Apresentar um trabalho na faculdade, na frente dos colegas e dos professores, já tinha seus desafios. Mas estar numa sala cheia de advogados veteranos — gente com anos de experiência e vitórias notórias — era um teste de fogo. Hoje, eu e Joseph Stive estávamos a um passo de encarar essa realidade. Sentados lado a lado na sala de conferências da MST & Associados, a tensão entre nós era quase palpável. Por mais que eu tentasse manter a calma, a ansiedade estava lá, latente.
Joseph, em pé diante dos advogados, estava no comando da apresentação. Ele falava com confiança, projetando cada palavra de forma precisa e articulada. Eu tinha feito o trabalho pesado de pesquisar, organizar os documentos e verificar todas as informações, mas o que ele trouxe à tona ia além do que eu tinha conseguido. Joseph havia encontrado provas que conectavam o caso a um nível muito mais profundo. Eu o observava atentamente enquanto ele expunha cada detalhe, fascinado pelo domínio que parecia ter.
Para ser sincera, parte de mim estava impressionada — ele dominava o ambiente, prendia a atenção dos advogados como se fosse um veterano, não um estagiário. Em um instante, Joseph parecia muito mais do que o "chato do estágio" ou o “arrogante da sala”. Era como se ele fosse feito para aquilo, e algo na maneira como ele falava me deixava fascinada, embora eu jamais fosse admitir.
Na sala, alguns dos maiores nomes do Direito em Valeriam estavam ali, atentos: André Ramalho, mestre em contencioso corporativo; Clara Torres, imbatível no Direito de Família; Marcos Antunes, uma lenda dos direitos civis. Eu tinha lido sobre esses advogados nas revistas, e agora estava ali, tentando não transparecer o nervosismo. Mesmo Eliane Morgan, que raramente mostrava emoção, tinha um leve sorriso de aprovação enquanto Joseph expunha nossas descobertas.
"Será que realmente conseguimos?", pensei. Era difícil de acreditar que nosso trabalho, feito entre noites sem dormir e litros de café, estava agora sendo validado por aquelas pessoas. E a expressão de Eliane — um leve sorriso de canto de boca — era quase um elogio.
Quando Joseph finalmente concluiu, um silêncio de aprovação pairou sobre a sala. Os advogados trocaram olhares, visivelmente impressionados, e eu esperava que alguém perguntasse de onde vieram as provas que ele apresentou. A verdade é que até eu não sabia de onde ele tirou aqueles documentos e depoimentos. Mas, antes que qualquer pergunta surgisse, Eliane quebrou o silêncio.
— "Muito bem," disse ela, sua voz firme cortando o ar. "Vocês resolveram a fase preliminar. Agora, passaremos para o tribunal, mas essa parte já fica com a equipe principal."
Um alívio momentâneo tomou conta de mim. A tensão de dias e noites de trabalho parecia finalmente se dissipar, mas esse alívio logo deu lugar a um desconforto. Era como se tivéssemos feito todo o trabalho sujo, e agora que tudo estava alinhado, os advogados experientes tomariam o controle. Parte de mim queria estar no tribunal, fazer parte da ação. Mas, claro, ainda éramos estagiários, e nossa missão era fazer o "trabalho pesado" enquanto os advogados experientes brilhavam no tribunal.
Eliane continuou, sem dar muito espaço para devaneios.
— "Agora, vamos para um novo caso," disse ela, já nos entregando uma nova pasta de arquivos. "Precisamos que vocês entrevistem algumas testemunhas e garantam que, pelo menos, três delas deporão a nosso favor. Este é um caso delicado e a credibilidade das testemunhas será essencial."
Assenti, tentando manter uma expressão profissional, mas a frustração estava lá. Nenhum "obrigado" pelo que fizemos, nenhum reconhecimento pelo tempo que gastamos. Era como se esperassem que fizéssemos aquilo, como uma obrigação implícita.
Joseph, ao contrário, parecia indiferente. Ele pegou a pasta e folheou os documentos do novo caso, aparentemente já se preparando para o próximo desafio. Suspirei e decidi que não valia a pena insistir num reconhecimento que claramente não viria.
Enquanto os advogados começavam a deixar a sala, Eliane veio até nós. Seu olhar era sério, mas também havia uma intensidade ali que me surpreendeu.
— "Vocês fizeram um bom trabalho. Não costumo elogiar, então não esperem ouvir isso com frequência." — Sua voz era fria, mas senti a sinceridade. — "Mas saibam que isso é apenas o começo. Agora que sabem do que são capazes, esperem desafios cada vez maiores. Aqui, quanto mais você entrega, mais exigimos."
Ela nos lançou um último olhar enigmático antes de sair. Fiquei observando a porta fechar, sentindo um misto de alívio e uma adrenalina que começava a se acumular novamente.
— "Parece que descanso não está nos planos," comentei, mais pra mim mesma, mas Joseph, sempre atento, não deixou passar.
Ele riu levemente, folheando a pasta do próximo caso.
— "Bem-vinda ao mundo real, Montenegro. Quanto mais você faz, mais eles esperam. Vai se acostumando."
Revirei os olhos, mas, lá no fundo, não pude evitar um sorriso. Ele tinha razão. O mundo jurídico era implacável; mostrava-se imenso e, por vezes, solitário. Mas, ainda assim, eu sentia uma atração inegável por tudo aquilo. Estávamos apenas no início da jornada, e embora a pressão fosse avassaladora, eu queria mais.
Permaneci ali, observando Joseph enquanto ele continuava imerso nos documentos do próximo caso. Com um misto de curiosidade e teimosia, perguntei, tentando soar casual:
— "Como você conseguiu aqueles documentos, Stive?"
Ele levantou o olhar por um breve momento e deu de ombros com o mesmo ar misterioso de sempre.
— "Fontes confiáveis."
Eu revirei os olhos, sabendo que ele nunca revelaria seus segredos facilmente.
— "Claro, fontes confiáveis. Como não pensei nisso antes?"
Ele apenas sorriu e voltou a folhear os papéis, como se aquilo encerrasse o assunto. De certa forma, era irritante, mas ao mesmo tempo, eu sabia que fazia parte do jogo. Joseph era assim: enigmático, reservado, e talvez isso fosse parte do que o tornava interessante.
Caminhamos juntos até a saída da firma. O sol de Valeriam brilhava forte, e a brisa leve parecia um convite para respirar um pouco fora daquele ambiente carregado. Lá fora, senti um alívio, como se o peso das horas de concentração e pressão tivessem ficado para trás — pelo menos até o próximo dia.
— "Acho que merecemos um café," sugeri, como um escape rápido.
Ele riu de leve, mas não negou. Caminhamos até um café próximo à firma, e sentados ali, pude sentir uma estranha cumplicidade entre nós. Joseph e eu talvez nunca fôssemos amigos no sentido convencional, mas havia algo que compartilhávamos — o amor pela advocacia, o desafio de ser sempre melhor.
Enquanto esperávamos o café, tive um impulso que não conseguia explicar. Algo me dizia que Joseph, por trás de toda a competição e do sarcasmo, entendia minhas ambições. Olhei pra ele e disse, talvez mais como um desabafo:
— "Às vezes parece que estamos numa corrida sem fim, mas eu sinto que se parar, perco tudo."
Ele me encarou, mais sério, e assentiu, como se entendesse exatamente o que eu queria dizer.
— "É isso que separa os bons dos excelentes, Montenegro. Quem para, perde. E perder não é uma opção pra nós."
Senti o peso das palavras dele. E percebi que talvez, de alguma forma, Joseph fosse mais que um rival. Ele era um reflexo da minha própria determinação.
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Atualizado até capítulo 67
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