Capítulo 1: Ayana

Meu nome é Ayana Lemos Montenegro. E se você tá se perguntando por que eu não sou Lemos Monteiro, igual lá no princípio ou como o resto da minha família, se segura. É uma longa história. A gente ia precisar de umas boas xícaras de café — ou, quem sabe, de umas taças de vinho — pra conversar sobre isso. Mas vou dar uma resumida.

A coisa toda começa com minha irmã mais velha, naquela noite da maldita aposta aonde o papai perdeu tudo até o que não tinha. Depois veio Anaya, com o sacrifício final. Foi ela que decidiu que precisávamos mudar nossos sobrenomes pra escapar do que ela chama de “maldição dos Monteiros”. Meio dramático, né? Mas, olha, não culpo ela. Nossa mãe morreu depois que meu pai resolveu “negociar” a primogênita, minha irmã Suraya, como se ela fosse uma peça de jogo. Tudo pra salvar a fazenda, que tava afundada em dívidas. Claro, depois disso, ele nunca mais foi o mesmo. E eu também não. Meu pai virou um fantasma; eu fiquei dois anos sem conseguir nem olhar na cara dele. E justo quando achei que tava pronta pra tentar perdoar, ele morreu. Isso, bem no primeiro Natal que a gente ia passar junto depois de anos. E até hoje eu nem sei o que é comemorar um Natal de verdade.

Mas a vida seguiu. Anaya, sendo quem é, tomou as rédeas da fazenda, dos negócios, da nossa vida. A galera chama ela de “a Dona”. E, sinceramente, não sei se teria feito o que ela fez. A fazenda prosperou nas mãos dela. Mas essa história aqui não é sobre ela. Não agora.

Eu tô em Valeriam, um dos maiores centro urbano do país, faz quatro anos. Vim sozinha, sem conhecer ninguém. A cidade me engoliu logo de cara, com suas luzes, barulhos e um povo que parece estar sempre numa pressa louca. Minha primeira amiga foi a Zau. Conheci ela no dia que a gente alugou esse apartamento minúsculo na Zona Sul, lá na Avenida São José. Pequeno, mas confortável. Nada de glamour, mas é nosso cantinho.

Agora, tô no último ano de Direito, e hoje é meu primeiro dia de estágio na MST & Associados. O escritório é comandado por ninguém menos que Eliane Morgan, uma das maiores advogadas criminalistas do país. Ela também é minha professora desde o primeiro ano e, deixa eu te falar, é temida por todos. Inclusive por mim. Não me entenda mal, eu admiro a mulher. Mas tem alguma coisa no jeito dela, na forma como ela comanda a sala e o escritório, que me deixa sempre na ponta dos pés, pronta pra dar um passo em falso e... desmoronar.

Eliane Morgan não é qualquer uma. Ela é “a mulher”. Chega no ambiente como quem domina o espaço — já entendi que não tem lugar nesse escritório que não seja dela. É o tipo que você sente a presença antes mesmo de ela abrir a boca, sabe? O pessoal do escritório até brinca que quando ela passa, o ar esfria, o chão treme e o mundo se ajeita. Nada de exagero, eu garanto. Ela é toda trabalhada no preto, cabelos lisos caindo nos ombros, maquiagem impecável, olhar que atravessa a gente. Quando ela chega, o recado é claro: “Se ajeita aí porque eu tô aqui”. Ela é o que se chama de presença marcante.

Mas o drama não para por aí. Pra completar a beleza da situação, meu maior oponente nas aulas, Joseph Stive, também vai estagiar na mesma firma. Sim, o cara que compete comigo em tudo. O “chato do Stive”, como gosto de chamar mentalmente, vai ser meu colega de trabalho. Sério, universo? Não podia me dar um descanso?

Mas agora não tenho tempo pra ficar pensando nisso. Tô atrasada.

Chego quase correndo na MST & Associados, e meus saltos fazem um barulho irritante no piso de mármore. Parece até cena de filme: paredes brancas, vidro pra todo lado, aquele cheiro de café caro misturado com um perfume que grita “não encosta, sou caro demais”. Tudo aqui é intimidador, sabe? É como se cada centímetro desse lugar quisesse te lembrar que poder é pra poucos.

Paro na recepção, tentando recuperar o fôlego, e uma mulher que parece ter saído direto de um comercial de cosméticos me encara. Cabelo impecável, sorriso ensaiado. Ela é o tipo de pessoa que tem até o sorriso polido.

— Bom dia, eu sou Ayana Montenegro. Estou aqui para começar o estágio — digo, tentando soar confiante. Mas meu sorriso tá bem longe de ser convincente como o dela.

— Claro, Srta. Montenegro — ela responde, com aquele sorriso profissional. — A Dra. Morgan já está esperando você. Pode seguir até a sala de reuniões 3.

Aceno, agradecendo, e sigo pelo corredor. A cada passo, a mistura de excitação e nervosismo vai me embrulhando o estômago. Esse é o momento que eu esperei anos. Trabalhar com Eliane Morgan é tipo... um sonho. Uma dessas oportunidades que mudam sua vida. Se eu fizer tudo certo... talvez eu finalmente encontre meu lugar nesse mundo.

Chego à sala de reuniões e lá está ela. Eliane Morgan, impecável como sempre, cada detalhe no lugar, do cabelo liso aos sapatos de salto. Ela me lança um sorriso que — vou te contar — tá bem longe de ser acolhedor.

— Ayana, seja bem-vinda. Sente-se — ela diz, com aquela voz firme, que faz eu me sentir uma adolescente em reunião de gente grande. Obedeço na hora.

Nem dá tempo de responder e a porta se abre atrás de mim. Meu corpo se tensiona automaticamente. Nem preciso olhar pra saber quem é. Joseph Stive. O som das botas dele no chão já me irrita. Ele entra na sala como se fosse dono do lugar, com aquele sorriso torto que ele usa sempre. Ah, que raiva.

— Olha só quem está aqui — ele diz, puxando a cadeira ao meu lado. — Bom te ver, Montenegro.

— O sentimento não é recíproco, Stive — rebato, tentando segurar a vontade de revirar os olhos.

Eliane acompanha nossa troca com um olhar meio analítico, mas não diz nada. Ela começa a explicar o que será esperado de nós no estágio. E a cada palavra que sai da boca dela, meu estômago dá mais um nó. Vamos lidar com casos reais. Pessoas de verdade. E não é qualquer caso: logo de cara, ela designa a gente pra ajudar num processo contra uma grande corporação acusada de práticas trabalhistas abusivas.

— Esse é o tipo de caso que define carreiras, senhores — ela afirma, olhando bem pra mim e pro Joseph. — Não espero nada menos que excelência de vocês dois.

O silêncio na sala pesa. Claro que o Joseph quebra ele com aquele tom arrogante de sempre.

— Pode deixar, Dra. Morgan. Excelência é meu segundo nome.

Reviro os olhos, dessa vez nem tento disfarçar. Eliane só arqueia uma sobrancelha, como se quisesse ver até onde a gente vai.

— Veremos, Sr. Stive. Veremos.

Mais tarde, volto pro apartamento que divido com Zau. Ela tá jogada no sofá, mexendo no celular, mas quando me vê entrando, abre um sorriso.

— E aí, como foi o grande dia?

— Um desastre — respondo, jogando a bolsa no chão e me afundando no sofá ao lado dela. — Quase me atrasei, depois tive que encarar a Eliane Morgan de frente, e como se não fosse o suficiente, vou ter que trabalhar o estágio inteiro com o Joseph Stive.

Ela solta uma gargalhada.

— O chato do Stive? Isso vai ser divertido de ver.

— Não tem nada de divertido nisso, Zau. O cara me tira do sério. Ele age como se fosse o dono do mundo.

— Ah, talvez seja, né? Vai ver ele só tá querendo te impressionar. Quem sabe o Stive tem uma quedinha por você.

— Argh! Por favor, me poupe — faço uma careta só de pensar nisso.

Zau ri ainda mais.

— Relaxa, vai dar tudo certo. Ah, você não vai acreditar no que aconteceu hoje. O Rafael…

E lá vem bomba... então ela começa a contar sobre mais uma das brigas dela com o Rafael, como sempre é o que mas os dois sabem fazer. Tento prestar atenção, Mas minha cabeça continua em Eliane Morgan, Joseph Stive e o caso nas nossas mãos. Sinto que meu futuro inteiro depende de cada passo que eu der nos próximos meses.

Naquela noite, deitada na cama, encaro o teto e minha mente começa a correr. Penso no meu pai, na minha mãe, na fazenda... em como eu vim parar aqui. E principalmente, no que preciso fazer pra dar certo. Não só por mim, mas pela minha irmã. Eu prometi que faria de tudo pra conseguir justiça pra nossa família. Pra salvar Suraya. E esse estágio é a chave pra isso.

Mas antes de qualquer coisa, preciso lidar com o Joseph Stive. Porque, de algum jeito que eu não entendo, ele tá sempre no meu caminho.

E pior: ele tá mais nos meus pensamentos do que eu gostaria.

Capítulos
1 Palavra do Autor & Apresentação
2 Prólogo
3 Capítulo 1: Ayana
4 Capítulo 2: O Chato Sempre Aparece
5 Capítulo 3: Fio Solto e Promessas de Encrenca
6 Capítulo 4: Batalha dos Gigantes
7 Capítulo 5: Noites de Risos e Memórias
8 Capítulo 6: Cicatrizes e Velhos Fantasmas
9 Capítulo 7: O Peso da Experiência
10 Capítulo 8: Revelações no Café
11 Capítulo 9: Uma Proposta Inesperada
12 Capítulo 10: Sob Pressão
13 Capítulo 11: Entre Linhas e Lembranças
14 Capítulo 12: Fragmentos de Justiça
15 Capítulo 13: O Peso da Verdade
16 Capítulo 14: Entre Brilhos e Noitadas
17 Capítulo 15: Sol, Piscina e Sombras do Passado
18 Capítulo 16: Entre Águas e Farpas
19 Capítulo 17: Em Ponto de Ebulição
20 Capítulo 18: Velhos e Novos Conflitos
21 Capítulo 19: A Hora da Verdade
22 Capítulo 20: Redefinindo Laços e Limites
23 Capítulo 21: Tentação e Limites
24 Capítulo 22: Despertando Verdades
25 Capítulo 23: Debates e Dilemas no Refeitório
26 Capítulo 24: Uma Noite de Conversa e Confusão
27 Capítulo 25 - Noite à Valeriana
28 Capítulo 26: Um Dia a Mais no Redemoinho
29 Capítulo 27: Destinos Entrelaçados
30 Capítulo 28: Entre Jogos e Rivalidades
31 Capítulo 29: Entre Ventos e Confissões
32 Capítulo 30: Sob o Céu Estrelado
33 Capítulo 31: Sob o Céu e as Ondas
34 Capítulo 32: Sob os Olhos da Cidade
35 Capítulo 33: O Grande Dia
36 Capítulo 34: Novas Conquistas, Velhos Segredos
37 Capítulo 35: A Teia da Justiça
38 Capítulo 36: Sinais e Conexões
39 Capítulo 37: Descobertas e Compromissos
40 Capítulo 38: Primeiras Consequências Profissionais
41 Capítulo 39: Conquistas e Descobertas
42 Capítulo 40: Um dia Diferente
43 Capítulo 41: Uma Pausa para Viver
44 Capítulo 42: Despedidas e Novos Começos
45 Capítulo 43: Revelações e Opostos
46 Capítulo 44: Um Amanhecer de Revelações
47 Capítulo 45: O Dia em que Eu Virei Criança
48 Capítulo 46: Destino Lagoas – Sem Planos, Apenas Vida
49 Capítulo 47: Luzes de Lagoas
50 Capítulo 48 – Olhos nas Sombras
51 Capítulo 49 – A Teia de Mentiras
52 Capítulo 50 – Sombras e Promessas
53 Capítulo 51 – Ecos de Silêncio e Vozes nas Sombras
54 Capítulo 52 - Pressão e Reações
55 Capítulo 53: Laços que Nunca Quebram
56 Capítulo 54 – Ecos de uma cidade dourada
57 Capítulo 55 – À Beira do Abismo
58 Capítulo 56 – O Dia da Verdade
59 Capítulo 57 – O Veredicto
60 Capítulo 58 - O Peso da Liberdade
61 Capítulo 59 - Sob o Céu de Lagoas
62 Capítulo 60: Primeiras Decisões
63 Capítulo 61: Ventos do Mar
64 Capítulo 62: Recomeços e Despedidas
65 Capítulo 63: Quem É Você, Stive?
66 Epílogo - Três Anos Depois: O Ciclo da Vida
67 Galeria de Memórias
Capítulos

Atualizado até capítulo 67

1
Palavra do Autor & Apresentação
2
Prólogo
3
Capítulo 1: Ayana
4
Capítulo 2: O Chato Sempre Aparece
5
Capítulo 3: Fio Solto e Promessas de Encrenca
6
Capítulo 4: Batalha dos Gigantes
7
Capítulo 5: Noites de Risos e Memórias
8
Capítulo 6: Cicatrizes e Velhos Fantasmas
9
Capítulo 7: O Peso da Experiência
10
Capítulo 8: Revelações no Café
11
Capítulo 9: Uma Proposta Inesperada
12
Capítulo 10: Sob Pressão
13
Capítulo 11: Entre Linhas e Lembranças
14
Capítulo 12: Fragmentos de Justiça
15
Capítulo 13: O Peso da Verdade
16
Capítulo 14: Entre Brilhos e Noitadas
17
Capítulo 15: Sol, Piscina e Sombras do Passado
18
Capítulo 16: Entre Águas e Farpas
19
Capítulo 17: Em Ponto de Ebulição
20
Capítulo 18: Velhos e Novos Conflitos
21
Capítulo 19: A Hora da Verdade
22
Capítulo 20: Redefinindo Laços e Limites
23
Capítulo 21: Tentação e Limites
24
Capítulo 22: Despertando Verdades
25
Capítulo 23: Debates e Dilemas no Refeitório
26
Capítulo 24: Uma Noite de Conversa e Confusão
27
Capítulo 25 - Noite à Valeriana
28
Capítulo 26: Um Dia a Mais no Redemoinho
29
Capítulo 27: Destinos Entrelaçados
30
Capítulo 28: Entre Jogos e Rivalidades
31
Capítulo 29: Entre Ventos e Confissões
32
Capítulo 30: Sob o Céu Estrelado
33
Capítulo 31: Sob o Céu e as Ondas
34
Capítulo 32: Sob os Olhos da Cidade
35
Capítulo 33: O Grande Dia
36
Capítulo 34: Novas Conquistas, Velhos Segredos
37
Capítulo 35: A Teia da Justiça
38
Capítulo 36: Sinais e Conexões
39
Capítulo 37: Descobertas e Compromissos
40
Capítulo 38: Primeiras Consequências Profissionais
41
Capítulo 39: Conquistas e Descobertas
42
Capítulo 40: Um dia Diferente
43
Capítulo 41: Uma Pausa para Viver
44
Capítulo 42: Despedidas e Novos Começos
45
Capítulo 43: Revelações e Opostos
46
Capítulo 44: Um Amanhecer de Revelações
47
Capítulo 45: O Dia em que Eu Virei Criança
48
Capítulo 46: Destino Lagoas – Sem Planos, Apenas Vida
49
Capítulo 47: Luzes de Lagoas
50
Capítulo 48 – Olhos nas Sombras
51
Capítulo 49 – A Teia de Mentiras
52
Capítulo 50 – Sombras e Promessas
53
Capítulo 51 – Ecos de Silêncio e Vozes nas Sombras
54
Capítulo 52 - Pressão e Reações
55
Capítulo 53: Laços que Nunca Quebram
56
Capítulo 54 – Ecos de uma cidade dourada
57
Capítulo 55 – À Beira do Abismo
58
Capítulo 56 – O Dia da Verdade
59
Capítulo 57 – O Veredicto
60
Capítulo 58 - O Peso da Liberdade
61
Capítulo 59 - Sob o Céu de Lagoas
62
Capítulo 60: Primeiras Decisões
63
Capítulo 61: Ventos do Mar
64
Capítulo 62: Recomeços e Despedidas
65
Capítulo 63: Quem É Você, Stive?
66
Epílogo - Três Anos Depois: O Ciclo da Vida
67
Galeria de Memórias

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