E por onde começamos? — pergunto, decidida a mergulhar de cabeça.
Joseph fecha o laptop e me olha com uma expressão de quem já esperava por essa resposta.
— Precisamos reunir os relatórios financeiros dessas empresas e cruzar com as movimentações suspeitas da Duvall. Não vai ser fácil, mas se conseguirmos algum vazamento de informações, talvez tenhamos o que precisamos.
Ele fala com uma calma irritante, como se tivesse tudo sob controle.
— E onde você sugere que a gente arranje um vazamento desses? — rebato, levantando uma sobrancelha, já desconfiada.
Joseph abre um sorriso mais largo. Reconheço o brilho no olhar dele: ele tá prestes a soltar uma das suas ideias mirabolantes.
— Conheço alguém que pode ter acesso a informações internas. Não vai ser lá muito legal, claro, mas é o que temos.
Eu olho pra ele, já ressabiada. Típico do Joseph ter contatos suspeitos. Ele sempre joga nas áreas cinzentas da moralidade, e isso me irrita profundamente. Mas sei que, no mundo jurídico, às vezes é um “mal necessário”.
— Você tá falando sério? — pergunto, cruzando os braços. — Se der merda, a gente pode ferrar o caso inteiro. Ou pior, ferrar nossas carreiras.
— Relaxa, Montenegro. Eu não sou tão imprudente assim. — Ele se levanta da cadeira, com a expressão mais calma do mundo. — Vou resolver de um jeito que não envolva você diretamente. Se der problema, o problema é só meu.
Aquela confiança irritante de novo. Quero odiar, mas sei que, no fundo, ele tem razão. Em situações como essa, quem hesita perde. Suspiro, recostando na cadeira.
— Tá bom, Stive. Mas isso fica entre a gente, combinado? Nem a Eliane pode saber dessa parte.
Ele acena, concordando.
— Combinado. Agora, é melhor a gente ir pra reunião antes que a Eliane pense que estamos tramando algo grande — ele diz, com um sorrisinho.
Pego minhas coisas e o sigo até a sala de reuniões, o coração ainda acelerado pela descoberta. Eu mal acredito que o Joseph encontrou um ponto que pode derrubar uma das maiores corporações do país. E, pior, que ele me trouxe pra esse plano de desenterrar os podres da Duvall.
Entramos na sala de reuniões, e lá está Eliane, sentada à cabeceira da mesa, com seus óculos de leitura no nariz e aquele ar sério. É impressionante como ela sempre parece ocupar todo o ambiente com a presença. Ela é o tipo de mulher que basta aparecer pra todo mundo lembrar quem tá no comando. Implacável, temida, mas totalmente respeitada. Ser sua estagiária é uma honra, mas a pressão é nível mil.
— Ayana, Joseph, sentem-se — ela diz, sem levantar os olhos dos papéis à sua frente.
Nos sentamos em silêncio. Joseph tá calmo, como sempre. Eu, por outro lado, sinto as mãos suarem. Eliane não faz reunião só pra bater papo. Se ela nos chamou, é porque espera algo relevante.
— Como estão indo com o caso da Duvall? — pergunta, ainda folheando os documentos.
Joseph responde antes que eu consiga abrir a boca, com aquela confiança dele.
— Estamos avançando bem. Encontramos alguns detalhes que podem ser úteis. Ayana e eu já estamos trabalhando em novas informações.
Eliane finalmente ergue o olhar e nos encara. Os olhos dela são intensos, daquele tipo que parece ler sua alma.
— Novas informações? — Ela ergue uma sobrancelha, e o interesse é visível.
Não podemos mencionar a parte “extraoficial” da investigação, mas também não podemos esconder a descoberta de Joseph. Eu respiro fundo e tento soar o mais profissional possível.
— A gente encontrou conexões entre a Duvall e várias empresas menores, que podem estar envolvidas em fraudes trabalhistas. Ainda estamos conferindo as fontes, mas achamos que isso pode abrir um precedente forte contra eles.
Eliane nos observa em silêncio, e eu quase consigo ouvir meu coração batendo. Ela é especialista em detectar insegurança e mentira, e estamos andando numa corda bamba.
— Isso é interessante — ela diz, finalmente. Apoia os braços na mesa e olha diretamente pra gente. — Mas lembrem-se: precisamos de provas irrefutáveis. Esse caso pode ser grande, mas também pode derrubar a firma se for mal conduzido. Se acharem que estão prontos, vou deixar vocês apresentarem as evidências na próxima reunião. Vocês têm três dias.
Três dias. Ela nos deu três dias pra construir um caso que pode mudar tudo. Meus olhos encontram os de Joseph. Sei que ele tá tão animado quanto eu, mas também entendo o peso disso: noites em claro, muita pesquisa e ainda mais pressão.
— Vamos conseguir, doutora — Joseph diz, com sua confiança de sempre.
— Espero que sim — ela responde, ajustando os óculos. — Agora, voltem ao trabalho.
Nos levantamos e saímos da sala, já sentindo a responsabilidade pesando. Quando estamos longe o bastante, Joseph se vira pra mim com aquele sorriso convencido que só ele tem.
— Três dias. Vai ser divertido, não acha?
Eu suspiro.
— Você tem uma noção bem estranha do que é diversão, Stive.
Mas, lá no fundo, sei que ele tá certo.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 67
Comments