Já se passaram duas semanas desde que resolvemos nosso primeiro caso na firma, e eu seria ingênua em pensar que as coisas entre mim e Joseph Stive mudariam depois daquele almoço. Sim, por um breve momento, eu acreditei que trabalhar com ele poderia se tornar mais fácil, que talvez esse fosse o início de uma colaboração mais tranquila. Mas estava redondamente enganada. Joseph continuava o mesmo: sempre com uma resposta sarcástica na ponta da língua e uma habilidade impressionante de me tirar do sério, como se fosse o único propósito dele na vida.
Pra piorar, o novo caso que Eliane nos deu trouxe desafios extras que nenhum de nós imaginava. Nossa cliente processava uma das corporações mais poderosas de Valeriam, uma gigante do setor de construção, conhecida não só por seu histórico de negligência com os trabalhadores, mas também por manipular provas e intimidar qualquer um que ousasse abrir a boca contra eles. O problema era que a empresa parecia ter um talento especial pra fazer as testemunhas desaparecerem — ou mudarem de ideia.
No começo, tentei lidar com tudo isso sozinha. Joseph estava “ocupado” com suas prioridades — que incluíam sumir nas tardes para jogar basquete e arranjar desculpas mirabolantes. Eu sabia que convencer as testemunhas a depor contra essa corporação exigia uma dedicação que ele parecia não ter.
— "Stive, é sério," eu disse na quinta vez que ele se atrasou para uma reunião com uma testemunha. — "O julgamento é daqui a duas semanas e a gente não tem nem metade das pessoas que prometemos à Eliane."
Ele só deu aquele sorrisinho irritante.
— "Relaxa, Montenegro. Temos tempo."
“Relaxa, relaxa…” Aquela palavra já estava me dando nos nervos. Ele agia como se fosse um passeio no parque, e eu ali, tentando impedir que tudo desmoronasse. Cada vez que ele se esquivava das reuniões, ou deixava de aparecer pra falar com as testemunhas, eu só conseguia pensar em como éramos diferentes. Pra ele, tudo era um grande jogo. Pra mim, isso era sério — uma chance real de provar meu valor.
Até que, finalmente, cansei do jogo dele e resolvi partir pra um acordo. Um pouco de “chantagem”, digamos assim.
— "Olha, Joseph," disse, depois que ele sugeriu, mais uma vez, “relaxar um pouco” e deixar as coisas fluírem. — "Se você conseguir as testemunhas que precisamos, eu prometo que não reclamo quando você faltar em uma reunião com a Eliane. Você pode ir jogar basquete ou o que for. Mas me ajuda a resolver isso logo."
Joseph me olhou, com aquele sorriso maroto que eu conhecia tão bem.
— "Negócio fechado, Montenegro. Mas eu quero todas as testemunhas que precisar, pra conseguir minha folga."
Suspirei, arrependida na mesma hora de ter proposto aquilo, mas era a nossa última chance.
E, para minha surpresa, a partir daquele dia, ele finalmente começou a ajudar de verdade. Em menos de três dias, conseguimos seis testemunhas. Ele parecia ter virado outra pessoa, aparecendo com depoentes firmes e decididos a ajudar nossa cliente a levar essa corporação pra justiça. Eu sabia que ele tinha algo especial para convencer as pessoas — provavelmente aquele charme irritante que funciona até quando ele nem tenta —, mas nunca imaginei que seria tão fácil pra ele. Enquanto eu lutava pra conseguir uma declaração hesitante, ele surgia com pessoas prontas para depor.
No dia do julgamento, a tensão era quase sufocante. A sala estava lotada, com os advogados da corporação prontos para atacar qualquer falha em nossa acusação. Eu tentava me manter focada, mas sabia que qualquer deslize ali podia comprometer tudo. Joseph parecia, como sempre, relaxado demais pra ocasião. Ele me lançou um sorriso de canto, o tipo de sorriso que me fazia querer estapear a cara dele — mas, claro, também não podia negar que parte de mim estava aliviada por tê-lo ao meu lado ali.
Mas antes mesmo de entrarmos na sala de audiência, algo inesperado aconteceu.
Uma das testemunhas que conseguimos com tanto esforço, Dona Amélia, nos ligou dizendo que estava sendo ameaçada por alguém ligado à corporação e que não poderia ir ao tribunal. Aquilo me atingiu como um balde de água fria. Sem a presença dela, nossa defesa perderia força.
Joseph parecia mais sério dessa vez. Ele sugeriu que fôssemos até a casa dela, na Vila das Flores, um bairro afastado, e tentássemos convencê-la a voltar com a gente.
Chegamos à Vila das Flores no início da tarde, uma área de ruas estreitas e casas simples, mas que ainda tinha uma beleza peculiar. A combinação de jardins floridos e fachadas coloridas deixava o lugar com um ar quase nostálgico. Ali, entre flores e casas antigas, eu tentava me acalmar, mas a urgência do caso tornava difícil manter qualquer tranquilidade. Se Dona Amélia desistisse, não só perderíamos uma peça fundamental no julgamento, mas todo o trabalho dos últimos dias poderia ir por água abaixo.
Batemos na porta e, depois de um tempo, Dona Amélia abriu, com uma expressão de cansaço misturada com medo. Ela nos convidou pra entrar, mas não demorou a explicar os motivos do cancelamento.
— "Eu sei o quanto isso é importante, minha filha," disse ela, olhando para mim, os olhos cheios de tristeza. — "Mas... esses homens apareceram ontem à noite, me ameaçando. Disseram que, se eu fosse ao tribunal, eles iam atrás da minha família."
Meu sangue ferveu na hora. Tentei manter a calma, mas Joseph, vendo minha expressão, se adiantou com aquele tom de voz firme e paciente que, confesso, eu não sabia que ele tinha.
— "Dona Amélia, nós não vamos deixar que nada aconteça com a senhora. A corporação está jogando sujo porque sabe que seu depoimento é essencial. E nós estamos aqui pra garantir que ninguém vai te calar."
As palavras dele pareciam tranquilizá-la um pouco, mas percebi que ela ainda hesitava.
Nesse instante, ouvimos um barulho lá fora. Joseph foi até a janela e viu dois homens de boné e óculos escuros se aproximando da casa. Meu coração acelerou. Não eram seguranças comuns — parecia claro que estavam ali pra intimidar, talvez até pior. E aquele era o tipo de situação que eu jamais imaginaria enfrentar, pelo menos não tão cedo.
— "Acho que temos companhia," Joseph murmurou, virando-se pra mim.
Agimos rápido. Ele me puxou e sussurrou que precisávamos sair dali antes que fôssemos encurralados. Com a ajuda de Dona Amélia, saímos pelos fundos, atravessando o quintal e subindo em um táxi que tivemos a sorte de encontrar parado na rua. A adrenalina disparou no meu corpo, e eu mal conseguia acreditar no que estava acontecendo.
Durante o trajeto de volta ao tribunal, Joseph parecia mais sério do que nunca. Ao invés de fazer alguma piada irritante, ele segurou a mão de Dona Amélia e assegurou que ficaríamos com ela o tempo todo, até que ela estivesse em segurança.
No tribunal, ao final de seu depoimento, Dona Amélia deixou claro que não estava mais com medo. Suas palavras foram impactantes, e eu senti o efeito que isso teve nos jurados. Por mais que a defesa da corporação tentasse manipular as respostas, eles não conseguiram.
O caso era nosso. Na saída, Eliane nos encontrou no corredor, e senti um alívio ao vê-la. Mesmo com todos os obstáculos, vencemos.
Mas, antes que eu pudesse comemorar, o olhar sério de Eliane nos lembrou que a vitória não era tudo.
— "Vocês fizeram um ótimo trabalho, conseguiram as testemunhas e ganhamos o caso," ela começou. "Mas preciso que entendam uma coisa: não podemos contar com a sorte. Na próxima vez, não me apareçam em cima da hora. Na advocacia, o processo é tão importante quanto o resultado."
O olhar dela, firme e direto, me fez sentir o peso das suas palavras. Joseph, claro, deu aquele sorriso convencido e respondeu com um tom despreocupado.
— "Mas conseguimos, né?"
Ela o encarou com um olhar de reprovação e, com isso, se afastou.
Quando ficamos sozinhos, Joseph finalmente soltou um suspiro, e eu pude ver uma exaustão que ele raramente deixava transparecer. Ainda assim, ele não perdeu a chance de cobrar o nosso acordo.
— "Então, Montenegro, sobre aquele dia de folga..."
— "Vai, Stive," suspirei, tentando disfarçar um sorriso. — "Pode tirar sua folga. Mas saiba que, na próxima vez, não vou pegar leve."
Ele riu e se afastou, deixando-me ali com meus pensamentos. Olhei ao redor, o peso dos últimos dias finalmente caindo sobre mim. Eu deveria estar cansada, mas sentia algo diferente, uma sensação de que, de alguma forma, tudo isso tinha me fortalecido.
Ainda havia muito a aprender, especialmente sobre o trabalho em equipe, mas, naquele momento, eu sabia que
essa parceria com Joseph tinha mais potencial do que eu imaginava. E, quem sabe, com o tempo, as coisas entre nós dois poderiam mudar.
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Atualizado até capítulo 67
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