Capítulo 10: Sob Pressão

Já se passaram duas semanas desde que resolvemos nosso primeiro caso na firma, e eu seria ingênua em pensar que as coisas entre mim e Joseph Stive mudariam depois daquele almoço. Sim, por um breve momento, eu acreditei que trabalhar com ele poderia se tornar mais fácil, que talvez esse fosse o início de uma colaboração mais tranquila. Mas estava redondamente enganada. Joseph continuava o mesmo: sempre com uma resposta sarcástica na ponta da língua e uma habilidade impressionante de me tirar do sério, como se fosse o único propósito dele na vida.

Pra piorar, o novo caso que Eliane nos deu trouxe desafios extras que nenhum de nós imaginava. Nossa cliente processava uma das corporações mais poderosas de Valeriam, uma gigante do setor de construção, conhecida não só por seu histórico de negligência com os trabalhadores, mas também por manipular provas e intimidar qualquer um que ousasse abrir a boca contra eles. O problema era que a empresa parecia ter um talento especial pra fazer as testemunhas desaparecerem — ou mudarem de ideia.

No começo, tentei lidar com tudo isso sozinha. Joseph estava “ocupado” com suas prioridades — que incluíam sumir nas tardes para jogar basquete e arranjar desculpas mirabolantes. Eu sabia que convencer as testemunhas a depor contra essa corporação exigia uma dedicação que ele parecia não ter.

— "Stive, é sério," eu disse na quinta vez que ele se atrasou para uma reunião com uma testemunha. — "O julgamento é daqui a duas semanas e a gente não tem nem metade das pessoas que prometemos à Eliane."

Ele só deu aquele sorrisinho irritante.

— "Relaxa, Montenegro. Temos tempo."

“Relaxa, relaxa…” Aquela palavra já estava me dando nos nervos. Ele agia como se fosse um passeio no parque, e eu ali, tentando impedir que tudo desmoronasse. Cada vez que ele se esquivava das reuniões, ou deixava de aparecer pra falar com as testemunhas, eu só conseguia pensar em como éramos diferentes. Pra ele, tudo era um grande jogo. Pra mim, isso era sério — uma chance real de provar meu valor.

Até que, finalmente, cansei do jogo dele e resolvi partir pra um acordo. Um pouco de “chantagem”, digamos assim.

— "Olha, Joseph," disse, depois que ele sugeriu, mais uma vez, “relaxar um pouco” e deixar as coisas fluírem. — "Se você conseguir as testemunhas que precisamos, eu prometo que não reclamo quando você faltar em uma reunião com a Eliane. Você pode ir jogar basquete ou o que for. Mas me ajuda a resolver isso logo."

Joseph me olhou, com aquele sorriso maroto que eu conhecia tão bem.

— "Negócio fechado, Montenegro. Mas eu quero todas as testemunhas que precisar, pra conseguir minha folga."

Suspirei, arrependida na mesma hora de ter proposto aquilo, mas era a nossa última chance.

E, para minha surpresa, a partir daquele dia, ele finalmente começou a ajudar de verdade. Em menos de três dias, conseguimos seis testemunhas. Ele parecia ter virado outra pessoa, aparecendo com depoentes firmes e decididos a ajudar nossa cliente a levar essa corporação pra justiça. Eu sabia que ele tinha algo especial para convencer as pessoas — provavelmente aquele charme irritante que funciona até quando ele nem tenta —, mas nunca imaginei que seria tão fácil pra ele. Enquanto eu lutava pra conseguir uma declaração hesitante, ele surgia com pessoas prontas para depor.

No dia do julgamento, a tensão era quase sufocante. A sala estava lotada, com os advogados da corporação prontos para atacar qualquer falha em nossa acusação. Eu tentava me manter focada, mas sabia que qualquer deslize ali podia comprometer tudo. Joseph parecia, como sempre, relaxado demais pra ocasião. Ele me lançou um sorriso de canto, o tipo de sorriso que me fazia querer estapear a cara dele — mas, claro, também não podia negar que parte de mim estava aliviada por tê-lo ao meu lado ali.

Mas antes mesmo de entrarmos na sala de audiência, algo inesperado aconteceu.

Uma das testemunhas que conseguimos com tanto esforço, Dona Amélia, nos ligou dizendo que estava sendo ameaçada por alguém ligado à corporação e que não poderia ir ao tribunal. Aquilo me atingiu como um balde de água fria. Sem a presença dela, nossa defesa perderia força.

Joseph parecia mais sério dessa vez. Ele sugeriu que fôssemos até a casa dela, na Vila das Flores, um bairro afastado, e tentássemos convencê-la a voltar com a gente.

Chegamos à Vila das Flores no início da tarde, uma área de ruas estreitas e casas simples, mas que ainda tinha uma beleza peculiar. A combinação de jardins floridos e fachadas coloridas deixava o lugar com um ar quase nostálgico. Ali, entre flores e casas antigas, eu tentava me acalmar, mas a urgência do caso tornava difícil manter qualquer tranquilidade. Se Dona Amélia desistisse, não só perderíamos uma peça fundamental no julgamento, mas todo o trabalho dos últimos dias poderia ir por água abaixo.

Batemos na porta e, depois de um tempo, Dona Amélia abriu, com uma expressão de cansaço misturada com medo. Ela nos convidou pra entrar, mas não demorou a explicar os motivos do cancelamento.

— "Eu sei o quanto isso é importante, minha filha," disse ela, olhando para mim, os olhos cheios de tristeza. — "Mas... esses homens apareceram ontem à noite, me ameaçando. Disseram que, se eu fosse ao tribunal, eles iam atrás da minha família."

Meu sangue ferveu na hora. Tentei manter a calma, mas Joseph, vendo minha expressão, se adiantou com aquele tom de voz firme e paciente que, confesso, eu não sabia que ele tinha.

— "Dona Amélia, nós não vamos deixar que nada aconteça com a senhora. A corporação está jogando sujo porque sabe que seu depoimento é essencial. E nós estamos aqui pra garantir que ninguém vai te calar."

As palavras dele pareciam tranquilizá-la um pouco, mas percebi que ela ainda hesitava.

Nesse instante, ouvimos um barulho lá fora. Joseph foi até a janela e viu dois homens de boné e óculos escuros se aproximando da casa. Meu coração acelerou. Não eram seguranças comuns — parecia claro que estavam ali pra intimidar, talvez até pior. E aquele era o tipo de situação que eu jamais imaginaria enfrentar, pelo menos não tão cedo.

— "Acho que temos companhia," Joseph murmurou, virando-se pra mim.

Agimos rápido. Ele me puxou e sussurrou que precisávamos sair dali antes que fôssemos encurralados. Com a ajuda de Dona Amélia, saímos pelos fundos, atravessando o quintal e subindo em um táxi que tivemos a sorte de encontrar parado na rua. A adrenalina disparou no meu corpo, e eu mal conseguia acreditar no que estava acontecendo.

Durante o trajeto de volta ao tribunal, Joseph parecia mais sério do que nunca. Ao invés de fazer alguma piada irritante, ele segurou a mão de Dona Amélia e assegurou que ficaríamos com ela o tempo todo, até que ela estivesse em segurança.

No tribunal, ao final de seu depoimento, Dona Amélia deixou claro que não estava mais com medo. Suas palavras foram impactantes, e eu senti o efeito que isso teve nos jurados. Por mais que a defesa da corporação tentasse manipular as respostas, eles não conseguiram.

O caso era nosso. Na saída, Eliane nos encontrou no corredor, e senti um alívio ao vê-la. Mesmo com todos os obstáculos, vencemos.

Mas, antes que eu pudesse comemorar, o olhar sério de Eliane nos lembrou que a vitória não era tudo.

— "Vocês fizeram um ótimo trabalho, conseguiram as testemunhas e ganhamos o caso," ela começou. "Mas preciso que entendam uma coisa: não podemos contar com a sorte. Na próxima vez, não me apareçam em cima da hora. Na advocacia, o processo é tão importante quanto o resultado."

O olhar dela, firme e direto, me fez sentir o peso das suas palavras. Joseph, claro, deu aquele sorriso convencido e respondeu com um tom despreocupado.

— "Mas conseguimos, né?"

Ela o encarou com um olhar de reprovação e, com isso, se afastou.

Quando ficamos sozinhos, Joseph finalmente soltou um suspiro, e eu pude ver uma exaustão que ele raramente deixava transparecer. Ainda assim, ele não perdeu a chance de cobrar o nosso acordo.

— "Então, Montenegro, sobre aquele dia de folga..."

— "Vai, Stive," suspirei, tentando disfarçar um sorriso. — "Pode tirar sua folga. Mas saiba que, na próxima vez, não vou pegar leve."

Ele riu e se afastou, deixando-me ali com meus pensamentos. Olhei ao redor, o peso dos últimos dias finalmente caindo sobre mim. Eu deveria estar cansada, mas sentia algo diferente, uma sensação de que, de alguma forma, tudo isso tinha me fortalecido.

Ainda havia muito a aprender, especialmente sobre o trabalho em equipe, mas, naquele momento, eu sabia que

essa parceria com Joseph tinha mais potencial do que eu imaginava. E, quem sabe, com o tempo, as coisas entre nós dois poderiam mudar.

Capítulos
1 Palavra do Autor & Apresentação
2 Prólogo
3 Capítulo 1: Ayana
4 Capítulo 2: O Chato Sempre Aparece
5 Capítulo 3: Fio Solto e Promessas de Encrenca
6 Capítulo 4: Batalha dos Gigantes
7 Capítulo 5: Noites de Risos e Memórias
8 Capítulo 6: Cicatrizes e Velhos Fantasmas
9 Capítulo 7: O Peso da Experiência
10 Capítulo 8: Revelações no Café
11 Capítulo 9: Uma Proposta Inesperada
12 Capítulo 10: Sob Pressão
13 Capítulo 11: Entre Linhas e Lembranças
14 Capítulo 12: Fragmentos de Justiça
15 Capítulo 13: O Peso da Verdade
16 Capítulo 14: Entre Brilhos e Noitadas
17 Capítulo 15: Sol, Piscina e Sombras do Passado
18 Capítulo 16: Entre Águas e Farpas
19 Capítulo 17: Em Ponto de Ebulição
20 Capítulo 18: Velhos e Novos Conflitos
21 Capítulo 19: A Hora da Verdade
22 Capítulo 20: Redefinindo Laços e Limites
23 Capítulo 21: Tentação e Limites
24 Capítulo 22: Despertando Verdades
25 Capítulo 23: Debates e Dilemas no Refeitório
26 Capítulo 24: Uma Noite de Conversa e Confusão
27 Capítulo 25 - Noite à Valeriana
28 Capítulo 26: Um Dia a Mais no Redemoinho
29 Capítulo 27: Destinos Entrelaçados
30 Capítulo 28: Entre Jogos e Rivalidades
31 Capítulo 29: Entre Ventos e Confissões
32 Capítulo 30: Sob o Céu Estrelado
33 Capítulo 31: Sob o Céu e as Ondas
34 Capítulo 32: Sob os Olhos da Cidade
35 Capítulo 33: O Grande Dia
36 Capítulo 34: Novas Conquistas, Velhos Segredos
37 Capítulo 35: A Teia da Justiça
38 Capítulo 36: Sinais e Conexões
39 Capítulo 37: Descobertas e Compromissos
40 Capítulo 38: Primeiras Consequências Profissionais
41 Capítulo 39: Conquistas e Descobertas
42 Capítulo 40: Um dia Diferente
43 Capítulo 41: Uma Pausa para Viver
44 Capítulo 42: Despedidas e Novos Começos
45 Capítulo 43: Revelações e Opostos
46 Capítulo 44: Um Amanhecer de Revelações
47 Capítulo 45: O Dia em que Eu Virei Criança
48 Capítulo 46: Destino Lagoas – Sem Planos, Apenas Vida
49 Capítulo 47: Luzes de Lagoas
50 Capítulo 48 – Olhos nas Sombras
51 Capítulo 49 – A Teia de Mentiras
52 Capítulo 50 – Sombras e Promessas
53 Capítulo 51 – Ecos de Silêncio e Vozes nas Sombras
54 Capítulo 52 - Pressão e Reações
55 Capítulo 53: Laços que Nunca Quebram
56 Capítulo 54 – Ecos de uma cidade dourada
57 Capítulo 55 – À Beira do Abismo
58 Capítulo 56 – O Dia da Verdade
59 Capítulo 57 – O Veredicto
60 Capítulo 58 - O Peso da Liberdade
61 Capítulo 59 - Sob o Céu de Lagoas
62 Capítulo 60: Primeiras Decisões
63 Capítulo 61: Ventos do Mar
64 Capítulo 62: Recomeços e Despedidas
65 Capítulo 63: Quem É Você, Stive?
66 Epílogo - Três Anos Depois: O Ciclo da Vida
67 Galeria de Memórias
Capítulos

Atualizado até capítulo 67

1
Palavra do Autor & Apresentação
2
Prólogo
3
Capítulo 1: Ayana
4
Capítulo 2: O Chato Sempre Aparece
5
Capítulo 3: Fio Solto e Promessas de Encrenca
6
Capítulo 4: Batalha dos Gigantes
7
Capítulo 5: Noites de Risos e Memórias
8
Capítulo 6: Cicatrizes e Velhos Fantasmas
9
Capítulo 7: O Peso da Experiência
10
Capítulo 8: Revelações no Café
11
Capítulo 9: Uma Proposta Inesperada
12
Capítulo 10: Sob Pressão
13
Capítulo 11: Entre Linhas e Lembranças
14
Capítulo 12: Fragmentos de Justiça
15
Capítulo 13: O Peso da Verdade
16
Capítulo 14: Entre Brilhos e Noitadas
17
Capítulo 15: Sol, Piscina e Sombras do Passado
18
Capítulo 16: Entre Águas e Farpas
19
Capítulo 17: Em Ponto de Ebulição
20
Capítulo 18: Velhos e Novos Conflitos
21
Capítulo 19: A Hora da Verdade
22
Capítulo 20: Redefinindo Laços e Limites
23
Capítulo 21: Tentação e Limites
24
Capítulo 22: Despertando Verdades
25
Capítulo 23: Debates e Dilemas no Refeitório
26
Capítulo 24: Uma Noite de Conversa e Confusão
27
Capítulo 25 - Noite à Valeriana
28
Capítulo 26: Um Dia a Mais no Redemoinho
29
Capítulo 27: Destinos Entrelaçados
30
Capítulo 28: Entre Jogos e Rivalidades
31
Capítulo 29: Entre Ventos e Confissões
32
Capítulo 30: Sob o Céu Estrelado
33
Capítulo 31: Sob o Céu e as Ondas
34
Capítulo 32: Sob os Olhos da Cidade
35
Capítulo 33: O Grande Dia
36
Capítulo 34: Novas Conquistas, Velhos Segredos
37
Capítulo 35: A Teia da Justiça
38
Capítulo 36: Sinais e Conexões
39
Capítulo 37: Descobertas e Compromissos
40
Capítulo 38: Primeiras Consequências Profissionais
41
Capítulo 39: Conquistas e Descobertas
42
Capítulo 40: Um dia Diferente
43
Capítulo 41: Uma Pausa para Viver
44
Capítulo 42: Despedidas e Novos Começos
45
Capítulo 43: Revelações e Opostos
46
Capítulo 44: Um Amanhecer de Revelações
47
Capítulo 45: O Dia em que Eu Virei Criança
48
Capítulo 46: Destino Lagoas – Sem Planos, Apenas Vida
49
Capítulo 47: Luzes de Lagoas
50
Capítulo 48 – Olhos nas Sombras
51
Capítulo 49 – A Teia de Mentiras
52
Capítulo 50 – Sombras e Promessas
53
Capítulo 51 – Ecos de Silêncio e Vozes nas Sombras
54
Capítulo 52 - Pressão e Reações
55
Capítulo 53: Laços que Nunca Quebram
56
Capítulo 54 – Ecos de uma cidade dourada
57
Capítulo 55 – À Beira do Abismo
58
Capítulo 56 – O Dia da Verdade
59
Capítulo 57 – O Veredicto
60
Capítulo 58 - O Peso da Liberdade
61
Capítulo 59 - Sob o Céu de Lagoas
62
Capítulo 60: Primeiras Decisões
63
Capítulo 61: Ventos do Mar
64
Capítulo 62: Recomeços e Despedidas
65
Capítulo 63: Quem É Você, Stive?
66
Epílogo - Três Anos Depois: O Ciclo da Vida
67
Galeria de Memórias

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