A gente finalmente saiu daquele ambiente carregado da firma e veio pro café ao lado. Um respiro depois da tensão da reunião e da pressão de ser “só” estagiária na MST. Eu e Joseph encontramos uma mesa no canto, e eu sentia aquele orgulho silencioso, como se tivéssemos vencido uma pequena guerra, mesmo que ninguém tenha nos dado os louros por isso.
Pedi um café forte, e Joseph, pra variar, pediu um expresso sem açúcar. A cara do sujeito. Todo sério, todo cheio de camadas. Olho pra ele enquanto o café não chega e fico me perguntando quem é o Joseph por trás dessa pose de "o advogado mais promissor de Valeriam".
— Então, Stive. O que te fez escolher Direito? — pergunto, casualmente, enquanto dou uma mexida distraída no guardanapo.
Ele me lança um olhar rápido, daquele jeito dele que parece que mede cada palavra, como se fosse pesar a importância de tudo. Sinceramente, eu esperava uma resposta sarcástica, mas ele só respira fundo e dá um gole no café que acaba de chegar, olhando pela janela por um segundo.
— Acho que todo mundo tem seus motivos, né? — ele começa, ainda olhando pra fora. — Mas, pra mim, foi meio uma questão de... sobrevivência.
Minha curiosidade dispara. Nunca vi o Joseph falando assim, tão... aberto. Ele respira fundo e continua:
— Meus pais se separaram quando eu era criança. Longa história. Meu pai tentou ficar com a guarda e conseguiu, mesmo que minha mãe fosse a mais apta. Só que... não foi por mérito dele, mas porque ele tinha o dinheiro pra contratar os melhores advogados.
Meus olhos se arregalam um pouco. Quem diria, hein? De repente, o garoto arrogante da sala tinha uma história que eu nunca imaginaria. Ele continua, agora me olhando diretamente.
— Eu vi minha mãe ser humilhada, Ayana. Ser tratada como se fosse alguém sem valor só porque não podia pagar o que o meu pai pagava. Quando percebi o que era o Direito... vi que tinha poder nisso. Não só pra ganhar dinheiro ou status, mas pra realmente equilibrar o jogo.
Eu fico em silêncio por um momento, processando. Então, o Joseph tem suas próprias razões — e são bem mais profundas do que a competição com os outros ou o desejo de ser o melhor. Há uma raiva contida ali, uma vontade de corrigir um desequilíbrio que ele sentiu desde pequeno. Vejo uma determinação que parece familiar, uma que eu mesma carrego.
— Eu não sabia disso. Deve ter sido difícil...
Ele apenas assente, parecendo encerrar o assunto, mas, depois de um instante, ele me devolve a pergunta:
— E você, Montenegro? Qual foi a faísca que te trouxe pro Direito?
Dou um sorriso irônico, virando o copo entre os dedos. Eu poderia responder com o discurso que costumo dar pra quem pergunta, algo bonito sobre justiça. Mas, na real, isso começou de um jeito bem mais profundo.
— Bom, digamos que tenho motivos próprios também. — Começo, escolhendo as palavras. — Tenho uma irmã mais velha, a Suraya. E, quando eu era mais nova, vi minha família desmoronar. As injustiças que aconteceram ali ainda doem em mim.
Ele me olha com uma curiosidade cautelosa, mas eu ainda sinto que não quero contar tudo sobre a Suraya. Então, digo:
— A verdade é que o Direito, pra mim, é uma forma de... fazer algo útil. Mudar o jogo, como você disse. Porque se a gente não luta pelas pessoas que ama, o que estamos fazendo, né?
Ele acena com a cabeça, um leve sorriso de compreensão, como se tivesse encontrado um reflexo na minha história. Nesse momento, ele se levanta e avisa que vai ao banheiro. Aproveito a pausa e tiro o celular do bolso, com a mensagem de Anaya ainda na cabeça. A dúvida sobre Suraya nunca some de mim; parece uma sombra que acompanha cada decisão minha.
Deslizo pela lista de contatos e ligo. Depois de alguns toques, ouço a voz firme e controlada de Anaya.
— Alô?
— Oi, Ana. Tudo bem? — Tento soar casual.
— Yana! Faz um tempo que você não liga, hein? — diz ela, a voz um pouco mais suave. — Como você tá?
— Ah, a correria de sempre, né? Faculdade, estágio... você sabe. — Dou uma risadinha pra quebrar o gelo. — E você? Como andam as coisas na fazenda?
Ela ri, e pela primeira vez, ouço um orgulho genuíno na voz dela.
— A fazenda tá prosperando, Yana. E as coisas aqui estão indo bem. Muito trabalho, mas vale a pena, sabe? Agora, é mais uma questão de cuidar pra manter tudo no eixo.
Ouvir a palavra “manter” na boca da Anaya me faz lembrar de Suraya e daquela promessa de que, um dia, entenderíamos o que realmente aconteceu. Dou uma pausa, mas não consigo segurar:
— Ana, você viu aquela notícia hoje? Uma condenação de uma mulher sem provas...
Ela faz um som abafado, talvez mexendo em algo ou desviando o assunto, mas eu continuo:
— Isso me fez pensar na Suraya, sabe? Como se... como se estivéssemos deixando o tempo passar sem lutar por ela.
Ela suspira do outro lado, a voz mais baixa, quase um sussurro.
— Eu sei, Yana. Mas o tempo também ensina a gente a ter paciência. Eu sei o que você sente, mas agora não é o momento.
— Mas Anaya... quando vai ser o momento?
Ela hesita, e sinto o peso das palavras dela antes mesmo que saiam.
— Quando você estiver pronta. E pra isso, você precisa focar nos seus estudos, na sua carreira. O que passou, passou... a Suraya... nós vamos resolver as coisas do jeito certo, mas preciso que confie.
Sinto um aperto no peito. Parece que ela quer me proteger de algo que ainda não entendo. Mas antes que eu insista, ouço Joseph voltar à mesa, e decido encerrar.
— Tá bom, Ana. Vou tentar, mas... qualquer novidade, me avisa, tá?
— Claro, Yana. E, por favor, se cuida. — A voz dela fica mais firme antes de desligar.
Guardo o celular, tentando processar a conversa, mas minha mente ainda gira em torno do nome da Suraya. Sinto uma dorzinha incômoda no peito, como se estivesse faltando uma peça na minha vida.
— Tudo certo com a família? — Joseph pergunta, se sentando novamente.
— Ah, coisas de família. Às vezes é só complicado. — Tentei deixar o assunto de lado, e ele acena, sem insistir. Mas o olhar dele ainda tem aquela curiosidade de quem entende o peso do que deixamos de lado pra seguir em frente.
Estamos retomando o assunto sobre o trabalho, mas então, Julian Lopes entra no café com alguns colegas da firma concorrente. Ele me avista, claro, e vem direto até nós. Com o mesmo sorriso que já me irritou antes, puxa uma cadeira, sem perguntar, e se senta.
— Ayana, Joseph, — ele diz, com uma falsa casualidade. — E aí, como estão as coisas na MST? Espero que não estejam sobrecarregados.
Eu sinto meu estômago revirar. Julian sempre teve um dom pra invadir o espaço, e, pior, sabe que aquela insistência dele não passa despercebida. Ele me olha um pouco mais do que o necessário, como se ainda tivesse algo “não resolvido” entre a gente.
— Posso me juntar a vocês? — ele pergunta, mas é só uma formalidade, porque ele já está praticamente fazendo parte da conversa.
Antes que eu responda, Joseph, sem rodeios, solta:
— Não vai dar, Julian. — A resposta dele é direta, fria, sem hesitação. Fiquei surpresa, mas não demonstrei.
Julian tenta disfarçar, mas a expressão dele endurece um pouco, e então ele sorri seco, se voltando para mim:
— Bom, então… nos vemos por aí, Ayana. — Ele se despede e sai, mas sinto o clima tenso que ele deixou no ar.
Quando ele se afasta, solto um suspiro de alívio e agradeço Joseph com uma risadinha:
— Valeu pela intervenção. Confesso que essa visita surpresa não era bem-vinda.
— Achei que não precisava de uma terceira pessoa pra atrapalhar nossa conversa, — ele responde, dando de ombros.
Acabamos rindo, e um silêncio de cumplicidade se instala, como se cada um de nós soubesse que, por mais complicada que fosse a vida, ali estávamos... juntos na batalha.
— Você devia tentar ser menos irritante, sabia? — provoco, já me levantando.
Ele sorri, sem se justificar.
— E você, Montenegro, devia ser mais realista. Nem sempre dá pra saber tudo. Aprenda a lidar com isso.
Sinto um sorriso se formando e percebo que, apesar de tudo, essa parceria — ou rivalidade — é exatamente o que me mantém em movimento.
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Atualizado até capítulo 67
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