Meu nome é Ayana Lemos Montenegro. E se você tá se perguntando por que eu não sou Lemos Monteiro, igual lá no princípio ou como o resto da minha família, se segura. É uma longa história. A gente ia precisar de umas boas xícaras de café — ou, quem sabe, de umas taças de vinho — pra conversar sobre isso. Mas vou dar uma resumida.
A coisa toda começa com minha irmã mais velha, naquela noite da maldita aposta aonde o papai perdeu tudo até o que não tinha. Depois veio Anaya, com o sacrifício final. Foi ela que decidiu que precisávamos mudar nossos sobrenomes pra escapar do que ela chama de “maldição dos Monteiros”. Meio dramático, né? Mas, olha, não culpo ela. Nossa mãe morreu depois que meu pai resolveu “negociar” a primogênita, minha irmã Suraya, como se ela fosse uma peça de jogo. Tudo pra salvar a fazenda, que tava afundada em dívidas. Claro, depois disso, ele nunca mais foi o mesmo. E eu também não. Meu pai virou um fantasma; eu fiquei dois anos sem conseguir nem olhar na cara dele. E justo quando achei que tava pronta pra tentar perdoar, ele morreu. Isso, bem no primeiro Natal que a gente ia passar junto depois de anos. E até hoje eu nem sei o que é comemorar um Natal de verdade.
Mas a vida seguiu. Anaya, sendo quem é, tomou as rédeas da fazenda, dos negócios, da nossa vida. A galera chama ela de “a Dona”. E, sinceramente, não sei se teria feito o que ela fez. A fazenda prosperou nas mãos dela. Mas essa história aqui não é sobre ela. Não agora.
Eu tô em Valeriam, um dos maiores centro urbano do país, faz quatro anos. Vim sozinha, sem conhecer ninguém. A cidade me engoliu logo de cara, com suas luzes, barulhos e um povo que parece estar sempre numa pressa louca. Minha primeira amiga foi a Zau. Conheci ela no dia que a gente alugou esse apartamento minúsculo na Zona Sul, lá na Avenida São José. Pequeno, mas confortável. Nada de glamour, mas é nosso cantinho.
Agora, tô no último ano de Direito, e hoje é meu primeiro dia de estágio na MST & Associados. O escritório é comandado por ninguém menos que Eliane Morgan, uma das maiores advogadas criminalistas do país. Ela também é minha professora desde o primeiro ano e, deixa eu te falar, é temida por todos. Inclusive por mim. Não me entenda mal, eu admiro a mulher. Mas tem alguma coisa no jeito dela, na forma como ela comanda a sala e o escritório, que me deixa sempre na ponta dos pés, pronta pra dar um passo em falso e... desmoronar.
Eliane Morgan não é qualquer uma. Ela é “a mulher”. Chega no ambiente como quem domina o espaço — já entendi que não tem lugar nesse escritório que não seja dela. É o tipo que você sente a presença antes mesmo de ela abrir a boca, sabe? O pessoal do escritório até brinca que quando ela passa, o ar esfria, o chão treme e o mundo se ajeita. Nada de exagero, eu garanto. Ela é toda trabalhada no preto, cabelos lisos caindo nos ombros, maquiagem impecável, olhar que atravessa a gente. Quando ela chega, o recado é claro: “Se ajeita aí porque eu tô aqui”. Ela é o que se chama de presença marcante.
Mas o drama não para por aí. Pra completar a beleza da situação, meu maior oponente nas aulas, Joseph Stive, também vai estagiar na mesma firma. Sim, o cara que compete comigo em tudo. O “chato do Stive”, como gosto de chamar mentalmente, vai ser meu colega de trabalho. Sério, universo? Não podia me dar um descanso?
Mas agora não tenho tempo pra ficar pensando nisso. Tô atrasada.
Chego quase correndo na MST & Associados, e meus saltos fazem um barulho irritante no piso de mármore. Parece até cena de filme: paredes brancas, vidro pra todo lado, aquele cheiro de café caro misturado com um perfume que grita “não encosta, sou caro demais”. Tudo aqui é intimidador, sabe? É como se cada centímetro desse lugar quisesse te lembrar que poder é pra poucos.
Paro na recepção, tentando recuperar o fôlego, e uma mulher que parece ter saído direto de um comercial de cosméticos me encara. Cabelo impecável, sorriso ensaiado. Ela é o tipo de pessoa que tem até o sorriso polido.
— Bom dia, eu sou Ayana Montenegro. Estou aqui para começar o estágio — digo, tentando soar confiante. Mas meu sorriso tá bem longe de ser convincente como o dela.
— Claro, Srta. Montenegro — ela responde, com aquele sorriso profissional. — A Dra. Morgan já está esperando você. Pode seguir até a sala de reuniões 3.
Aceno, agradecendo, e sigo pelo corredor. A cada passo, a mistura de excitação e nervosismo vai me embrulhando o estômago. Esse é o momento que eu esperei anos. Trabalhar com Eliane Morgan é tipo... um sonho. Uma dessas oportunidades que mudam sua vida. Se eu fizer tudo certo... talvez eu finalmente encontre meu lugar nesse mundo.
Chego à sala de reuniões e lá está ela. Eliane Morgan, impecável como sempre, cada detalhe no lugar, do cabelo liso aos sapatos de salto. Ela me lança um sorriso que — vou te contar — tá bem longe de ser acolhedor.
— Ayana, seja bem-vinda. Sente-se — ela diz, com aquela voz firme, que faz eu me sentir uma adolescente em reunião de gente grande. Obedeço na hora.
Nem dá tempo de responder e a porta se abre atrás de mim. Meu corpo se tensiona automaticamente. Nem preciso olhar pra saber quem é. Joseph Stive. O som das botas dele no chão já me irrita. Ele entra na sala como se fosse dono do lugar, com aquele sorriso torto que ele usa sempre. Ah, que raiva.
— Olha só quem está aqui — ele diz, puxando a cadeira ao meu lado. — Bom te ver, Montenegro.
— O sentimento não é recíproco, Stive — rebato, tentando segurar a vontade de revirar os olhos.
Eliane acompanha nossa troca com um olhar meio analítico, mas não diz nada. Ela começa a explicar o que será esperado de nós no estágio. E a cada palavra que sai da boca dela, meu estômago dá mais um nó. Vamos lidar com casos reais. Pessoas de verdade. E não é qualquer caso: logo de cara, ela designa a gente pra ajudar num processo contra uma grande corporação acusada de práticas trabalhistas abusivas.
— Esse é o tipo de caso que define carreiras, senhores — ela afirma, olhando bem pra mim e pro Joseph. — Não espero nada menos que excelência de vocês dois.
O silêncio na sala pesa. Claro que o Joseph quebra ele com aquele tom arrogante de sempre.
— Pode deixar, Dra. Morgan. Excelência é meu segundo nome.
Reviro os olhos, dessa vez nem tento disfarçar. Eliane só arqueia uma sobrancelha, como se quisesse ver até onde a gente vai.
— Veremos, Sr. Stive. Veremos.
Mais tarde, volto pro apartamento que divido com Zau. Ela tá jogada no sofá, mexendo no celular, mas quando me vê entrando, abre um sorriso.
— E aí, como foi o grande dia?
— Um desastre — respondo, jogando a bolsa no chão e me afundando no sofá ao lado dela. — Quase me atrasei, depois tive que encarar a Eliane Morgan de frente, e como se não fosse o suficiente, vou ter que trabalhar o estágio inteiro com o Joseph Stive.
Ela solta uma gargalhada.
— O chato do Stive? Isso vai ser divertido de ver.
— Não tem nada de divertido nisso, Zau. O cara me tira do sério. Ele age como se fosse o dono do mundo.
— Ah, talvez seja, né? Vai ver ele só tá querendo te impressionar. Quem sabe o Stive tem uma quedinha por você.
— Argh! Por favor, me poupe — faço uma careta só de pensar nisso.
Zau ri ainda mais.
— Relaxa, vai dar tudo certo. Ah, você não vai acreditar no que aconteceu hoje. O Rafael…
E lá vem bomba... então ela começa a contar sobre mais uma das brigas dela com o Rafael, como sempre é o que mas os dois sabem fazer. Tento prestar atenção, Mas minha cabeça continua em Eliane Morgan, Joseph Stive e o caso nas nossas mãos. Sinto que meu futuro inteiro depende de cada passo que eu der nos próximos meses.
Naquela noite, deitada na cama, encaro o teto e minha mente começa a correr. Penso no meu pai, na minha mãe, na fazenda... em como eu vim parar aqui. E principalmente, no que preciso fazer pra dar certo. Não só por mim, mas pela minha irmã. Eu prometi que faria de tudo pra conseguir justiça pra nossa família. Pra salvar Suraya. E esse estágio é a chave pra isso.
Mas antes de qualquer coisa, preciso lidar com o Joseph Stive. Porque, de algum jeito que eu não entendo, ele tá sempre no meu caminho.
E pior: ele tá mais nos meus pensamentos do que eu gostaria.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 67
Comments