Tô sentada na mesa da cozinha, cercada de papéis espalhados e o laptop aberto, com os olhos grudados no dossiê do caso que a Eliane nos deu. Meu olhar percorre as páginas, de um lado pro outro, tentando achar qualquer brecha, qualquer detalhe minúsculo que possa nos dar alguma vantagem. No meio do caos de um processo enorme desses, às vezes são as pequenas coisas que fazem a diferença. As práticas trabalhistas da Duvall Corp são uma bomba pronta pra explodir, e sei que a Eliane sabe disso. Ela sempre sabe.
No silêncio do apartamento, ouço o barulho das chaves e o som dos saltos da Zau ecoando pela sala, me arrancando dos pensamentos.
— Yana, tô saindo! — ela fala, no jeito dela, leve e despreocupado. Aposto que já tá de olho no relógio. Zau é dessas que não gosta de se atrasar nem pro aniversário do gato.
Sem tirar os olhos dos papéis, pergunto:
— Já vai pro bar?
Ela solta uma risada que já conheço de cor, uma risada que tem cansaço e diversão misturados. Ela adora o trabalho lá no Brisa do Leste, mas sei que essas noites longas, com gente rica e cheia de pose, não são lá tudo isso.
— Ainda não, tá cedo pra aguentar os bêbados chatos — responde, ajeitando a bolsa no ombro. — Vou passar na casa de uma amiga antes. Quer ir depois? Vai ter música ao vivo hoje.
Suspiro, finalmente tirando os olhos das páginas, que já começam a embaralhar na minha cabeça. Tentei sorrir, mas a verdade é que tô exausta. Esses primeiros dias de estágio estão me drenando mais do que eu imaginei.
— Sei lá, Zau... — falo, sem ânimo. — Tem tanta coisa pra revisar aqui, e o Joseph vai, com certeza, chegar amanhã se achando o gênio da turma. Como sempre, aliás.
Zau me olha com aquele sorriso que me conhece.
— Relaxa, Yana. Esse tal de Joseph não é ninguém. Você é a pessoa mais inteligente que eu conheço. Acha mesmo que ele vai te superar? — Ela me encara, a resposta já clara nos olhos dela. — Mas tá bom, te entendo. Você é dedicada demais pra largar isso agora. Só não esquece de viver, beleza?
A Zau tem razão. Sou dedicada demais. Tem hora que parece que eu vivo numa corda bamba, quase caindo, mas não consigo largar o que faço. É como se eu tivesse que provar algo o tempo todo. Talvez seja a sombra da Anaya, que sempre paira por perto, brilhando em tudo que faz. E eu... eu ainda tô aqui, tentando me encontrar.
— Vou pensar no seu convite — digo, voltando ao dossiê na minha frente. — Mas duvido que vou conseguir sair antes da meia-noite.
— Beleza, se mudar de ideia, manda mensagem — ela diz, já saindo. — A gente se vê!
Ela fecha a porta e o silêncio toma conta. Só o som leve do farfalhar das folhas enquanto organizo e anoto, numa busca frenética por uma pista, algo que me leve adiante. A verdade é que, por mais que a Zau tenha razão, eu não consigo desligar. Tem algo nesse caso que não sai da minha cabeça. Como se uma peça do quebra-cabeça tivesse desaparecido. A Duvall Corp tem um histórico sujo, e processos trabalhistas já fazem parte da rotina deles. Mas, dessa vez, a Eliane acredita que temos algo sólido, algo que pode derrubá-los de vez. E eu quero, preciso, estar à altura das expectativas dela.
Passo a mão pelo rosto, me espreguiçando na cadeira. Sinto meus ombros tensionados, cansados. Às vezes, me pergunto se escolhi o caminho certo. Direito é minha paixão, claro, mas o peso que vem com isso... as noites sem dormir, o medo constante de falhar. Não era exatamente o que eu tinha imaginado quando entrei na faculdade.
Tô quase voltando ao trabalho quando meu celular vibra na mesa. Pego o aparelho e vejo o nome do Chato piscando na tela. Sinto aquele misto de irritação e curiosidade. Ele nunca manda mensagem fora do ambiente da faculdade ou do estágio. O que será que ele quer agora?
— "Tá trabalhando no caso?" — ele pergunta.
Suspiro, sem saber exatamente o que responder. Claro que eu tô trabalhando no caso. O que mais ele acha que eu faria numa segunda-feira à noite?
— "Sim. Por quê?" — digito de volta, tentando soar o mais desinteressada possível.
Alguns segundos depois, a resposta chega:
— "Achei uma coisa interessante sobre a Duvall. Quer discutir amanhã de manhã antes da reunião com Eliane?"
Reviro os olhos, mas a curiosidade me atiça. Se ele encontrou algo, eu preciso saber o que é. Mas o simples fato de ele ter vindo até mim com isso me incomoda. Parte de mim quer descobrir tudo sozinha, mostrar que não preciso dele. Mas a outra parte — a pragmática — sabe que aceitar ajuda, mesmo de Joseph Stive, pode ser útil.
— "Me manda o que você encontrou. Discutimos pela manhã." — mando, querendo encerrar a conversa rápido.
— "Fechado. Boa noite, Montenegro." — ele manda, seguido de um emoji de sorriso. Típico dele.
Coloco o celular de lado e volto a focar no dossiê. As informações tão ali, mas ainda sinto que falta algo. Algo que, aparentemente, o Joseph já encontrou. Não é possível que ele esteja um passo à frente, de novo. Isso me deixa maluca. Como ele consegue ser tão... irritantemente eficiente?
As horas passam e, finalmente, meus olhos pesam. Minhas anotações começam a se embaralhar e o cansaço vence. Fecho o laptop, recolho os papéis e vou até a cozinha pegar um copo d'água. No silêncio, ouço o leve zumbido do refrigerador e o som distante do trânsito lá fora. Valeriam nunca dorme, mas eu, com certeza, preciso.
Deixo o copo na pia e vou pro quarto. A cama me chama, e eu me jogo no colchão, tentando esvaziar a cabeça.
Mas, claro, não é tão fácil assim.
A imagem do Joseph, com aquele sorriso autossuficiente, continua surgindo. Não porque eu goste dele, claro. É só porque ele é insuportavelmente irritante. E competitivo. E, de algum jeito, sempre parece me desafiar de formas que eu não consigo ignorar.
Suspiro, puxando o cobertor. Só quero fazer esse estágio funcionar. Mostrar pra Eliane que sou tão boa quanto qualquer um, que mereço estar aqui. Talvez até mais do que o Joseph Stive. Mas, por enquanto, ele tá um passo à frente.
O sol mal tinha nascido quando o despertador toca, me arrancando de um sono leve e inquieto. Já sei que o dia vai ser longo. Olho pro relógio: 6:30. A reunião com a Eliane é às 9:00, mas Joseph quer se encontrar antes pra discutir o que ele achou. Reviro os olhos só de pensar nisso, mas admito que estou curiosa.
Me arrumo rápido, opto por um café forte e uma roupa básica, mas profissional. O trajeto até o escritório é tranquilo, o trânsito de Valeriam ainda não tá caótico a essa hora da manhã.
Chego na MST & Associados às 7:45. Entro no prédio sentindo aquele friozinho no estômago. A cada dia, o peso da responsabilidade parece maior. Caminho até a sala onde combinamos de nos encontrar, e lá está ele. Claro que Joseph Stive já tá lá, sentado à mesa com o laptop aberto e a expressão concentrada. Quando ele me vê entrar, sorri de canto.
— Bom dia, Montenegro — ele diz, sem tirar os olhos da tela. — Pronta pra ver o que eu achei?
— Depende. Vale a pena? — retruco, enquanto me sento ao lado dele.
Ele se vira pra mim com aquele olhar que mistura ironia e diversão.
— Acho que você vai gostar.
Me inclino na cadeira, tentando disfarçar a curiosidade.
— Então, me mostra.
Joseph vira o laptop pra mim e, enquanto leio, sinto o coração acelerar. Ele realmente encontrou algo grande. Uma conexão entre a Duvall Corp e várias empresas de fachada envolvidas em fraudes trabalhistas.
Merda.
Eu odeio admitir, mas o Joseph Stive conseguiu.
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Atualizado até capítulo 67
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