Estou aqui sentada no pequeno balcão da cozinha e olhondo pela janela do meu apartamento em Valeriam. A cidade pulsa com vida, sempre em movimento, completamente diferente da calma sufocante de Belo Monte. O sol da tarde se deita sobre os arranha-céus, tingindo tudo em tons alaranjados. Sinto o calor em meu rosto e, mesmo depois de cinco anos aqui, às vezes ainda me perco em pensamentos sobre a minha antiga vida. Um lugar que prefiro nunca mais revisitar.
A verdade é que nunca quis deixar Belo Monte. Eu era apenas uma garota do interior, com os pés firmes na terra e as mãos calejadas do trabalho. Mas Anaya... minha irmã, minha fortaleza, insistiu. "Você tem que ir, Yana. Vai ser bom para você. Aqui, seus sonhos acabam onde o horizonte termina. Lá fora, você pode fazer mais do que apenas sobreviver, é hora de você aprender a viver." Anaya sempre enxerga além de mim, como se visse através de nevoeiros. Sempre foi a mais forte.
A morte dos nossos pais nos deixou sem raízes. E Suraya, nossa irmã mais velha… ela sacrificou sua liberdade por nós. Sempre penso nela. Presa, pagando por algo que nem entendo, mas que sinto no fundo do peito ser uma injustiça. É por isso que estou em Valeriam. Minha missão nunca foi apenas viver bem, do jeito que Anaya deseja para mim. "Deixe eu trabalhando, quero que você viva e aproveiteo bom e do melhor", são palavras dela. Estou aqui para sobreviver, aprender, e me preparar para o momento de libertar Suraya. Ela deu tudo por nós. Agora, é a minha vez de retribuir.
Lembro do dia em que deixei Belo Monte. Anaya segura minha mão com firmeza enquanto o ônibus se afasta da pequena cidade. Seu olhar determinado me obriga a confiar nela, como sempre fiz. "Monteiro é um nome amaldiçoado," ela diz, entregando-me minha nova identidade. "Não seremos mais Monteiros. Vamos deixar esse passado para trás." Assim, Montenegro nasce. A sombra negra da nossa história ainda nos acompanha, mas agora com a força de quem sobreviveu a ela. Anaya foi a primeira a adotar o novo sobrenome; eu a sigo, levando comigo a coragem que ela me deu.
Mesmo longe, Anaya ainda é a minha força. Desde que me mudei, ela se tornou quase uma figura mítica na minha vida: forte, decidida, sempre à frente. Ela nunca deixou Belo Monte, e eu entendo. Afinal, está construindo um império, reescrevendo a nossa história. Anaya é quem sustenta nossa família, meu estudo e o luxo que ela me cobra para eu viver como uma princesa, mas isso não faz o meu estilo. Não gosto daquelas terras, das lembranças que trazem, mas é graças a ela que estou aqui, estudando Direito, buscando uma forma de ser alguém.
O curso de Direito nunca foi fácil. Valeriam é uma cidade cheia de oportunidades, mas também cruel com quem não está preparado. Me lembro das primeiras semanas na faculdade. Eu me sentia perdida, uma garota do interior cercada por mentes afiadas, gente que parecia ter nascido para isso. A cidade me engolia; os sons, as luzes, o cheiro constante de fumaça e pressa. Às vezes choro sozinha, pensando em largar tudo e correr para os braços de minha irmã. Mas Anaya me preparou, ao menos no coração. "Seja forte, Ayana. A vida nunca vai facilitar, mas eu confio em você."
Foi assim que comecei minha história na faculdade. O começo é solitário. Com o tempo, conheço pessoas que mudam a maneira como enxergo essa nova vida. A principal delas é Zau Nketh, minha amiga e colega de apartamento desde o segundo semestre. Ela tem um espírito livre, um senso de humor afiado, e, apesar das diferenças, logo se torna minha confidente.
Os dias são preenchidos por aulas intensas, debates acalorados e o esforço constante de me adaptar a uma realidade tão distante do que conhecia. Estudar Direito é a única coisa que faz sentido. A cada caso, a cada sentença, a cada artigo de lei, vejo uma oportunidade de entender o que aconteceu com Suraya. O sistema legal do país nem sempre é justo. Eu sei disso. E é por isso que preciso conhecê-lo a fundo, dominar cada aspecto, cada brecha, cada falha. Só assim encontrarei uma maneira de corrigir o erro que cometeu com minha irmã. E, no fim, acabo me apaixonando.
A faculdade não é apenas livros e leis. O primeiro garoto que realmente chama minha atenção é Julian Lopes, um estudante de Direito de outra turma. No começo, penso que encontrei alguém especial. Mas, como tantas outras coisas nesta cidade, ele também é uma ilusão. Essa decepção me prepara para outra pessoa, alguém que entra na minha vida de maneira inesperada e deixa marcas profundas: Joseph Stive.
Joseph e eu... Não é amor à primeira vista. É ódio à primeira vista. Durante os três primeiros anos de faculdade, estamos sempre em lados opostos. Ele é irônico, extrovertido, e suas piadas me irritam profundamente — ainda irritam. Eu sou o oposto: reservada, focada. Como água e óleo. Mas, com o tempo, nossas discussões se tornam outra coisa.
Trabalhar juntos me força a olhar além das nossas diferenças. E é isso que acho mais fascinante sobre Valeriam e a vida que construo aqui. Nada é o que parece à primeira vista.
Agora, no último ano da faculdade, tudo muda. Eu mudo. Não sou mais aquela garota do interior, cheia de medo do mundo. Estou pronta para lutar, para enfrentar as sombras que ainda pairam sobre minha família. E, acima de tudo, estou pronta para fazer o que for necessário para me tornar a pessoa que quero ser.
Enquanto olho para o horizonte, com a cidade brilhando à minha frente, sei que a jornada ainda está longe do fim. O caminho à frente será difícil, mas, como Anaya sempre me ensinou, é na adversidade que encontramos nossa verdadeira força. Agora sou Ayana Lemos Montenegro. E não há nada que me faça voltar atrás.
Apenas o futuro me espera. E nele, minha missão está clara: libertar minha irmã e encontrar a justiça que ela merece.
Essa é a minha história.
Essa sou eu, quando cheguei!
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Atualizado até capítulo 67
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