O sol brilhava forte do lado de fora do escritório, quase como um convite para uma pausa depois da manhã intensa que tivemos. Eu e Joseph acabávamos de sair da sala de reunião, ambos processando o peso do trabalho que acabáramos de apresentar. Enquanto eu repassava mentalmente as instruções do próximo caso, o silêncio pairava entre nós, até que ele, no seu jeito despreocupado de sempre, quebrou o gelo.
— “Então, Montenegro, o que você acha de almoçar fora? Sabe... alguma coisa decente pra variar.”
Olhei para ele, meio confusa, sem saber se ele estava brincando. Joseph me convidando para almoçar? Parecia improvável, pra não dizer estranho. Há quatro anos, éramos rivais na sala de aula e no estágio, cada um puxando a corda para o próprio lado. E agora ele surge com um convite casual?
— “Oi? Tá me chamando pra um almoço?” — perguntei, tentando manter o tom de surpresa sob controle.
Ele balançou a cabeça, rindo baixo.
— “Calma, não precisa parecer tão assustada. Eu sou uma companhia decente, sabia?”
Revirei os olhos, mas confesso que, lá no fundo, estava curiosa. Joseph nunca dava ponto sem nó, e, no mínimo, esse almoço prometia uma boa troca de ideias — ou de farpas.
— “Tá bom, Stive, eu topo.”
Caminhamos juntos até uma cafeteria que, segundo ele, era “um dos poucos lugares decentes” perto do escritório. O ambiente era aconchegante, com uma varanda ampla onde advogados e estagiários se misturavam, trocando conversas sobre trabalho e outras coisas que pareciam mais pessoais. Joseph pediu um lugar ali fora, e logo estávamos sentados, um de frente para o outro.
Enquanto esperávamos o cardápio, ele parecia mais relaxado do que de costume. Ajeitou o cabelo com uma naturalidade que eu não via nele no ambiente da firma, e seu olhar estava focado no horizonte, pensativo.
— “Então, alguma novidade sobre o próximo caso?” — perguntei, puxando assunto.
Joseph me olhou com um sorriso misterioso e balançou a cabeça.
— “Nada que você já não saiba. Mas queria te perguntar uma coisa... você se lembra de quando começamos a faculdade?”
A pergunta me pegou de surpresa, e senti um riso escapar.
— “Como poderia esquecer? Primeira aula e a gente já tava discutindo na frente da turma toda.”
Ele riu também, e por um segundo, foi como se voltássemos no tempo. Joseph e eu sempre nos desentendemos, desde aquele primeiro debate de ética jurídica em que cada um de nós fez questão de contrariar o outro só por diversão. Mas o que mais me marcou foi o quanto ele sempre levou tudo a sério — o curso, o estágio, e, mais recentemente, até o nosso trabalho em equipe.
— “E agora estamos aqui,” ele disse, recostando-se na cadeira. — “Não sei quanto a você, mas acho que a gente faz uma boa dupla. Com os ajustes certos, claro.”
— “Ajustes?” — arqueei a sobrancelha, tentando segurar um sorriso. — “Você quer dizer, mais paciência com o seu ego?”
Ele revirou os olhos, mas aceitou a provocação com um sorriso de canto.
— “Exatamente isso, Montenegro. E o que mais eu posso esperar, não é?”
Nosso almoço chegou, e, entre garfadas e pequenas conversas sobre os casos no escritório, senti que aquele convite tinha algo a mais. Joseph era diferente fora do ambiente da firma. Não havia a mesma postura dura, nem aquele ar de competição que sempre pairava entre nós. Ali, naquela varanda iluminada pelo sol de Valeriam, ele parecia mais humano, menos “Stive”, e mais... Joseph.
Então, de repente, ele me olhou de um jeito mais sério, como se tivesse acabado de tomar uma decisão.
— “Ayana, já pensou em abrir um escritório?”
Quase engasguei. Um escritório? Ele estava mesmo falando sério? Olhei pra ele, tentando entender o que se passava em sua cabeça.
— “Um escritório? Joseph, a gente mal tá começando, sabe disso, né? Esse estágio na MST é o que pode nos garantir um nome no mercado. Você já quer sair e abrir um escritório?”
Ele deu de ombros, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— “É claro que eu sei. Mas, um dia, seria interessante, não acha? A gente trabalhando em nossos próprios termos.”
Eu respirei fundo, ainda tentando processar. A ideia era atraente, admito. Eu sempre quis ter autonomia pra decidir meus casos, meus métodos, sem depender de um chefe ou de regras impostas por alguém. Mas havia um detalhe importante.
— “Você e eu... como sócios?”
Ele me olhou com um leve sorriso, e pela primeira vez, parecia que ele não estava jogando.
— “Por que não? A gente já provou que funciona como uma equipe. E eu tô falando de um plano futuro, claro, mas... talvez devêssemos considerar.”
Eu ri, mas, lá no fundo, a ideia me animava. A verdade é que, desde o início, Joseph sempre me desafiou. E, de certa forma, essa competitividade nos levava pra frente. Porém, a ideia de transformar essa rivalidade em parceria... era intrigante.
— “Você é ousado, Stive, vou te dar isso.”
Ele sorriu, satisfeito.
— “Eu sei, Montenegro. Mas, por enquanto, vamos fazer o que sabemos de melhor aqui na MST. Porque eu sei que você, tanto quanto eu, quer ser a melhor.”
Enquanto pagávamos a conta e voltávamos pro escritório, percebi que algo tinha mudado entre nós. Não éramos mais apenas rivais; éramos parceiros em potencial. Eu não sabia se algum dia realmente abriríamos esse escritório juntos, mas de uma coisa eu tinha certeza: essa parceria estava só começando.
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Atualizado até capítulo 67
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