O escritório hoje parece diferente naquela nessa. Havia um clima de tensão no ar, como se todos soubessem que algo grande estava prestes a acontecer. Talvez fosse o peso do caso que Eliane nos confiou. Não era qualquer tarefa, mas sim uma audiência preliminar de um processo de grande visibilidade. E lá estávamos eu e Joseph, prontos para representar o MST & Associados diante dos olhos do tribunal.
Eliane nos chamou à sua sala antes da audiência para discutir alguns pontos finais. Ela nos analisou com seu olhar cortante, aquele que parece ver além da fachada, e então começou a falar.
— "Hoje vocês vão participar de uma audiência preliminar importante para este escritório," começou ela, cruzando os braços. "Quero que mostrem total competência e respeito pelo processo, porque uma única falha será notada. Entenderam?"
Assentimos em silêncio, ambos cientes do peso daquela missão. Ela continuou, os olhos fixos nos nossos.
— "Lembrem-se de que uma audiência preliminar não é apenas sobre o caso. É também sobre como vocês apresentam o caso. Ayana, Joseph, os olhos estarão em vocês. Confiem na preparação que fizemos. E uma última coisa: mantenham a ética intacta. Vocês representam o MST & Associados, e nosso compromisso com a justiça é inegociável."
Joseph manteve o sorriso tranquilo, aquela confiança inabalável que ele sempre carregava. Mas eu, internamente, sentia o peso da responsabilidade. A confiança que Eliane depositava em nós era como uma prova da nossa competência, e eu sabia que não podia decepcionar. Saímos da sala dela com uma determinação silenciosa, prontos para enfrentar o que viesse pela frente.
Chegamos ao tribunal alguns minutos antes do horário, e, ao cruzar aquelas portas, um frio percorreu minha espinha. O ambiente era formal, austero. As pessoas estavam focadas, cada um em seu lugar, como peças em um tabuleiro de xadrez, aguardando o início do jogo. Eu me sentei ao lado de Joseph, tentando aparentar calma, mas por dentro, a excitação e o nervosismo brigavam.
— "Primeira vez em um caso assim, hein, Montenegro?" Joseph murmurou, me olhando de lado com um leve sorriso.
— "É. E que responsabilidade,” respondi, mantendo o tom profissional.
Ele riu, inclinando-se na cadeira e cruzando os braços.
— "Relaxa, só temos que parecer mais confiantes que eles. E se der errado… é só ter uma boa justificativa."
Eu revirei os olhos. Aquele jeito dele de sempre transformar qualquer situação séria em uma piada às vezes me irritava, mas sabia que era seu modo de lidar com a pressão.
A audiência começou, e conforme os advogados do lado adversário expunham suas estratégias, percebi o jogo de poder que acontecia diante de nós. Ali, ninguém queria apenas vencer; queriam manipular, convencer o tribunal a ver a realidade pelos olhos deles. Joseph e eu trocávamos olhares enquanto absorvíamos cada palavra dita. Ele, especialmente, parecia capturar cada detalhe, cada brecha, e fazia anotações rápidas no bloco de notas à sua frente.
Quando chegou nossa vez de falar, Joseph foi o primeiro a se levantar, mantendo o olhar afiado. Ele começou a expor nosso caso com uma clareza e confiança que me surpreenderam. Sabia que ele era bom, mas ali, diante do tribunal, vi um lado mais sério de Joseph, um lado que raramente mostrava.
Ele apresentou um argumento que, embora fosse eficaz, parecia jogar com uma área cinzenta da ética. Era uma manobra que beirava a manipulação, e vi alguns olhares de reprovação na sala. Eu me remexi na cadeira, inquieta. Ele percebeu e continuou, porém, sem hesitar.
Quando a audiência terminou, saímos da sala e eu não consegui me conter.
— "Joseph, o que foi aquilo? Aquele argumento… você sabe que aquilo não é ético."
Ele soltou uma risada baixa, quase desdenhosa.
— "Ah, vai, Montenegro. Esse é o mundo real. Ou você acha que a justiça é só sobre o que é certo ou errado? Às vezes, você precisa usar o que tem pra vencer."
— "Eu discordo, Joseph. Ser advogado é sobre buscar a justiça, não sobre vencer a qualquer custo."
Ele balançou a cabeça, rindo de novo.
— "Você tá sendo ingênua. O mundo lá fora não se importa com o que é justo, Ayana. Se você não souber jogar, você é engolida."
Fiquei quieta por um momento, sentindo a irritação crescer. Joseph estava sempre tão disposto a manipular e passar por cima das regras quando lhe convinha. Aquilo era o oposto do que eu acreditava.
— "Se é assim que você quer vencer, talvez eu prefira perder. O que importa pra mim é o respeito pela profissão. Não quero ser alguém que faz qualquer coisa pra ganhar," respondi, me virando e começando a caminhar para o lado oposto do corredor.
Ele me segurou pelo braço, e sua expressão suavizou um pouco, talvez percebendo que havia passado dos limites.
— "Olha, eu sei que você leva isso a sério. Mas talvez seja bom ver como as coisas funcionam de verdade. Só... mantenha a mente aberta, certo?"
Me soltei e respirei fundo, sem dizer nada. Joseph parecia ter uma visão distorcida do que era certo e errado, e eu não sabia se conseguiria lidar com essa diferença entre nós. Mas eu ia tentar. Por mais que ele me irritasse, reconhecia que ele tinha suas razões, e talvez, com o tempo, ele também pudesse ver a justiça por outro ângulo.
Assim que a audiência terminou e voltei à firma, já senti o peso do dia nas costas. Precisava de uma pausa e, mais do que isso, de uma boa conversa. Peguei o celular e, sem pensar duas vezes, liguei para Anaya. Quando ela atendeu, o som da risada dela já tirou um pouco do meu cansaço.
— "Ooooi, sua metida a advogada! Como tá a grande estrela de Valeriam?"
Eu ri, sentindo aquele conforto imediato que só a Anaya conseguia trazer.
— "Ah, cala a boca, metida nada! Tô aqui sobrevivendo, mal dando conta de tudo. E você, dona de fazenda, milionária em Belo Monte, tá como?"
Ela soltou uma gargalhada.
— "Milionária? Tá doida? Se milionária significa cobrir os rombos das dívidas de papai, então sou rica mesmo. Agora, você aí… Tá se achando já, hein, doutora?”
Eu bufei, tentando não rir também.
— "Ah, sério, Anaya, só tô tentando sobreviver. Hoje foi barra. Acho que não passo de uma sobrevivente nesse lugar."
Ela riu de novo, com aquele tom de quem já estava imaginando a situação.
— "Eu te conheço, Yana. Aposto que entrou naquela audiência toda séria, fazendo cara de ‘não mexe comigo’. Não foi?"
— "Confesso que sim, até tava com aquele sorrisinho de ‘tô arrasando’. Mas aí o Joseph fez o favor de abrir a boca com uma daquelas estratégias de deixar qualquer um desconfiado, e foi ladeira abaixo.”
Anaya gargalhou alto.
— "Sabia! Esse Joseph é aquele parceiro irritante, não é? Todo mundo fala dele aqui! Tipo, é a fofoca da fazenda. Todo mundo quer saber da saga Ayana e Joseph."
— "Pois então diz pro povo aí que ele é um folgado, só isso! E sério, Anaya, se esse cara não me mata de raiva até o fim do estágio, eu mesma vou arrumar um jeito de fugir."
Ela soltou mais uma risada.
— "Ah, mas conta mais, mana. Além do trabalho, como tá Valeriam? Alguma fofoca aí do escritório? Algum boy interessante, além do ‘Joseph, o terrível’?”
Eu revirei os olhos, mas entrei na brincadeira.
— "Pois então, ainda não tem nada de mais, só uns clientes ricos com casos enrolados. Ah, e adivinha quem reapareceu do nada, igual assombração?"
— "Não me diga que é o Julian, o cachorro molhado!”
Ri, sabendo que ela ia adorar essa parte.
— "Exatamente! Tá tentando puxar assunto, mandando flores e tudo. Tá achando que, sei lá, vou esquecer as merdas que ele aprontou só porque ele manda uns presentinhos.”
Anaya soltou um suspiro dramático.
— "Ai, ai, esses boys nunca mudam. Aposto que ele acha que é só abrir aquele sorriso dele e pronto, né?"
— "Pois é, e é aí que ele se engana. Tô na fase de passar longe de confusão, de ex, de tudo que não me agrega.”
Ela fez um som de aprovação, como se estivesse batendo palmas pelo celular.
— "É isso aí, minha irmã! Nada de voltar pra encrenca. Foco no sucesso! Mas se um dia der vontade de dar uma surtada e ligar pro ex, me liga antes. Vou te lembrar das promessas quebradas, da carinha de vítima e de todos os causos."
Eu ri, agradecida. Era bom poder contar com a Anaya pra me colocar na linha, mesmo quando eu mesma queria me desviar um pouco.
— "Não se preocupa, vou te ligar antes de fazer qualquer besteira. Agora, me fala de você. E o Dom Cabral? Aposto que ele ainda faz piada com a gente.”
Ela soltou uma gargalhada.
— "Nossa, o velho tá impossível! Outro dia tava lá contando pra todo mundo como você era uma criança séria, que ele ‘previu’ que ia ser advogada."
— "Ele não fala nada da senhorita não? Toda empresária, tomando conta de tudo aí na fazenda. Ele deve ter um orgulho danado.”
— "Ah, para com isso! Ele vive dizendo que eu virei uma ‘madame’ aqui no interior. Pensa num apelido que eu odeio!"
Ri, imaginando a cena.
— "Madame? Quem diria, hein? Próxima vez que eu for, vou só te chamar assim.”
Ela deu um riso dramático.
— "Nem tenta, Ayana! E, olha, se você não vier logo, vou eu aí. Vou parar essa sua Valeriam com meu charme de fazendeira!"
— "Quero só ver! Mas, sério, seria tudo ter você por aqui por um tempo."
Houve um momento de silêncio confortável, e eu senti a saudade apertar.
— "Um dia eu vou, mana. Aí você me apresenta esse mundo jurídico, e eu levo umas cestas básicas de goiaba pra esse povo da firma, pra ver se eles relaxam um pouco."
Nós rimos juntas, e por um instante, tudo pareceu mais leve até eu tentar pisar num terreno sensível.
— "Anaya… e a Suraya? Você tem alguma novidade? Vi pelo noticiário noutro dia que o caso dela mas uma vez a tentativade reabrir ocaso foi fracassada.”
Ela fez uma pausa, e eu senti o desconforto dela, como se aquela pergunta fosse um peso que ela sempre tentava evitar.
— "Ayana, isso não vai te ajudar agora. Concentre-se aí, no seu futuro. Quando for a hora certa, você vai saber o que precisa."
Frustrada, percebi que a conversa tinha chegado ao ponto que sempre chegava: Anaya desviando, insistindo que eu focasse na minha carreira e esquecesse Belo Monte e Suraya. Mas como esquecer quando tudo que faço é pra tentar mudar o que aconteceu com a nossa família?
Respirei fundo, aceitando que talvez não fosse o momento certo, e despedi-me dela, sentindo o peso da verdade ainda intocado, esperando para ser revelado.
Quando voltei à minha mesa, vi Joseph me esperando com alguns documentos, como se nada tivesse acontecido. Ele levantou os papéis com um leve sorriso.
— "Achei que poderia precisar de ajuda pra revisar isso aqui. Considerando nosso caso... tem algumas brechas que talvez você ache úteis, do jeito ético que você gosta."
Revirei os olhos, mas sorri de volta, sabendo que, mesmo com nossas diferenças, ainda podíamos aprender muito um com o outro.
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Atualizado até capítulo 67
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